“Não faz sentido”: cientista político critica Flávio Bolsonaro por se aproximar de Marçal e Pavanato

Para Ivan Fernandes, da UFABC, a guinada à ala radical no segundo turno, após quase 60 milhões de votos.

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O senador brasileiro e candidato à presidência Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), participa de um comício antes do segundo turno da eleição presidencial, em São Paulo, Brasil, 18 de outubro de 2026. REUTERS/Brian Snyder

A aproximação de Flávio Bolsonaro (PL) com figuras da ala mais radical da direita, na reta final da campanha presidencial, pode ter comprometido a capacidade dele de liderar a oposição ao governo Lula (PT). A avaliação é do cientista político Ivan Fernandes, professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Em entrevista ao Mapa de Risco, programa de política do Info Money, Fernandes afirmou que Flávio tinha condições de se firmar como principal representante da direita após receber quase 60 milhões de votos, mesmo com a derrota no segundo turno. A decisão de deixar o Brasil, porém, trouxe incertezas sobre o futuro político do senador e abriu espaço para outras lideranças.

Aliança com a ala radical muda a imagem de moderado

Para o professor, Flávio era visto como o integrante da família Bolsonaro com mais habilidade para negociar com partidos de centro e com setores do Congresso. Essa característica poderia ajudá-lo a reunir o eleitorado bolsonarista e a ganhar influência sobre grupos menos ligados à direita ideológica.

O rumo, no entanto, mudou no segundo turno, quando o senador passou a dar mais espaço a aliados como Pablo Marçal, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira. “Foi inesperado. Todo mundo tinha ali a percepção de que, dentro da família Bolsonaro, Flávio Bolsonaro era o mais moderado dos bolsonaristas, era aquele que circulava melhor no Centrão, participava mais de negociação”, afirmou Fernandes.

Na avaliação dele, Flávio precisava buscar votos entre eleitores de centro sem abrir mão da base mais fiel ao bolsonarismo. A aproximação com lideranças mais ideológicas travou essa expansão e reduziu o espaço para uma candidatura capaz de dialogar com diferentes setores da direita. “No final das contas, não faz muito sentido a decisão que foi feita pelo Flávio, de se aproximar dessas figuras e não daqueles que tinham uma entrada mais moderada, uma capacidade de articulação com outros atores no sistema político”, disse.

Fernandes citou Tarcísio de Freitas e Cleitinho como nomes que poderiam ter tido papel mais relevante nessa aproximação com outros segmentos do eleitorado. Ele também considera que essa mudança de postura pode ter contribuído para a derrota eleitoral.

Senador tinha vantagem para disputar o comando da oposição

Mesmo com a derrota, Flávio mantinha a chance de assumir a liderança política da oposição. Na visão de Fernandes, a votação expressiva, o peso do PL no Congresso e a presença de governadores alinhados à direita davam ao senador condições de ocupar esse espaço.

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A saída do Brasil, porém, mudou o quadro. “Acho que o Flávio Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade de ser o líder da direita, e isso vai ser disputado, seja pelos herdeiros da família Bolsonaro, seja por outros políticos da direita”, afirmou o professor.

Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro e Cleitinho aparecem entre os nomes cotados. O governador paulista circula bem entre empresários e partidos de centro, ao passo que Michelle tem ligação com o eleitorado conservador e evangélico. Cleitinho ganhou projeção nacional ao disputar o governo de Minas Gerais.

Influência de Jair Bolsonaro segue como principal entrave

Fernandes avalia que o maior desafio desses nomes é conquistar uma base eleitoral que continua muito ligada a Jair Bolsonaro. Ao falar sobre o eleitorado mais moderado, ele disse: “Essa direita mais moderada, que circula nos ambientes políticos, que circula na Faria Lima, que circula no empresariado, ela quer o Tarcísio”.

Na sequência, o professor resumiu o impasse: “O problema é que essa direita não tem voto. Quem tem voto é Jair Messias Bolsonaro.” Para ele, a influência eleitoral do ex-presidente segue como fator central na reorganização da oposição, mesmo com o surgimento de novas lideranças.

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