Maior iceberg do Ártico desde 2020 se desprende da Groenlândia e resiste a colisão

Uma ilha de gelo com mais de 76 quilômetros quadrados se desprendeu da plataforma Petermann, na costa noroeste da Groenlândia, em agosto. O que chamou a atenção dos cientistas não foi apenas o tamanho do bloco, mas o trajeto que ele fez em seguida: o iceberg colidiu diretamente com a Ilha Joe, um afloramento rochoso na saída do fiorde Petermann, e, ao contrário do que se esperava, saiu intacto.
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O fenômeno, considerado o maior desprendimento de gelo do Ártico nos últimos seis anos, abriu uma janela para os pesquisadores entenderem melhor a física por trás das plataformas de gelo. A resistência do iceberg surpreendeu até os especialistas que monitoravam a região de perto.
Fratura inesperada pegou cientistas de surpresa
Quem primeiro detectou o desprendimento foi Adam Garbo, estudante de doutoramento da Universidade de Ottawa. No dia 4 de agosto, ele analisava imagens de satélite da Agência Espacial Europeia quando percebeu a ruptura. A equipe de Garbo já acompanhava a plataforma Petermann de perto porque várias fissuras importantes haviam se formado na superfície do gelo.
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A expectativa era de que uma dessas grandes rachaduras atravessasse a língua de gelo a qualquer momento. Mas não foi o que aconteceu. “O que nos surpreendeu foi que o desprendimento ocorreu devido a uma fratura diferente, resultando numa ilha de gelo menor do que havíamos previsto inicialmente”, explicou Garbo.
As fissuras originais continuam lá. A equipe acredita que duas delas podem liberar icebergs de aproximadamente 94 e 84 quilômetros quadrados no futuro, mas ninguém arrisca dizer quando.
Colisão que deveria quebrar o gelo não aconteceu
Depois de se soltar, o iceberg começou a descer o fiorde Petermann a uma velocidade de cerca de três quilômetros por dia, em direção ao estreito de Nares. O glaciologista Mauri Pelto, do Nichols College, acompanhou o deslocamento usando imagens Landsat da NASA e USGS.
O bloco de gelo seguiu direto para a Ilha Joe. A colisão parecia inevitável, e os cientistas se prepararam para ver o iceberg se partir. Em 2010, um bloco do mesmo glaciar havia batido no mesmo lugar e se dividido claramente em duas partes. Dessa vez, a história foi diferente.
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“Ficámos impressionados pelo facto de este ter sobrevivido à interação sem se fragmentar ainda mais”, disseram os pesquisadores. As imagens de satélite mostram o iceberg girando, se afastando da ilha e seguindo para sudoeste, já no Estreito de Nares.
A resistência contrariou o que se sabia sobre os icebergs de Petermann. Eles costumam ser mais finos e frágeis do que os de outros glaciares da Groenlândia. No momento da colisão, estimava – se que o bloco tivesse menos de 150 metros de espessura — relativamente fino para uma estrutura daquele porte.
O que esperar do iceberg daqui para frente
Apesar de ter resistido ao impacto, o iceberg não deve durar para sempre. Segundo os investigadores, as marés, as correntes e o degelo vão enfraquecê – lo gradualmente. A estrutura tende a se partir em pedaços menores com o tempo.
Alguns desses fragmentos podem viajar longas distâncias pelas águas do Ártico, o que representa um risco para embarcações que navegam pela região. O processo de fragmentação é previsível, mas o ritmo depende de fatores como a força das marés, a erosão térmica e as tensões internas do gelo.
O monitoramento continua. As ferramentas de observação espacial — que combinam dados da Agência Espacial Europeia, da NASA e do USGS — permitem que os cientistas acompanhem em tempo real o movimento das massas de gelo e ajustem suas previsões sobre o comportamento do Ártico.
Autor(a):
Ricardo Tavares
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.



