Lula negocia Esplanada de 40 ministérios, recorde, para abrigar derrotados e atrair o Centrão

Na terceira passagem pelo Palácio do Planalto, Lula precisou de 38 cadeiras em volta da mesa para acomodar seus auxiliares em uma reunião ministerial. O número deve subir para quarenta no quarto mandato, o que seria um recorde histórico. A montagem da Esplanada virou peça-chave da estratégia política do presidente, que pretende usar os cargos para abrigar aliados derrotados nas urnas e construir uma base mais consistente no Congresso.
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Ao assumir a Presidência pela primeira vez, Lula encontrou uma estrutura deixada por FHC com 26 ministérios, mais que o dobro das doze pastas de Fernando Collor. Mesmo assim, ampliou os cargos com novas estruturas para combate à fome, direitos humanos, igualdade racial, direitos das mulheres e pesca, e elevou para 34 o número de assentos na cúpula do governo.
Centrão quer fechar apoio com pastas mais robustas
Uma das prioridades do Planalto é firmar com o Centrão um acordo de “papel passado”, que resulte em engajamento oficial do bloco nas agendas do governo. Isso não aconteceu no atual mandato, apesar de o petista ter dado ministérios para União Brasil, PP e Republicanos.
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As siglas se dividiram nas votações do Congresso e, no segundo turno, apoiaram o rival, Flávio Bolsonaro (PL). PSD e MDB, com três pastas cada um, também não acompanharam a agenda do terceiro mandato nem a campanha de Lula.
O cenário, porém, pode ser um pouco mais favorável ao presidente. Os cinco partidos de centro somam 207 deputados, mas saíram das urnas pressionados pelo avanço do PL, que terá as maiores bancadas na Câmara (121) e no Senado (29). A legenda pretende disputar o comando das Casas, hoje nas mãos de Hugo Motta (Republicanos), na Câmara, e de Davi Alcolumbre (União Brasil), no Senado.
Uma exigência certa do Centrão é aumentar o calibre das pastas. Na atual gestão, o bloco ficou com Turismo (União Brasil), Esporte (PP) e Portos e Aeroportos (Republicanos), nenhuma entre as mais cobiçadas. A ideia é que o tamanho do apoio acompanhe o tamanho do orçamento oferecido.
Nesse contexto, as barganhas já começaram com nomes como o do presidente do PSD, Gilberto Kassab. O partido comanda Agricultura, Minas e Energia e a pequena pasta da Pesca, e pode cobrar mais por ter sido a única sigla de centro a não embarcar na candidatura de Flávio.
O Republicanos pode indicar de novo o ex-ministro Silvio Costa Filho, que comandou Portos e Aeroportos, mas a tendência é que exija uma pasta maior. A legenda saiu das urnas com quatro governos estaduais, entre eles os dos dois maiores colégios eleitorais, São Paulo (Tarcísio de Freitas) e Minas Gerais (Cleitinho Azevedo).
Derrotados, sucessão e tensão no PT complicam a montagem
Lula também precisa encontrar espaço para aliados derrotados nas eleições, como os ex-ministros Fernando Haddad, Marina Silva, Simone Tebet, Márcio França, Paulo Pimenta, Gleisi Hoffmann, Paulo Teixeira e Carlos Fávaro. Muitos entraram na disputa incentivados pelo próprio presidente.
Há ainda parceiros que vão precisar de espaço político até 2030, como os ex-prefeitos João Campos e Eduardo Paes, e congressistas que não renovaram o mandato, como os senadores Randolfe Rodrigues, líder de Lula no Congresso, e Renan Calheiros.
A tarefa não será simples. João Campos, presidente do PSB, é ventilado para o Ministério da Ciência e Tecnologia, pasta que já foi comandada por seu pai, Eduardo Campos. Ele, no entanto, disse ao vice Geraldo Alckmin (PSB) que prefere uma pasta com maior orçamento e entregas mais palpáveis, especialmente obras.
O próprio PT também pesa na conta. Tradicionalmente contemplado com postos estratégicos, o partido pode perder espaço diante da necessidade de ampliar a base do governo. Em alguns momentos, chegou-se a cogitar entregar a articulação política (Relações Institucionais) a alguém do Centrão, mas o PT não abriu mão do cargo e o ocupou durante todo o mandato, com Alexandre Padilha, Gleisi Hoffmann e José Guimarães.
Dentro do partido, a ansiedade com a sucessão também cresce. Nos bastidores, a distribuição de Fazenda e Casa Civil deve indicar quem larga na frente para disputar o comando da legenda em 2030. Os nomes mais citados para as duas pastas são Camilo Santana, Rafael Fonteles e Fernando Haddad.
A disputa já elevou a tensão entre dirigentes do Sudeste, como o presidente Edinho Silva, e as lideranças emergentes do Nordeste. Nos últimos dias, a discussão virou troca de farpas entre Edinho, que teria sido instado a expulsar quem não se empenhou pela reeleição de Lula, e o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, vice-presidente do partido.
Influência de Janja e continuidade de programas entram na conta
A primeira-dama, Janja da Silva, exerce influência em pastas menores, que atendem públicos e bandeiras da esquerda, como Igualdade Racial, Direitos Humanos, Povos Indígenas, Mulheres e Cultura. Pessoas próximas ao governo avaliam que a participação dela nas indicações dificulta a prevalência de critérios técnicos em algumas dessas pastas e, principalmente, a eficiência delas.
Lula deve criar mais um ministério nessa área, o dos Idosos, para atender um público que foi decisivo em sua vitória.
Outra preocupação é a continuidade dos programas públicos. Funcionários de diferentes áreas temem que as trocas de comando provoquem exonerações em massa e comprometam iniciativas que ainda dependem de estrutura, articulação e recursos. Isso pode interromper processos em andamento, sobretudo em ministérios que precisam coordenar ações com estados, municípios e organizações da sociedade civil.
Também está em debate o tamanho ideal do gabinete. Outros países têm estruturas mais enxutas, como os EUA, com quinze, e a França, com dezenove. A Suíça toca seu governo com apenas sete ministros. Para o sociólogo Paulo Ramos, pesquisador da Unicamp, o número de ministérios não basta para medir a eficiência do Estado. “Isso exige uma musculatura de gestão”, diz.
Ele defende, porém, que a estrutura do governo seja pensada para além de um ciclo de quatro anos.
Recordista de mandatos como presidente da República, Lula prometeu fazer, a partir de 2027, sua melhor gestão. A tarefa é difícil para quem encerra a terceira passagem pelo Planalto com quase 50% de desaprovação. Ao escolher quem vai ajudá-lo a governar, o presidente terá de conciliar, na Esplanada, interesses que nem sempre caminham juntos.
Editoria:
Redação Política
A Redação Política reúne a cobertura do Clique Fatos sobre governo, Congresso, eleições e Justiça. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].



