Mesmo sem ser cenário base, recessão em 2027 preocupa mercado com consumo e indústria em queda

Juros altos, Selic em 13,75% e dúvidas sobre a política fiscal de Lula no novo mandato alimentam o alerta.

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Economia brasileira; PIB do Brasil; moeda | Foto: Reprodução/Exame

O risco de recessão no Brasil em 2027 ganhou peso nas avaliações de economistas e instituições financeiras. A desaceleração da atividade, os juros altos e a piora das expectativas para as contas públicas explicam a preocupação. O cenário se fortaleceu depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja política fiscal no próximo mandato gera dúvidas entre investidores.

Apesar do alerta, a recessão ainda não aparece como cenário base do mercado. No relatório Focus, divulgado pelo Banco Central em 3 de novembro, a projeção mediana para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027 caiu de 1,31% para 1,20%. Ou seja, a expectativa segue de expansão, só que em ritmo mais lento.

Indicadores recentes alimentam o temor de retração

A economia brasileira cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, segundo o IBGE, mas o consumo das famílias recuou 0,4% no mesmo período. Em setembro, a produção industrial caiu 0,8%. Os índices de gerentes de compras, o PMI, também registraram retração da atividade industrial e dos serviços em outubro.

Esse enfraquecimento acontece enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) mantém a Selic em 13,75% ao ano. A pausa no ciclo de cortes de juros, em novembro, aumentou as dúvidas sobre a capacidade de recuperação da economia em 2027. Para economistas ouvidos pela EXAME, o maior perigo combina três fatores: uma economia já fraca, juros altos por mais tempo para conter a inflação, e o real desvalorizado, somados à falta de sinais claros da política fiscal durante o Lula 4.

O que dizem economistas sobre o risco de recessão em 2027?

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, afirma que o quadro piorou depois da eleição, com expectativas mais ruins para inflação, câmbio e juros. Antes dessa virada, segundo ele, o Banco Central ainda tinha espaço para seguir reduzindo a Selic.

A reação dos mercados dificultou esse caminho e elevou a chance de a política monetária continuar apertada em 2027.

“Essa piora nas expectativas, um juro que não cede, uma inflação que permanece elevada, um câmbio que deprecia”, afirma Vale, ao enumerar o que pode aprofundar a desaceleração. Ele observa que o país já perde ritmo e que os consumidores entram no próximo ano com a renda muito comprometida e problemas de inadimplência. “Projeto 1% de crescimento no ano que vem, mas está caminhando para ser menos do que isso”, diz.

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Para Vale, sem medidas fiscais concretas, a deterioração das expectativas tende a se agravar, e o caminho para uma recessão em 2027 se abre.

O economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo, também vê risco elevado de contração caso o governo mantenha a orientação fiscal do mandato anterior. Segundo ele, a maior percepção de risco sobre a dívida pública eleva as taxas exigidas pelos investidores.

Isso pressiona o câmbio, alimenta a inflação e pede uma resposta mais dura do Banco Central, com impacto extra sobre consumo, crédito e investimentos.

“Eu acho que existe uma grande probabilidade, se o presidente Lula repetir o mandato dos últimos quatro anos, de a gente caminhar para uma recessão”, afirma Camargo. Ele diz que a economia já mostra sinais de uma desaceleração mais intensa. A Genial projeta queda de 0,2% do PIB no terceiro trimestre de 2026 e estabilidade no quarto trimestre, conforme o cenário apresentado pelo economista na entrevista.

Camargo pondera que dois trimestres seguidos de queda do PIB, situação chamada com frequência de recessão técnica, não seriam, por si só, o principal problema. O receio maior é uma contração mais forte e prolongada da produção, com efeitos sobre emprego e renda.

Itaú vê crédito mais fraco e Safra rebaixa bancos

Os bancos também demonstram preocupação com 2027. Durante teleconferência de resultados, o presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy, disse que as perspectivas para o próximo ano pioraram. “Quando a gente olha o cenário de 2027, as condições econômicas são piores”, diz.

Ele citou as revisões nas projeções do PIB, a possibilidade de alta do desemprego e juros restritivos por mais tempo.

