Extensão de acordo entre EUA e China é simbólica, mas não avança em temas centrais, diz especialista
Extensão do acordo comercial entre EUA e China não aborda divergências estruturais, avalia professor do Insper.
O tão esperado encontro entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente americano, Donald Trump, terminou com um resultado prático considerado modesto. Na avaliação de Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper, a reunião serviu basicamente para estender o acordo comercial já existente entre as duas potências, sem avançar em temas realmente centrais.
Dumas classificou o encontro como corriqueiro e destacou que o simbolismo foi o ponto mais trabalhado. Um dos gestos mais comentados foi o jantar, onde foi servido um espumante produzido na Califórnia — o mesmo tipo que Richard Nixon levou a Pequim durante sua histórica visita em 1972.
Para os chineses, o detalhe carrega um peso simbólico enorme. “Os certamente notam, porque a etiqueta, o modo de falar, de se expressar, é de uma maneira que você tem muito simbolismo”, afirmou o especialista ao WW.
O peso do que não é dito na diplomacia chinesa
Na cultura chinesa, o que não é dito pode ter tanta importância quanto o que é falado diretamente. Para ilustrar, Dumas recorreu a um exemplo do mundo empresarial: se um visitante chega a uma reunião às 11 horas e não é convidado para almoçar pelo líder da empresa, o recado está dado — o negócio, muito provavelmente, não vai ser fechado. “Isso leva a uma comunicação em que você tem uma maneira de colocar muita simbologia”, explicou o professor.
Esse jogo de gestos e silêncios, segundo ele, foi cuidadosamente orquestrado no encontro entre Xi e Trump. A escolha do espumante californiano, por exemplo, não foi aleatória: remeteu diretamente à aproximação diplomática de Nixon com a China, um marco na história das relações bilaterais.
Acordo limitado e o peso das eleições de midterm
Apesar do cenário montado com cuidado, Dumas foi direto ao avaliar o resultado concreto da reunião. “Isso acabou não dando muita coisa. Foi apenas uma extensão do acordo comercial”, disse. Para ele, a decisão de estender a trégua comercial está muito mais ligada ao calendário eleitoral americano do que a uma negociação de fato.
“Isso é muito mais receio das midterm elections dos Estados Unidos”, avaliou o especialista, lembrando que Trump já vinha perdendo cadeiras no Congresso. A extensão do acordo, válida por pelo menos dois meses, não representa necessariamente um ganho político para o presidente americano. “Não que o acordo da extensão vá ajudar Trump, mas a não extensão certamente o prejudicaria”, concluiu Dumas.