Juros altos encarecem crédito rural e pesam mais sobre produtor pessoa física, diz estudo

Linhas subsidiadas, como as do Plano Safra, protegem empresas, enquanto a renda do campo e os preços das commodities influenciam a inadimplência.

Dívidas rurais

O ambiente de juros elevados no Brasil encarece o crédito rural e afeta com mais força os produtores que atuam como pessoas físicas, aponta estudo do Rabobank. A transmissão da política monetária ocorre principalmente pelo custo do financiamento, mas o impacto sobre a inadimplência também depende da renda do setor agropecuário e dos preços das commodities.

A análise foi elaborada por Mauricio Une, economista – chefe do Rabobank para a América do Sul, e pelo economista Renan Alves. O levantamento conclui que o efeito da Selic sobre o agronegócio existe, mas varia entre os segmentos: empresas contam com maior proteção de linhas direcionadas e subsidiadas, incluindo operações vinculadas Plano Safra.

Juros rurais acompanham os ciclos da Selic

As taxas do crédito rural seguem uma trajetória cíclica e, em boa medida, acompanham os movimentos da taxa básica de juros. Nos períodos de aperto monetário entre 2021 e 2023 e entre 2024 e 2025, o custo do financiamento subiu de forma significativa.

Para pessoas jurídicas, os juros chegaram a níveis próximos ou superiores a 14% ao ano. As taxas cobradas de pessoas físicas ficaram abaixo desse patamar, embora também tenham avançado. Um movimento semelhante havia aparecido entre 2015 e 2017, mas com menor intensidade.

A inadimplência, porém, não reage automaticamente à alta da Selic. Entre empresas, o índice chegou perto de 6% ao ano entre 2019 e 2021 e depois caiu rapidamente para níveis próximos de zero. O Rabobank atribui esse comportamento às medidas adotadas durante a pandemia, que permitiram prorrogações e renegociações e adiaram o reconhecimento de atrasos superiores a 90 dias.

Soja e milho ajudam a explicar a inadimplência

O banco avaliou dados do Banco Central e do próprio Rabobank para observar os efeitos de choques inesperados da Selic sobre os juros do crédito, as concessões e a inadimplência. Os cálculos consideraram períodos de 3, 6, 9 e 12 meses.

Entre os, a inadimplência avançou de maneira mais gradual e ganhou força principalmente entre 2024 e 2026, quando chegou a aproximadamente 7% ao ano. Após um choque de juros, o índice das pessoas físicas sobe cerca de 0,1 ponto percentual entre seis e 12 meses.

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O comportamento das commodities pode aliviar ou agravar esse efeito. No ciclo de 2013-2014, a soja e o milho estavam valorizados, enquanto os fertilizantes permaneciam relativamente estáveis. A receita maior ajudou a compensar o crédito mais caro, e não houve deterioração relevante da inadimplência.

O mesmo ocorreu em 2021-2022, quando os preços agrícolas ficaram em níveis historicamente elevados apesar da alta da Selic e do encarecimento dos insumos. Já entre 2024 e 2025, soja e milho recuaram, enquanto os juros continuaram altos. Com receita menor e financiamento mais caro, a inadimplência avançou especialmente entre produtores pessoa física.

Linhas subsidiadas reduzem impacto sobre empresas

O crédito rural alterna períodos de expansão e contração, mas mantém tendência de crescimento desde 2020. Entre 2021 e o início de 2022, as concessões cresceram mais de 60% na comparação anual, puxadas pelas pessoas físicas. Houve correção em 2023 e nova aceleração em 2024, desta vez liderada pelas pessoas jurídicas, que também registraram picos superiores a 60% ao ano.

Após uma nova desaceleração no início de 2025, os dados de 2026 indicam recomposição moderada do crescimento agregado. Como parte relevante do crédito vem de recursos direcionados e subsidiados, a Selic não é repassada automaticamente a todas as operações, sobretudo no financiamento das empresas.

O estudo identificou efeito de 0,37 ponto percentual sobre as concessões para pessoas jurídicas após seis meses, mas encontrou pouca evidência de impacto persistente na inadimplência desse grupo. Para as pessoas físicas, a transmissão é mais intensa e aparece primeiro no custo do crédito e, em prazos maiores, nos atrasos.

“Juros elevados, isoladamente, não implicam deterioração relevante quando preços agrícolas sustentam o caixa do produtor.” Para o Rabobank, o aperto monetário não provoca uma piora generalizada do crédito rural, mas aumenta gradualmente a vulnerabilidade de determinados segmentos. “O canal de transmissão da política monetária para o crédito rural permanece ativo.”