“Os investidores não dão o benefício da dúvida”, diz Rodrigo Azevedo sobre o ajuste fiscal no Brasil

Rodrigo Azevedo, cofundador da gestora Ibiúna e ex-diretor do Banco Central, afirmou que o Brasil deixou passar a chance de fazer um ajuste fiscal gradual. Para ele, o país agora terá de partir para um choque. A declaração foi dada no painel “A economia brasileira no próximo ciclo: desafios e oportunidades”, realizado no sábado (7), no MBA Brasil, evento da ONG de mesmo nome em Chicago.
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O debate teve também Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS, e a moderação de Cristiane Schmidt, da MSGÁS e da ABDE. A proposta do painel falava em desafios e oportunidades, mas a maior parte da conversa ficou com os problemas.
Sem crédito, ajuste gradual perde espaço
Azevedo usou a comparação com uma empresa endividada para explicar o cenário. Quando uma companhia promete reduzir a alavancagem e os credores acreditam nisso, o custo do capital cai antes que a dívida diminua de fato. No caso brasileiro, ele avalia que esse voto de confiança acabou, após o teto de gastos e o arcabouço fiscal não darem resultado. “Os investidores não dão o benefício da dúvida”, disse.
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Sem condições políticas para um ajuste de choque ordenado, o gestor vê o país sujeito a um quadro mais grave. Nesse cenário, o dólar dispara, a inflação acelera e a atividade econômica perde fôlego. Como as despesas públicas são fixadas em valores nominais, a alta de preços corrói o valor real do gasto, e o ajuste acaba acontecendo do jeito que ninguém planejou: “que você não queria fazer”.
Solange propôs um caminho intermediário. Na visão dela, um ajuste de “um ponto e meio agora e depois a gente vê” não resiste às pressões políticas. O melhor seria anunciar logo uma agenda com economias espalhadas pelos anos, à semelhança do governo Temer, quando o juro real recuou de quase 8% para menos de 3%.
Dívida pode avançar mais de quatro pontos por ano
Cristiane lembrou que a dívida bruta saltou de cerca de 56% do PIB em 2014 para 72% em 2022 e chegou a 83% agora. Solange estimou que, com juros altos e crescimento fraco, a dívida pode crescer mais de quatro pontos do PIB por ano. “As empresas estão, de fato, com a corda no pescoço”, afirmou.
Para a economista do UBS, o país não tem saída sem mexer no gasto obrigatório, que responde por cerca de 90% do orçamento. A ideia não é cortar, e sim desacelerar o crescimento dessas despesas. Isso passa pela indexação do salário mínimo, pela Previdência, pelos pisos de saúde e educação e pelo desenho dos programas sociais.
Solange acrescentou que a credibilidade necessária hoje é maior que na era Temer, já que o juro real nos Estados Unidos saiu de zero para algo entre 2,5% e 3%. Azevedo, por sua vez, atribuiu os juros altos ao modelo de política econômica adotado nos governos do PT.
Na avaliação dele, o gasto “está pisando no acelerador”, e o Banco Central acaba obrigado a pisar no freio.
Crise abre espaço para novos negócios, afirma Azevedo
As oportunidades só entraram na conversa no fim. Azevedo lembrou que empresas como a Ambev surgiram no caos dos anos de hiperinflação. “O governo, quando está falido e desesperado, faz muita burrada. E isso dá muita oportunidade”, afirmou.
Cristiane encerrou o painel com um recado à plateia de estudantes: “Não desistam do Brasil.”
A reportagem viajou para Chicago a convite do MBA Brasil.
Editoria:
Redação Economia
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