Mesmo com a ida de Flávio Bolsonaro aos EUA, Lafer vê no pragmatismo de Trump um freio à crise

A viagem de Flávio Bolsonaro (PL) aos Estados Unidos, pouco mais de 24 horas após perder a disputa presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pode prejudicar a relação entre os dois países. A avaliação é do ex-chanceler Celso Lafer, que comandou o Itamaraty nos governos de Fernando Collor (em 1992) e de Fernando Henrique Cardoso (entre 2001 e 2002), em entrevista ao Neo Feed.
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Para Lafer, o que deve pesar em uma eventual escalada da crise é a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos. Ele afirma que Donald Trump pode ser personalista e arbitrário, mas também é pragmático, e lembra que o presidente americano disse recentemente ter simpatia por Lula.
Relação comercial deve frear uma crise maior
Segundo o ex-chanceler, os interesses comerciais são o principal freio. “Os Estados Unidos têm muitos interesses comerciais com o Brasil, como no caso das terras raras, para dar um exemplo. Trump vai tratar disso da maneira como já funciona seu pensamento. Mas é bem capaz de ele ser contraditório. E não seria uma novidade”, disse.
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Lafer acredita que, diante do novo conflito, os governos tendem a paralisar, por ora, as negociações sobre as tarifas de importação impostas no ano passado pelo governo Trump. “Precisa dar tempo ao tempo. A verdade é que essas questões não serão resolvidas agora. Mas acredito que serão retomadas em breve”, afirmou.
Flávio se junta ao irmão nos Estados Unidos
Com a ida aos Estados Unidos, Flávio se junta ao irmão, Eduardo Bolsonaro, autoexilado no país desde o fim de fevereiro de 2026. Eduardo foi condenado em junho a quatro anos e dois meses de prisão por articular sanções e pressionar o governo americano para interferir no julgamento de seu pai.
Essa ação acabou contribuindo para a imposição do tarifaço.
Flávio deixou o País depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), vetou sua saída e pediu que ele entregasse seus passaportes. O senador não cumpriu a determinação.
Lafer vê situação constrangedora para o senador
Para Lafer, a viagem coloca Flávio Bolsonaro em uma posição absolutamente constrangedora e expõe uma incoerência em seu discurso. “Depois de ter feito um discurso em que não reconheceu a vitória de Lula, e que pretendia impugnar a eleição, depois recuar, e achar que pode ir se encontrar com o irmão [Eduardo Bolsonaro], sendo que ambos têm relação com o Trump, ele dá mais um exemplo de utilização de contatos no exterior para dificultar a vida do governo brasileiro e do próprio País.”
No primeiro momento, o ex-chanceler não vê risco de crise diplomática, porque, segundo ele, nenhum dos governos tem interesse em um conflito desse tamanho. Ainda assim, ele afirma que a investigação poderia seguir no Brasil por meio de carta rogatória, embora não creia que o governo brasileiro vá adotar essa via agora.
Lafer também descarta que Trump repita, no caso brasileiro, o reconhecimento de Juan Guaidó como presidente exilado da Venezuela, em 2019. Para ele, não há interesse claro do presidente americano nesse caso, e o exílio de um político sem mandato também não tem precedente na história.
Sobre asilo, avalia que não faz parte da tradição norte-americana, mas não descarta a hipótese, já que Trump não precisa fundamentar sua decisão.
Itamaraty e Marco Rubio no centro da negociação
Lafer diz que o Itamaraty tem vocação para desdramatizar problemas, o que ajuda a encontrar saídas. Ele vê dificuldade extra no trato com o secretário de Estado Marco Rubio, que, na sua avaliação, compartilha a visão de Trump de que o continente americano é área de influência dos Estados Unidos.
Para o ex-chanceler, o discurso de Lula deixa claro que o Brasil não aceitará ser acomodado nesse terreno. “Estamos na hora de moderação e de pensar exclusivamente no Brasil. Eu acredito que o bom senso vai acabar prevalecendo”, declarou.
Editoria:
Redação Economia
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