Real pode recuperar parte da queda: bancos apostam em ajuste fiscal e Congresso mais conservador

Economistas e estrategistas de grandes instituições financeiras internacionais avaliam que a forte desvalorização do real após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi exagerada. Eles enxergam espaço para uma recuperação parcial da moeda brasileira.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Para esses profissionais, um ajuste das contas públicas e um Congresso de perfil mais conservador podem frear uma agenda fiscal expansionista. Mesmo com as incertezas, a visão sobre o real segue, em geral, construtiva.
Dólar sobe 10,33% desde 23 de outubro
Desde o último pregão antes do segundo turno, em 23 de outubro, a moeda americana acumulou alta de 10,33% frente ao real. Com isso, o dólar passou a registrar leve valorização no ano.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Só na primeira semana após a reeleição de Lula, o dólar subiu mais de 9% em relação ao real. Foi a maior valorização semanal desde o fim de outubro de 2008, no auge da crise financeira global provocada pelo colapso do setor imobiliário americano.
Commerzbank vê correção e mantém dólar em R$ 5,20
O analista de câmbio Michael Pfister, do banco alemão Commerzbank, afirma que a queda não surpreendeu o mercado. “Esta depreciação não foi inesperada, afinal, o resultado eleitoral representou o pior cenário para participantes do mercado. Flávio Bolsonaro, que liderou de forma surpreendente o primeiro turno, prometeu pôr a política fiscal nos trilhos”, disse.
Pfister considera a desvalorização aguda e admite que pode haver uma correção no curto prazo, à medida que os investidores assimilem o resultado. “É provável que os mercados tenham precificado o risco de uma política fiscal mais frouxa, depois que Lula permitiu a alta do déficit e fez uma série de promessas.” No médio prazo, ele aponta a capacidade de Lula de executar um ajuste fiscal crível e tocar reformas econômicas como o fator decisivo para o câmbio. “Por ora, estamos mantendo nossa projeção para o dólar em R$ 5,20 no fim do ano”, afirmou.
Capital Economics e Wells Fargo veem real mais forte
O economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, trabalha com uma política fiscal um pouco mais conservadora em 2027. Ele observa, porém, que o governo discute, por enquanto, “apenas um resultado primário modestamente mais ambicioso”, e que o nome do futuro ministro da Fazenda ainda não foi anunciado.
Jackson acredita que Lula terá de lidar com a guinada à direita no Congresso e com a necessidade de reduzir os juros. “Caso contrário, os custos do serviço da dívida aumentarão ainda mais”, afirmou. O economista elevou sua projeção para o dólar no fim do ano de R$ 5,40 para R$ 5,50, o que implica um real um pouco mais depreciado. “Nossas previsões se baseiam na manutenção do status quo e não trazem um julgamento sobre o resultado da eleição.”
Já o estrategista de mercados emergentes do Wells Fargo, Álvaro Vivanco, considera a reação dos investidores à reeleição de Lula “exacerbada”. Ele ampliou sua posição vendida em dólar frente ao real, apostando na queda da moeda americana. A meta do banco é levar o câmbio a R$ 5,30, patamar que o banco considera o preço justo do dólar após a reeleição.
Vivanco lembra que o real continua apoiado em contas externas sólidas e em um choque positivo nos termos de troca do Brasil, impulsionado pela valorização do petróleo e, mais recentemente, pela alta das commodities agrícolas. Ele também vê a possibilidade de o Banco Central adotar uma postura menos favorável à redução dos juros, o que mantém o diferencial de juros que atrai investimentos em reais.
O estrategista ainda prevê que a oposição terá maioria no Congresso, funcionando como contrapeso ao governo.
Embora classifique o quadro fiscal como “preocupante”, Vivanco espera que o novo governo promova “um ajuste fiscal suficiente” já no início do mandato. “A nomeação de um novo ministro da Fazenda para enviar uma mensagem positiva aos mercados também está sendo considerada. Embora essas forças moderadoras levem algum tempo para se concretizarem, acreditamos que elas eventualmente contrabalançarão o ajuste de posicionamento após a surpreendente vitória de Lula”, afirmou.
Société Générale deixa apostas contra o real
O estrategista do Société Générale para a América Latina, Brendan McKenna, encerrou posições vendidas em dólar e euro contra o real. Elas haviam sido montadas após a liderança surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial.
McKenna afirma que pode voltar a apostar na moeda brasileira se os riscos institucionais e a volatilidade diminuírem.
Na visão dele, a depreciação do real deve “manter pontos de entrada atraentes por um período”. “Isso nos permite ter tempo para avaliar as condições pós-eleitorais e a próxima decisão de política monetária do Banco Central.” Apesar da cautela no curto prazo, McKenna não vê uma nova onda de desvalorização da moeda.
Ele argumenta que a composição mais conservadora do Congresso pode conter novas tentativas de expansão fiscal no quarto mandato de Lula. “Juros reais elevados e reservas cambiais adequadas, somados à disposição de utilizar colchões de liquidez externa, também podem atuar como catalisadores para a recuperação da moeda”, afirmou.
Goldman Sachs eleva estimativas para o dólar
O Goldman Sachs também aponta que os próximos passos do governo vão definir o rumo do câmbio. Segundo o banco, ciclos eleitorais anteriores mostram que o quanto do prêmio fiscal embutido na taxa de câmbio se justifica depende de decisões como a escolha do próximo ministro da Fazenda e a aprovação do Orçamento de 2027.
O banco avalia que o câmbio já se estabilizou em torno de R$ 5,40, mas enxerga riscos de piora no curto prazo. “Ainda vemos riscos inclinados para uma direção mais negativa no curto prazo, dada a proximidade do período de saída de recursos e a urgência de tratar o problema fiscal para além de medidas pontuais”, disse.
Em outro trecho, a instituição destacou que “o carry aumentou novamente” e que o câmbio pode voltar a ser o ativo brasileiro de melhor desempenho nos próximos meses.
Depois da eleição, o Goldman Sachs elevou suas projeções para o dólar em três horizontes. As mudanças incorporam riscos fiscais maiores ao cenário cambial, mas também indicam espaço para que a moeda americana se acomode ao longo dos próximos meses.
Editoria:
Redação Economia
A Redação Economia reúne a cobertura do Clique Fatos sobre economia, negócios, mercado financeiro, agronegócio e finanças pessoais. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].



