“Os investidores não dão o benefício da dúvida”, diz Rodrigo Azevedo sobre o ajuste fiscal no Brasil

Para o ex-diretor do BC, o país perdeu a chance de um ajuste gradual e deve enfrentar um choque, com risco de dólar em alta, inflação e atividade fraca.

3 min

Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiúna Investimentos. Foto: Leandro Fonseca, data: 16/11/2021 | Foto: Reprodução/Exame
Rodrigo Azevedo, sócio da Ibiúna Investimentos. Foto: Leandro Fo...
▼

Rodrigo Azevedo, cofundador da gestora Ibiúna e ex-diretor do Banco Central, afirmou que o Brasil deixou passar a chance de fazer um ajuste fiscal gradual. Para ele, o país agora terá de partir para um choque. A declaração foi dada no painel “A economia brasileira no próximo ciclo: desafios e oportunidades”, realizado no sábado (7), no MBA Brasil, evento da ONG de mesmo nome em Chicago.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O debate teve também Solange Srour, diretora de macroeconomia do UBS, e a moderação de Cristiane Schmidt, da MSGÁS e da ABDE. A proposta do painel falava em desafios e oportunidades, mas a maior parte da conversa ficou com os problemas.

Sem crédito, ajuste gradual perde espaço

Azevedo usou a comparação com uma empresa endividada para explicar o cenário. Quando uma companhia promete reduzir a alavancagem e os credores acreditam nisso, o custo do capital cai antes que a dívida diminua de fato. No caso brasileiro, ele avalia que esse voto de confiança acabou, após o teto de gastos e o arcabouço fiscal não darem resultado. “Os investidores não dão o benefício da dúvida”, disse.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Sem condições políticas para um ajuste de choque ordenado, o gestor vê o país sujeito a um quadro mais grave. Nesse cenário, o dólar dispara, a inflação acelera e a atividade econômica perde fôlego. Como as despesas públicas são fixadas em valores nominais, a alta de preços corrói o valor real do gasto, e o ajuste acaba acontecendo do jeito que ninguém planejou: “que você não queria fazer”.

Solange propôs um caminho intermediário. Na visão dela, um ajuste de “um ponto e meio agora e depois a gente vê” não resiste às pressões políticas. O melhor seria anunciar logo uma agenda com economias espalhadas pelos anos, à semelhança do governo Temer, quando o juro real recuou de quase 8% para menos de 3%.

Dívida pode avançar mais de quatro pontos por ano

Cristiane lembrou que a dívida bruta saltou de cerca de 56% do PIB em 2014 para 72% em 2022 e chegou a 83% agora. Solange estimou que, com juros altos e crescimento fraco, a dívida pode crescer mais de quatro pontos do PIB por ano. “As empresas estão, de fato, com a corda no pescoço”, afirmou.

Para a economista do UBS, o país não tem saída sem mexer no gasto obrigatório, que responde por cerca de 90% do orçamento. A ideia não é cortar, e sim desacelerar o crescimento dessas despesas. Isso passa pela indexação do salário mínimo, pela Previdência, pelos pisos de saúde e educação e pelo desenho dos programas sociais.

Leia também

Solange acrescentou que a credibilidade necessária hoje é maior que na era Temer, já que o juro real nos Estados Unidos saiu de zero para algo entre 2,5% e 3%. Azevedo, por sua vez, atribuiu os juros altos ao modelo de política econômica adotado nos governos do PT.

Na avaliação dele, o gasto “está pisando no acelerador”, e o Banco Central acaba obrigado a pisar no freio.

Crise abre espaço para novos negócios, afirma Azevedo

As oportunidades só entraram na conversa no fim. Azevedo lembrou que empresas como a Ambev surgiram no caos dos anos de hiperinflação. “O governo, quando está falido e desesperado, faz muita burrada. E isso dá muita oportunidade”, afirmou.

Cristiane encerrou o painel com um recado à plateia de estudantes: “Não desistam do Brasil.”

A reportagem viajou para Chicago a convite do MBA Brasil.

A Redação Economia reúne a cobertura do Clique Fatos sobre economia, negócios, mercado financeiro, agronegócio e finanças pessoais. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ative nossas Notificações

Ative nossas Notificações

Fique por dentro das últimas notícias em tempo real!