Consun Aponta Repúdio e Roda de Conversa no Quilombo Kédi em Porto Alegre

Consun promove roda de conversa no Quilombo Kédi em Porto Alegre após ataques

15/06/2026 13:16

4 min

Consun Aponta Repúdio e Roda de Conversa no Quilombo Kédi em Porto Alegre
(Imagem de reprodução da internet).

Reunião do Consun Aponta Repúdio aos Ataques ao Quilombo Kédi

Em 29 de maio de 2026, o Consun (Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) aprovou uma moção de repúdio em resposta aos ataques contra a comunidade do Quilombo Kédi, localizado no bairro Boa Vista, em Porto Alegre. O conflito fundiário, que já durava anos, ganhou nova intensidade entre março e abril de 2026, com a demolição de mais de 30 casas, algumas realizadas durante o descumprimento de ordens judiciais.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A iniciativa do CHIST (Centro de Pesquisa em História) da UFRGS, em parceria com a Frente Quilombola no RS, visa promover uma visita guiada ao quilombo, seguida de uma roda de conversa com representantes da comunidade e da frente. O evento, aberto a estudantes e à comunidade externa, ocorre nesta terça-feira (9) e representa um passo institucional em relação a um conflito que envolve diretamente comunidades com as quais pesquisadores da universidade têm trabalhado há anos, através do Nega/UFRGS, que produziu cartografias sociais do território.

Contexto Histórico e Desafios Atuais

O Quilombo Kédi ocupa uma área no bairro Boa Vista, uma zona de alto padrão de Porto Alegre, situada entre o Country Club e a construção da Alameda Jardins Country Tower Boulevard, com a participação das incorporadoras Country Empreendimentos e CFL.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em agosto de 2022, a Prefeitura de Porto Alegre cedeu um terreno de 15 mil metros quadrados à Country Empreendimentos, através de um Termo de Conversão de Área Pública, em troca de R$ 8,3 milhões, com o objetivo de financiar o reassentamento das famílias quilombolas.

A Country Empreendimentos é liderada pelos executivos Zaffari, enquanto o Grupo Zaffari, maior rede de supermercados do Rio Grande do Sul, controla os shoppings Bourbon e os atacadões Cestto.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ação Judicial e Decisões Recentes

Em março de 2026, uma juíza do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul homologou 45 acordos entre o município de Porto Alegre e moradores do quilombo, levando à demolição das casas. A assessoria jurídica da comunidade acionou a Justiça Federal, que em 8 de março emitiu uma liminar reforçando a decisão do TRF-4 de outubro de 2025, que proibia as demolições e estabelecia uma multa de 20 salários mínimos por descumprimento.

A Polícia Federal esteve presente no quilombo em 9 de março, mas não presenciou as demolições. Em 11 de março, casas foram demolidas, sem que a multa fosse aplicada.

Em abril de 2026, a Justiça Federal reconheceu o descumprimento da liminar pelo município de Porto Alegre, aplicando uma multa de 60 salários mínimos e intimando a prefeitura a se abster de qualquer ação nesse sentido. A decisão da juíza estadual que homologou os acordos foi contestada pela Defensoria Pública do Estado do RS, que pediu sua nulidade, alegando que a competência do caso pertence à Justiça Federal, entendimento já firmado pelo TJ-RS em dezembro de 2025.

Leia também

O valor de R$ 180 mil oferecido como indenização supera os R$ 113 mil do bônus-moradia legalmente previsto, e a assessoria jurídica da comunidade aponta irregularidades no processo, com relatos de pessoas não residentes no quilombo e de mortos que receberam indenização.

UFRGS e o Quilombo Kédi

A UFRGS tem uma longa história de envolvimento com o Quilombo Kédi, desde a entrega do Pleito de Demarcação Territorial Quilombola em 2023, até a produção de cartografias sociais do território. A professora Cláudia Luiza Pires, do Departamento de Geografia da UFRGS, destaca a importância histórica da comunidade quilombola para a formação de Porto Alegre, e critica a tentativa de negociar a identidade quilombola nos contratos de remoção, considerando-a uma forma de violência colonialista.

A reitora da UFRGS, Márcia Barbosa, enfatizou o compromisso da universidade com a diversidade e o respeito às culturas, e sugeriu que o empreendimento empresarial encontre outra área com menos significado histórico e de diversidade.

O CHIST organizou uma visita guiada ao quilombo com posterior roda de conversa, voltada prioritariamente a estudantes de história da UFRGS, para quem conta como horas de extensão, e aberta também a alunos de outros cursos e à comunidade externa, para quem gera certificado de horas complementares.

A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Frente Quilombola no RS.

Autor(a):

Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ative nossas Notificações

Ative nossas Notificações

Fique por dentro das últimas notícias em tempo real!