Partido Republicano perde o Senado e vence apertado na Flórida: o que muda para Cuba?

O Partido Republicano sofreu um revés nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos: perdeu o controle do Senado e teve derrotas em estados como Texas, Kansas, Ohio, Iowa e Carolina do Sul. Na Flórida, apesar da vitória republicana, a disputa ficou apertada, em meio ao avanço democrata nas áreas urbanas e em condados de maioria latina.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O resultado foi acompanhado de perto em Cuba, que enfrenta uma escalada de pressão de Washington. Desde janeiro, os Estados Unidos mantêm uma política de asfixia energética e intensificaram a guerra econômica contra a ilha.
Flórida concentra disputas sobre a política para Cuba
A Flórida é um dos principais centros das decisões dos Estados Unidos sobre Cuba, segundo Alejandra García Elizalde, analista e jornalista internacional cubana, em entrevista ao Brasil de Fato. Na avaliação dela, o estado abriga “aqueles que fazem da indústria do ódio a Cuba um negócio”.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
García Elizalde associa a força desses grupos à atuação de figuras que promoveram ações contra a Revolução Cubana. Ela cita “a herança deixada pelos terroristas que foram apadrinhados e protegidos pelos Estados Unidos, como Luis Posada Carriles e Orlando Bosch”.
Esses setores defendem a derrubada do governo cubano por diferentes caminhos, de ações terroristas ao lobby político e econômico. “Durante décadas, esse estado definiu os rumos das políticas dos Estados Unidos para a ilha, marcados pelo ódio, pelo anticastrismo e pelo anticomunismo. Esses elementos permearam e definiram a estratégia de Trump. A Flórida é um dos principais redutos da ultradireita no continente”, afirma a analista.
Comunidades de origem cubana, venezuelana, colombiana, nicaraguense e haitiana somam mais de 25% da população da Flórida. Esse peso dá relevância eleitoral e midiática às políticas de Washington para a América Latina e o Caribe. “É onde se define boa parte das políticas dos republicanos para a América Latina e o Caribe”, diz García Elizalde.
Republicanos venceram por margens estreitas
O resultado representa um recuo para o partido, que vinha consolidando sua hegemonia no estado. Em 2022, Ron DeSantis e Marco Rubio venceram com vantagens de 16 a 19 pontos percentuais; dois anos depois, Donald Trump ganhou na Flórida por 13 pontos.
Nas disputas pelo governo estadual e pelo Senado, os republicanos ficaram com cerca de 50% a 51% dos votos, enquanto os democratas obtiveram aproximadamente 48% e 49%. O avanço democrata também apareceu nas eleições para a Câmara dos Representantes.
Os deputados republicanos de ultradireita Mario Díaz-Balart, Carlos Giménez e María Elvira Salazar, todos de origem cubana e influentes em Washington na defesa do endurecimento das sanções contra Cuba, conseguiram se reeleger, mas com margens reduzidas.
No Distrito 27, que inclui boa parte de Miami, Salazar recebeu 50,2% dos votos, ante 49,8% do democrata Eliott Rodríguez. A diferença levou os democratas a pedir uma recontagem. Díaz-Balart venceu no Distrito 26 com 49,9%, contra 49,1% de Nicole Lucklin.
Diáspora cubana pode estar mudando de percepção
Para García Elizalde, o desempenho eleitoral indica que “as políticas de ódio contra Cuba já não contam com a mesma simpatia entre a comunidade cubana nos Estados Unidos”. Ela pondera, porém, que ainda é cedo para saber se essa mudança produzirá efeitos concretos na política de Washington.
A analista vê sinais de transformação na forma como a diáspora avalia a situação da ilha. “É possível que esteja ocorrendo uma mudança na percepção da diáspora latino-americana e, especialmente, da cubana sobre o que está acontecendo com Cuba”, afirma.
Muitos integrantes da comunidade são descendentes de cubanos e têm familiares na ilha, conhecendo de perto as dificuldades enfrentadas pela população. Ao mesmo tempo, encontram cada vez mais obstáculos para ajudar parentes, viajar a Cuba e manter os vínculos familiares.
García Elizalde também menciona as políticas antimigratórias e as campanhas de ódio e xenofobia contra pessoas que não são estadunidenses, que atingem os próprios cubanos. A redução de benefícios migratórios historicamente concedidos a quem chegava aos Estados Unidos também faz parte desse cenário.
Essas condições privilegiadas, que na prática abriam as portas do país a cubanos que chegassem por via marítima ou cruzassem a fronteira, começaram a mudar no primeiro mandato de Trump. A situação piorou no atual governo, quando muitos desses benefícios deixaram de ser concedidos.
“É preciso acompanhar de perto o que acontece, sem ser excessivamente otimista, mas mantendo a atenção e tendo em mente que o resultado de ontem na Flórida não foi uma vitória garantida e tranquila para o Partido Republicano nem para esses grupos que defendem uma intervenção em Cuba e pedem fome e sanções contra a ilha”, afirma García Elizalde.
Analista não prevê mudança na pressão de Washington
Além da disputa eleitoral, a analista aponta a determinação de Cuba em defender sua integridade territorial como um possível fator para conter uma agressão militar dos Estados Unidos. “Não acredito que um ataque militar a poucas milhas do território estadunidense seja o verdadeiro interesse de Washington”, diz.
Na avaliação dela, também pesama rejeição à intervenção, as críticas ao aumento dos gastos militares e os custos da guerra no Irã, que incluem consequências econômicas, energéticas e humanas. García Elizalde acrescenta que os Estados Unidos sabem que Cuba responderia a um eventual ataque.
A analista afirma ainda que Washington enfrenta dificuldades para identificar uma possível sucessão política na ilha. “Eles fazem tentativas desesperadas de identificar quem poderia suceder o que consideram ser o governo cubano, mas não conseguiram. A CIA está fazendo apelos explícitos e desesperados para tentar recrutar pessoas dispostas a promover uma mudança em Cuba, porque eles próprios não conseguem identificar um possível sucessor”, afirma.
García Elizalde prevê a continuidade das pressões econômicas e políticas dos Estados Unidos e diz que Cuba manterá uma postura firme de resistência. Por isso, não espera mudanças substanciais na política de Washington, apesar do recuo republicano na Flórida. “Ainda que não ocorra um confronto militar, acredito que essa política hostil continuará e que nada vai mudar nesse sentido”, conclui.
eriwa
Editoria:
Redação Internacional
A Redação Internacional reúne a cobertura do Clique Fatos sobre os principais acontecimentos fora do Brasil. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].



