Brasil e América Latina em alerta para micotoxinas que afetam 71% das amostras de grãos

Estudo da DSM-Firmenich alerta para perdas silenciosas na produção animal com contaminação em 71% das amostras de grãos.

19/09/2026 00:11

4 min

Substâncias produzidas por fungos podem reduzir o desempenho dos animais, aumentar custos e até criar barreiras para o comércio internacional
Substâncias produzidas por fungos podem reduzir o desempenho dos...

Um levantamento da DSM – Firmenich coloca o Brasil e a América Latina em estado de alerta para a presença de micotoxinas na alimentação animal. O estudo, que analisou mais de 10 mil amostras e realizou cerca de 60 mil análises na primeira metade de 2026, aponta um risco elevado para a contaminação de grãos usados na produção de ração.

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As micotoxinas são substâncias tóxicas geradas por fungos. Elas não têm cheiro, gosto ou cor, e muitas vezes não provocam sintomas visíveis nos animais. O problema, no entanto, é que comprometem o desempenho e a saúde do rebanho de forma silenciosa, aumentando os custos para o produtor.

De acordo com Augusto Heck, gerente da categoria de aditivos antimicotoxinas para a América Latina da DSM – Firmenich, uma parte significativa dos prejuízos ocorre de forma subclínica, reduzindo a eficiência alimentar e a absorção de nutrientes sem que o animal pareça doente.

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O que são e como agem as micotoxinas

O nome combina “mico”, referente a fungos, e “toxina”, substância nociva. Elas são produzidas por diferentes espécies de fungos como parte de sua adaptação ao ambiente. Existem centenas delas, mas as mais monitoradas na produção animal são aflatoxinas, fumonisinas, deoxinivalenol e zearalenona.

Ocratoxina e toxina T 2 também entram na lista.

A contaminação pode ocorrer ainda no campo ou durante o armazenamento, dependendo do clima e da qualidade do processo. Um dos grandes desafios é que a toxina não é detectada pela aparência do grão. Um milho visualmente perfeito pode estar contaminado.

A alimentação representa uma das maiores despesas na produção de proteína animal, então qualquer perda de eficiência impacta diretamente o bolso do produtor.

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Panorama das principais toxinas na América Latina

A fumonisina é a principal preocupação do estudo. Cerca de 71% das amostras analisadas na América Latina apresentaram a micotoxina, que está fortemente associada ao milho. Em suínos, níveis elevados podem causar edema pulmonar, enquanto em equinos o risco é de uma doença neurológica grave.

Em exposições prolongadas e em baixas doses, o efeito é mais sutil, mas reduz a eficiência do animal.

A zearalenona apareceu em 64% das amostras, com concentração média de 80 partes por bilhão. Produzida por fungos do gênero Fusarium, sua estrutura é semelhante ao hormônio estrogênio, podendo interferir no sistema reprodutivo, especialmente em suínos.

Já o deoxinivalenol, também conhecido como vomitoxina, esteve presente em cerca de 50% das amostras do grupo dos tricotecenos, com concentração média de 400 partes por bilhão. Ele pode reduzir o consumo de ração e afetar o intestino dos animais.

A aflatoxina, por sua vez, foi encontrada em 44% das amostras. Segundo Heck, o aumento em relação a anos anteriores pode estar ligado a problemas no armazenamento dos grãos. A toxina é resistente a processos térmicos e químicos convencionais, e seu potencial carcinogênico é uma preocupação tanto para a saúde animal quanto para o comércio de produtos.

Brasil sob risco elevado e o fator climático

O Brasil está dentro da classificação de risco elevado para micotoxinas. Heck explica que as condições climáticas são um fator determinante. Um El Niño mais intenso, por exemplo, pode criar uma combinação desfavorável: excesso de chuvas favorece o deoxinivalenol e a zearalenona, enquanto temperaturas mais altas impulsionam aflatoxina e fumonisina.

O armazenamento também preocupa. O aumento da aflatoxina no Brasil pode estar relacionado a limitações na capacidade de armazenagem e ao uso crescente de silos bolsa. Problemas de vedação, entrada de umidade e danos causados por animais criam condições ideais para o desenvolvimento de fungos.

Além disso, oito em cada dez amostras analisadas apresentaram duas ou mais micotoxinas, o que pode potencializar os efeitos nocivos.

Para o futuro, a tendência é que o controle dessas substâncias ganhe ainda mais importância. As mudanças climáticas e o avanço das ferramentas de diagnóstico devem ampliar a atenção sobre as chamadas micotoxinas emergentes e mascaradas, que muitas vezes não são detectadas pelos métodos convencionais de análise.

Ana Carolina é engenheira de software e jornalista especializada em tecnologia. Ela traduz conceitos complexos em conteúdos acessíveis e instigantes. Ana também cobre tendências em startups, inteligência artificial e segurança cibernética, unindo seu amor pela escrita e pelo mundo digital.

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