Petrobras devolve parte da alta: ações saem de ganho de 100% para cerca de 60% em 2026

Reeleição de Lula e dúvidas sobre a política de preços do diesel pressionam a estatal, mas o JPMorgan mantém recomendação overweight, equivalente à compra.

6 min

Foto: Pedro Teixeira/Agência Brasil
Foto: Pedro Teixeira/Agência Brasil

As ações da Petrobras (PETR3;PETR4) caíram cerca de 20% desde a semana passada. Até então, a petroleira estava entre as maiores altas do Ibovespa, com ganhos de cerca de 100% no acumulado do ano. Mesmo depois da queda, a valorização em 2026 ainda chega a cerca de 60%, mas está bem abaixo do pico registrado até a terceira semana de outubro.

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As perdas coincidiram com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que surpreendeu boa parte dos investidores. O mercado esperava a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), visto como mais pró-mercado. A alta de boa parte do ano, porém, não se explica só pela política.

Eleição e dúvidas sobre o diesel pesam após o segundo turno

A trajetória da Petrobras em 2026 combinou fatores raramente vistos ao mesmo tempo. A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã empurrou o preço do petróleo para níveis que turbinaram os lucros das petroleiras globais. Ao mesmo tempo, a estatal gerou muito caixa, sinalizou dividendos elevados e manteve uma política comercial que, apesar de polêmica, era vista pelo mercado como relativamente preservada.

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Esse quadro começou a mudar no fim de outubro. Logo após o segundo turno, as ações perderam força, com a reprecificação dos ativos domésticos diante da continuidade do governo Lula. Investidores também passaram a acompanhar de perto o tema dos combustíveis.

A discussão ganhou força depois de informações de que a Petrobras teria dificuldades para cumprir as metas da sua estratégia comercial para diesel, gasolina e GLP. Isso levantou dúvidas sobre possíveis ajustes na política de preços e, sobretudo, sobre a preservação da governança da companhia.

O mercado voltou a temer a interferência política na definição dos preços dos combustíveis, um dos riscos mais antigos associados à estatal.

Mesmo assim, os grandes bancos internacionais seguem relativamente otimistas. O JPMorgan reiterou a recomendação overweight, que equivale à compra, e disse que a questão central não é o nível dos preços dos combustíveis, e sim a manutenção do atual arcabouço de governança.

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O banco estima rendimento de fluxo de caixa livre de 17,5% para 2027 e avalia que a estatal ainda negocia com desconto relevante em relação às petroleiras internacionais.

O Morgan Stanley vê o mercado precificando um cenário excessivamente pessimista. Segundo o banco, mesmo em simulações com retirada de subsídios, ausência de reajustes nos combustíveis e aumento da tributação, a Petrobras mantém forte geração de caixa e dividendos atraentes. A instituição manteve a recomendação overweight e o preço-alvo de US$ 31 para os ADRs (recibos de ações negociados na Bolsa de Nova York) da companhia.

Queda do petróleo após eleições nos EUA amplia perdas

Na última semana, a eleição em outro país também pesou bastante sobre a Petrobras. Depois das eleições legislativas americanas, o petróleo sofreu forte correção. A vitória dos democratas no controle do Congresso reforçou a percepção de que o governo de Donald Trump poderá enfrentar mais pressão para buscar uma solução negociada com o Irã.

Com menos temor de um agravamento do conflito, o prêmio geopolítico embutido na commodity começou a desaparecer. O Brent caiu cerca de 17% em relação às máximas de outubro, de aproximadamente US$ 118 para perto de US$ 98 por barril. Segundo o Goldman Sachs, grande parte da alta do petróleo em outubro refletia um prêmio geopolítico estimado em US$ 27 por barril.

As petroleiras latino-americanas foram as mais atingidas. O Goldman Sachs calcula que os ADRs da Petrobras acumulavam queda de 26% desde os picos de outubro até 5 de novembro. No mesmo período, o ETF americano do setor de energia, o XLE, recuou 11%.

Brent mais baixo alivia pressão por reajustes nos combustíveis

O recuo do petróleo, por outro lado, trouxe um ponto positivo para a estatal. Relatório do Itaú BBA aponta que a queda do Brent, de cerca de US$ 117 para US$ 100 por barril, aproximou os preços internacionais dos combustíveis dos valores praticados pela Petrobras. Pelas contas do banco, o diesel ficou cerca de 18% abaixo da paridade de importação, ou 4% acima quando se considera o subsídio de R$ 1,40 por litro atualmente em vigor. A gasolina passou a ser negociada cerca de 4% abaixo da paridade de exportação.

Na prática, isso reduz a urgência de reajustes relevantes nos combustíveis e alivia parte da pressão que preocupava os investidores. O próprio Itaú BBA, porém, faz um alerta. Se os preços atuais se mantiverem até o fim do ano, a companhia pode não cumprir integralmente as exigências médias anuais da sua política comercial.

Isso poderia levar a reajustes adicionais ou a uma flexibilização dos prazos das metas para 2027.

A Camex também decidiu prorrogar até o fim do ano o imposto de 12% sobre exportações de petróleo. A medida afeta mais diretamente empresas como PRIO (PRIO3) e Brava Energia (BRAV3). Ainda assim, reforçou preocupações com o ambiente regulatório do setor e com a possibilidade de novas intervenções caso os combustíveis sigam caros.

Para o JPMorgan, a Petrobras é menos exposta a esse tributo do que as independentes, mas a prorrogação ajuda a manter parte do desconto aplicado às ações do setor.

Bancos veem queda exagerada, mas volatilidade deve continuar

Depois da forte correção, a maior parte dos bancos ainda enxerga valor na Petrobras. O Goldman Sachs manteve a recomendação de compra. Mesmo em um cenário-base mais conservador, com Brent a US$ 75 por barril em 2027, a companhia teria rendimento de fluxo de caixa livre próximo de 17%, patamar muito acima do observado nas grandes petroleiras globais.

O mesmo banco nota, porém, que a Petrobras segue entre as empresas mais sensíveis ao petróleo na América Latina. Cada variação de US$ 10 no Brent produz impactos relevantes nos indicadores de geração de caixa. Até outubro, os investidores miravam sobretudo os benefícios do petróleo caro e dos dividendos robustos.

Agora, o foco se divide entre o ritmo de queda do Brent, a política de combustíveis, o ambiente regulatório e a capacidade da estatal de preservar sua governança.

Por enquanto, JPMorgan, Morgan Stanley, Goldman Sachs e Itaú BBA concordam que a correção recente foi mais intensa do que a deterioração dos fundamentos da empresa. O consenso segue apontando para forte geração de caixa, dividendos elevados e valuation descontado.

A diferença é que, desde o fim de outubro, a ação anda com volatilidade bem maior do que a registrada na maior parte de 2026.

A Redação Economia reúne a cobertura do Clique Fatos sobre economia, negócios, mercado financeiro, agronegócio e finanças pessoais. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].

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