Fotografar tudo no museu pode apagar a visita da memória; dar zoom em um detalhe muda isso
Quem volta de um museu com 200 fotos no celular e quase nenhuma lembrança clara das obras já sentiu esse efeito. A psicóloga Linda Henkel, da Fairfield University, nos Estados Unidos, levou 28 universitários para uma visita guiada ao Bellarmine Museum of Art para investigar o problema.
Em cada sala, os participantes viam 30 objetos, mas recebiam uma instrução diferente para cada peça: observar apenas 15 peças e fotografar as outras 15, em uma ordem sorteada. No dia seguinte, o grupo passou por testes de reconhecimento e de detalhes visuais, e os resultados mostraram que as obras fotografadas eram lembradas em menor número.
Por que a câmera enfraquece a memória da visita
Henkel deu ao fenômeno o nome de efeito de prejuízo da foto. Os participantes não só lembravam menos as peças que fotografaram, como também recordavam menos detalhes delas do que das peças que apenas observaram.
Para a pesquisadora, a explicação está na chamada memória externa. Quando a pessoa confia que o celular guardará a obra, deixa de processar a cena com profundidade. Isso transfere a tarefa de lembrar para o aparelho, e o cérebro economiza esforço.
Além disso, enquadrar e conferir a imagem desvia o olhar da pintura ou da escultura, enquanto a informação entra rápido demais para ser ligada a emoções ou lembranças antigas.
Há ainda um problema prático: fotos que ninguém revisita deixam de funcionar como pistas para recuperar a experiência depois.
O zoom em um detalhe muda o resultado
O segundo experimento, com 46 estudantes, trouxe a parte mais curiosa do estudo. Ele foi publicado na revista Psychological Science em 2014, com divulgação online em dezembro de 2013, no artigo “Point-and-Shoot Memories: The Influence of Taking Photos on Memory for a Museum Tour”.
Desta vez, parte das fotos precisava ser tirada com zoom em um trecho específico, como o rosto de uma estátua ou os pés de uma figura. Nesse formato, o prejuízo desapareceu: as peças fotografadas com zoom foram lembradas de forma parecida com as que tinham sido apenas observadas.
O mesmo valeu para as partes da obra que ficaram fora do enquadramento.
Na avaliação de Henkel, escolher um detalhe obriga o visitante a olhar de verdade para a obra, e esse foco cria um registro mais firme na memória.
Como fotografar sem perder a experiência
Os resultados não exigem que o visitante deixe a câmera de lado. A sugestão é trocar o clique automático por um uso mais consciente do celular, com algumas atitudes simples. A primeira é observar a obra por alguns minutos antes de pegar o aparelho e, depois, escolher um detalhe que tenha chamado a atenção e fotografar apenas ele.
Também ajuda limitar o número de imagens por sala, para evitar o modo galeria, e revisar as fotos no mesmo dia, anotando o que se sentiu diante de cada peça. Criar álbuns temáticos, em vez de deixar tudo misturado no rolo da câmera, facilita o reencontro com a visita.
Ficar diante de uma obra lembra a prática de atenção plena, que treina a mente para permanecer no momento presente. Os próprios pesquisadores ressaltam que foram dois estudos pequenos, com universitários, e outras pesquisas seguem investigando o tema.
Mesmo assim, a recomendação para a próxima visita é direta: guarde o celular na primeira volta pela sala e registre depois o detalhe que mais chamou a atenção.
Editoria:
Redação Variedades
A Redação Variedades reúne a cobertura do Clique Fatos sobre horóscopo, comportamento e curiosidades. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para contato@cliquefatos.com.br.