Análise: EUA priorizam Cuba em relação à Nicarágua e evitam ações diretas contra Ortega
Após a captura do ditador da Venezuela em janeiro de 2026, muitos se questionam se a Nicarágua seria o próximo alvo da Casa Branca, especialmente após o governo nicaraguense descartar novas eleições. No entanto, até o momento, Washington não demonstrou sinais claros de ações iminentes contra o país governado por Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, que têm adotado uma postura discreta ao lidar com a administração Trump.
Logo após a operação dos EUA na Venezuela, a Nicarágua tomou iniciativas que foram vistas como tentativas de apaziguar Washington. O governo libertou dezenas de prisioneiros e reestabeleceu a exigência de visto para cubanos, restringindo sua imigração para os Estados Unidos.
Em abril deste ano, novas sanções foram impostas por Washington a autoridades nicaraguenses, focando em dois filhos de Ortega e Murillo. O Secretário de Estado americano, Marco Rubio, por sua vez, tem elevado suas críticas à Manágua, especialmente após a recente decisão de Ortega de cancelar as eleições.
Análise do cenário político na Nicarágua
O cientista político Kai Thaler, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, destacou que Cuba parece ser uma prioridade maior para os EUA do que a Nicarágua. Ele ressaltou que a Venezuela possui recursos naturais que a Nicarágua não tem, e que a Nicarágua é governada por uma dinastia familiar sem um sucessor claro. “Todas as alternativas de liderança foram eliminadas por Ortega e Murillo”, afirmou Thaler.
A abordagem dos EUA em relação à Nicarágua é distinta daquela aplicada à Venezuela e Cuba. Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração do Diálogo Interamericano, sugere que Washington busca evitar ações que poderiam desencadear crises migratórias ou represálias internas no país.
Em vez disso, os EUA apostam em mudanças gradativas sem intervenção direta. Orozco acredita que a inércia política sob Ortega e Murillo poderá gerar conflitos internos e descontentamento social.
Embora o governo sandinista esteja no poder desde 2007 sem enfrentar grandes revoltas ou crises econômicas, a situação atual permite que o casal presidencial mantenha um perfil discreto. Em declarações raras feitas em abril deste ano, Ortega chamou as sanções americanas contra seus filhos de “mentalmente perturbadas”, mas três meses depois anunciou o fim das eleições e descreveu a captura de Maduro como uma “monstruosidade”.
Para Thaler, isso indica que o governo não acredita que os EUA vão se concentrar na Nicarágua.
Impacto das sanções e possíveis consequências futuras
Orozco também comentou sobre as sanções americanas que têm sido aplicadas à Nicarágua sem resposta significativa do governo local. Segundo ele, essa aparente inércia gera uma impressão errônea de que a Nicarágua está sendo tratada como uma extensão das políticas contra Venezuela e Cuba.
Orozco afirmou que os cidadãos não sabem quem são os líderes no exílio.
Em relação às eleições gerais previstas para novembro de 2027 — caso Ortega mantenha sua promessa — Orozco acredita que os EUA planejam sincronizar pressões para implementar reformas necessárias ao longo do tempo. A ideia é encurralar o regime atual em busca de uma transformação democrática.
No entanto, Thaler observa que atualmente os EUA não estão priorizando questões relacionadas à Nicarágua. Ele aponta que as sanções são frequentes mas não indicam uma atenção crescente por parte da administração americana: “É difícil imaginar uma mudança significativa na política dos EUA em relação à Nicarágua; atualmente, o país está em guerra com o Irã.”
A dinastia Ortega-Murillo
Thaler enfatiza que mesmo sem um diálogo formal estabelecido com Washington, Ortega e Murillo estão sempre abertos a negociações. Sinais como a libertação de prisioneiros são apenas estratégias superficiais para reduzir pressões externas enquanto mantêm seu controle sobre o poder.
A oposição nicaraguense é fragmentada e carece de uma causa unificada além da derrubada da ditadura. Embora existam figuras proeminentes como Félix Madariaga tentando manter o assunto nicaraguense vivo no discurso internacional, não há unidade suficiente para provocar mudanças significativas no regime.
Os analistas concordam que o futuro imediato da dinastia Ortega-Murillo não parece ameaçado. Apesar das especulações sobre uma possível divisão interna ou sucessão familiar com um dos filhos assumindo o poder, não existem alternativas viáveis dentro do regime. “A continuidade do regime é o cenário mais plausível”, conclui Thaler.
Ambos os especialistas ressaltaram que Rosario Murillo já exerce um papel significativo nas decisões políticas diárias do país e pode estar se consolidando ainda mais como líder forte diante da diminuição da presença pública de Daniel Ortega aos 80 anos.
Atualização em 29/10/2026: o texto foi corrigido com base na fonte original.
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