“A própria Casa Branca trabalha com esse cenário”: Moura vê novo impeachment de Trump na Câmara

Com Congresso de oposição a partir de janeiro de 2027, Trump deve ver os negócios da família investigados e ter na política externa, com foco no Irã.

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Trump e família viram alvos de investigações com Congresso democrata, diz Maurício Moura | Foto: Reprodução/Exame

Os democratas recuperaram a Câmara dos Representantes e conquistaram a maioria no Senado nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. Eles tiraram sete cadeiras dos republicanos, um resultado que nem a previsão mais otimista do partido contemplava.

A partir de janeiro de 2027, Donald Trump passa a governar com um Congresso controlado pela oposição, e os negócios da família dele entram na mira das comissões de investigação.

Em entrevista ao Macro em Pauta, da EXAME, Maurício Moura, fundador do Instituto IDEIA e professor da Universidade George Washington, avaliou que a Câmara pode abrir um novo processo de impeachment. “Claro que eles não conseguem os números para terminar o processo no Senado, mas a chance de ter um novo impeachment na Câmara é muito alta. A própria Casa Branca trabalha com esse cenário.”

Democratas devem mirar os negócios da família Trump

Moura disse ter ouvido interlocutores dentro do governo. Segundo ele, os democratas vão controlar as comissões de investigação e devem jogar os holofotes de volta sobre os negócios de Trump e de sua família. “Vão investigar o filho, vão investigar o genro”, afirma.

Com o Congresso nas mãos da oposição, a política externa tende a virar o centro da agenda da Casa Branca, já que é o terreno em que Trump tem mais margem de manobra. “Em termos de política externa, eu acho que a palavra aqui é Irã”, disse Moura, ao apontar o conflito como um dos principais motivos da derrota republicana nas urnas.

Para ele, o governo iraniano percebeu o valor da negociação diante do resultado eleitoral. “O Irã percebeu o quanto é valiosa essa negociação com esse resultado da eleição. Quem está negociando do lado do Irã ganhou força.”

Eleitorado latino vira peça-chave no Texas

Para Moura, a votação foi um “tsunami”, termo que, segundo ele, os próprios republicanos usaram nos corredores do Congresso. A virada veio de estados até então impensáveis para os democratas, como Kansas, Iowa, Texas e Carolina do Sul. Pesaram a gestão da inflação e do custo de vida, o conflito com o Irã e a rejeição à política de imigração, inclusive entre eleitores hispânicos e latinos que votaram em massa em Trump em 2024.

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Ele avalia que esse grupo passou a funcionar como o “novo eleitorado pêndulo”, os chamados swing voters. Na visão dele, o cálculo dos dois partidos falhou ao tratar esses eleitores como garantidos, e os dois sofreram por isso.

O temor de contestação do resultado não se confirmou. Moura comparou com a Hungria e disse que votações com diferenças tão grandes de votos tornam inviável qualquer narrativa de fraude. Na avaliação dele, Trump aceitou o resultado, ainda que de forma bastante passiva.

No Texas, o democrata James Talarico, pastor evangélico de 37 anos, derrotou o republicano Ken Paxton. Ele será o primeiro senador democrata do estado desde 1988. Gina Hinojosa, por sua vez, tornou-se a primeira latina eleita governadora do Texas.

Moura atribui a vitória a dois fatores: um candidato democrata “muito feliz” e um republicano “péssimo”, que enfrentava um processo de impeachment por corrupção movido pelos próprios correligionários. Mesmo assim, ele pondera que esse cenário pode não se repetir numa eleição presidencial. “Agora, os democratas vão virar governo no Texas e vão ter que entregar também”, diz.

Ele vai além ao afirmar que não há caminho para os republicanos vencerem a presidência sem passar pelo Texas, comparando a situação a perder a Califórnia para os democratas. Em Washington, segundo ele, já cresce a percepção de que o estado pode estar em disputa em 2028, algo inédito.

Republicanos e democratas se preparam para 2028

Moura rejeita a leitura de que as midterms consagraram uma “agenda woke”, apesar dos marcos de representatividade. Para ele, os democratas se concentraram em um único tema, evitaram a batalha cultural e apostaram no custo de vida.

O resultado também reabriu a disputa dentro do Partido Republicano. Moura considera “inviável” a candidatura do vice J.D. Vance e do secretário de Estado Marco Rubio se o governo chegar a 2028 com a popularidade atual, já que os dois não conseguem se afastar da gestão.

Nas 48 horas seguintes à eleição, já surgiram nomes como Nikki Haley, Liz Cheney, que, nas palavras dele, “ressurgiu das trevas”, e Ron DeSantis, que criticou Trump abertamente.

No campo democrata, a disputa deve opor a ala socialista, pressionada por Alexandria Ocasio-Cortez, reeleita com 78% dos votos, à ala centrista, com Gavin Newsom, Josh Shapiro e o senador Jon Ossoff. Segundo Moura, a campanha de Ossoff “é uma campanha presidencial”.

Onda de oposição global e o caso brasileiro

Para Moura, as midterms fazem parte de uma onda mundial de oposição. Ele citou vitórias da oposição na Hungria, no Peru, na Colômbia, na Suécia e agora nos Estados Unidos. Nos últimos dez anos, segundo ele, sete em cada dez eleições foram vencidas pela oposição, e ser governo virou exceção.

Quando o assunto chegou ao Brasil, ele foi direto: “A exceção foi o Brasil”. Moura também considera real a chance de a oposição vencer a eleição da Espanha, no final de novembro.

Um tema pouco discutido no Brasil deve ganhar força: a rejeição aos data centers, infraestrutura essencial para a inteligência artificial. “Eles geram aumento de custo de energia para a população local, têm impacto ambiental e geram pouquíssimos empregos. O data center foi altamente reprovado nessa eleição”, afirmou Moura, lembrando que o combate aos data centers foi um dos argumentos da campanha de Hinojosa no Texas.

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