Maluhy também afirmou que a incerteza já reduz a procura por crédito, sobretudo entre grandes empresas, que adiam investimentos e preferem empréstimos de prazo mais curto. Mesmo assim, ele avalia que o Itaú está preparado para um cenário adverso, graças à diversificação da carteira, à disciplina na concessão de empréstimos e ao volume de provisões para eventuais perdas.

Entre gestores, a postura é de cautela. Marcus Codeceira, integrante da equipe de gestão de fundos estruturados da Yards Asset, diz que a gestora ainda acompanha o cenário político e econômico antes de definir uma visão final sobre uma eventual recessão. “Juros elevados são um problema, porque o crédito mais caro reduz investimentos, consumo e a expansão das empresas”, afirma.

Codeceira também aponta o avanço das recuperações judiciais, principalmente entre companhias mais endividadas, como motivo de preocupação, e diz que o agronegócio já sente o efeito.

Já Marconi Maciel, diretor de operações da Yards Asset, afirma que a gestora prioriza decisões táticas, com maior exposição a ativos vistos como seguros, incluindo títulos do Tesouro Nacional. Enquanto isso, a empresa avalia estratégias de médio e longo prazo.

O Safra também reviu suas projeções para o setor bancário. Em relatório sobre os bancos brasileiros, a instituição adotou premissas mais conservadoras para lucros e taxas de desconto mais altas, por causa do risco maior de recessão em 2027. Para o Safra, os bancos enfrentam crédito mais difícil, com demanda fraca, mais risco de inadimplência e menos margem para compensar perdas.

Outro ponto é o vencimento das carências de empréstimos a pequenas e médias empresas com garantias governamentais, que pode exigir mais provisões.

Com isso, o Safra rebaixou Itaú, Bradesco e Banco do Brasil e cortou os preços-alvo dos três. O Itaú passou para recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 51 para R$ 47. O Bradesco também caiu para Neutro, com preço-alvo de R$ 22 para R$ 17. O Banco do Brasil foi para Desempenho Abaixo da Média, com preço-alvo de R$ 26 para R$ 19. Já o Nubank manteve Desempenho Acima da Média, apesar da redução do preço-alvo de US$ 19 para US$ 15.

Segundo a instituição, uma recessão mais profunda, a piora da qualidade dos ativos e mudanças regulatórias estão entre os principais riscos negativos. A revisão não significa que o banco considere a recessão inevitável em 2027. Ela mostra, porém, que a chance de contração ganhou mais peso nas projeções para o setor financeiro.

Ajuste fiscal é a peça que pode decidir o rumo de 2027

A evolução das contas públicas aparece como um dos fatores centrais para saber se a economia terá só um período de crescimento mais fraco ou uma contração mais intensa em 2027. Os economistas ouvidos avaliam que a confiança dos investidores na capacidade do governo de estabilizar a dívida influencia diretamente o câmbio e os juros de longo prazo.

Para Camargo, recuperar a credibilidade fiscal exige mais do que anunciar metas. É preciso apresentar medidas concretas que convençam o mercado de que serão cumpridas. Sem um plano considerado crível, a pressão sobre o mercado financeiro tende a continuar e os juros podem cair com dificuldade.

Vale também defende um ajuste fiscal mais amplo, mas vê entraves políticos para mexer em despesas obrigatórias, benefícios e em diferentes faixas da população. Ele diz que um ajuste eficaz precisaria envolver o conjunto do governo, e não apenas o Ministério da Fazenda.

O impasse está no contraste entre parte do mercado, que espera um ajuste estrutural, e os sinais dados por Lula na campanha, quando não houve compromisso com um programa amplo de cortes de despesas.

O presidente defende o crescimento econômico como caminho para equilibrar as contas públicas. Os economistas, por outro lado, dizem que a expansão da atividade, sozinha, pode não bastar para estabilizar a trajetória da dívida. A orientação do novo mandato, portanto, será observada de perto por investidores e analistas.

A trajetória do PIB no segundo semestre de 2026, as condições do crédito, a inflação e as primeiras medidas econômicas do novo mandato devem indicar se a desaceleração vai virar recessão em 2027.

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