Marca de mão de 67.800 anos em caverna de Muna vira a pintura não figurativa mais antiga conhecida

Estudo na Nature usou a idade da calcita sobre o estêncil na caverna Liang Metanduno, na Indonésia, para fixar o mínimo de antiguidade do pigmento em Sulawesi.

5 min

Pintura rupestre na Indonésia apresenta idade mínima de 67.800 anos | Foto: Reprodução/Catraca Livre

Uma marca de mão quase apagada numa caverna da ilha de Muna, na Indonésia, levou pesquisadores a rever há quanto tempo humanos fazem imagens nas paredes. Um estudo publicado na revista Nature em janeiro de 2026 estabeleceu idade mínima de 67.800 anos para o pigmento que estava por baixo de uma fina camada de calcita sobre o estêncil da caverna Liang Metanduno.

A descoberta foi reconhecida como a pintura não figurativa mais antiga conhecida.

A pergunta que surge é como um mineral pode datar uma imagem sem revelar o dia em que ela foi feita. A resposta passa por uma relação de sobreposição entre a crosta e o desenho, que os cientistas usaram como ponto de partida.

Como a marca foi feita na rocha

Um estêncil de mão nasce quando alguém apoia a mão sobre a superfície e aplica pigmento ao redor dela. Ao retirar a mão, sobra a silhueta em negativo. A técnica preserva o contorno, e não os detalhes da pele, como uma impressão digital faria.

Na caverna Liang Metanduno, a figura antiga divide espaço com outros motivos de períodos diferentes. Por isso, a equipe precisou analisar cada camada e cada imagem separadamente. A ilha de Muna faz parte da região de Sulawesi, onde grupos de pesquisa estudam arte rupestre há anos.

Adhi Agus Oktaviana, da agência científica indonésia BRIN, participou da investigação ao lado de Adam Brumm e Maxime Aubert, da Universidade Griffith. O trabalho já vinha sendo feito antes da divulgação: a equipe estudava cavernas da região e ampliou a pesquisa para novos locais.

O que os cientistas conseguiram datar

Os pesquisadores analisaram depósitos de calcita formados sobre o pigmento, usando uma técnica de séries de urânio com ablação a laser. Como o mineral se formou depois que a mão foi pintada, sua idade funciona como limite inferior para a pintura.

Leia também

Se a calcita tem certa idade, o desenho embaixo dela é ainda mais antigo.

Em uma das amostras, o resultado foi de 71,6 mil anos, com margem de 3,8 mil anos. A restrição mais conservadora divulgada para o estêncil é de pelo menos 67,8 mil anos. Essa é uma idade mínima, e não a data em que a mão foi pintada. Confundir uma coisa com a outra, ou tratar a incerteza como se não existisse, seria uma leitura equivocada.

O método depende da amostra e pode ser refinado em estudos futuros.

Por que o número de 67.800 anos chama atenção

O resultado empurra para trás a evidência mínima de uma imagem em parede atribuída à nossa espécie naquela região. Ele também reforça a discussão sobre a antiguidade da expressão visual humana no Sudeste Asiático e sobre os grupos que circularam pelas ilhas.

Isso não prova que aquele tenha sido o primeiro desenho da humanidade. Indica apenas o mais antigo reconhecido, dentro dos critérios e das evidências atuais. Imagens em rochas aparecem em muitos contextos e épocas, como mostram os sítios do Piauí, que têm história própria e não confirmam a data da caverna indonésia.

A comparação serve para lembrar por que é essencial preservar o contexto e datar os materiais associados às imagens.

Como a equipe chegou a Muna

As pesquisas sobre as pinturas de Sulawesi começaram em 2012, em cavernas de outras áreas. Ao ampliar a busca para Muna, os pesquisadores registraram conjuntos adicionais e encontraram superfícies adequadas para a análise da calcita. Para os autores, a história da arte rupestre não pode ser reconstruída a partir de uma única caverna famosa.

O reconhecimento do Guinness, anunciado em maio de 2026, veio depois da publicação científica de janeiro. Primeiro veio a evidência e sua revisão. Depois, a categoria de recorde que ajudou a divulgar o achado.

O que a imagem não consegue revelar

Não se sabe quem apoiou a mão na parede, qual era a sua idade nem o significado específico do gesto. A silhueta e o contexto permitem levantar perguntas sobre técnica e presença humana, mas não reconstituem a intenção de um indivíduo a partir de uma única marca.

As outras pinturas da caverna também não foram feitas ao mesmo tempo. A data mínima vem de um mineral que se formou depois do pigmento, e não de uma assinatura deixada pelo autor. Por isso, a ciência pode afirmar que a imagem já existia quando a calcita se formou, mas quanto antes ela foi feita continua em aberto.

O que muda com a descoberta em Liang Metanduno

O estêncil oferece um novo ponto de referência para comparar imagens antigas e planejar pesquisas em outras cavernas. Ele mostra que o arquipélago indonésio guarda evidências muito antigas de práticas visuais, mas novas descobertas podem mudar esse recorde.

Para que técnicas ou amostras novas ampliem o conhecimento, o sítio precisa ser preservado. A mão segue quase invisível para quem passa depressa por ela. A crosta mineral, porém, transformou uma silhueta discreta em um dado cronológico de peso: pelo menos 67.800 anos. A autoria e a data exata da pintura seguem desconhecidas, mas a medida obriga a repensar a profundidade temporal da expressão humana naquela região.

A Redação Entretenimento reúne a cobertura do Clique Fatos sobre famosos, TV, novelas, cinema e cultura pop. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para contato@cliquefatos.com.br.