Assembleia Geral da ONU começa com pauta pesada e discurso de Lula na terça

A Assembleia Geral da ONU começa com pauta pesada e discurso de Lula na terça; guerra com Irã e IA dominam debates na despedida de Guterres.

Secretário-geral da ONU, António Guterres, discursa na abertura da Assembleia-Geral de 2019

A Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) começa nesta terça – feira (22) em Nova York com uma pauta pesada e um clima geopolítico tenso. O tema central deste ano é “Restaurar a confiança, gerir a transformação: Uma ONU que entrega para todos”, e o evento marca a despedida do secretário – geral António Guterres, que encerra seu mandato de dez anos.

Enquanto líderes mundiais se preparam para discursar no icônico púlpito de pedra, a inteligência artificial e os conflitos armados dominam as preocupações.

O “debate geral” da AGNU promete ser um palco para encontros de alto nível e negociações à margem da programação oficial. Donald Trump, por exemplo, tem reunião marcada na terça – feira com líderes dos estados árabes do Golfo Pérsico para discutir os próximos passos da guerra com o Irã, segundo dois funcionários americanos ouvidos pela CNN.

Ainda de acordo com uma fonte, haverá um briefing “de alto nível” para o Conselho da Paz de Trump durante a semana — um movimento irônico, já que o próprio presidente já sugeriu que o conselho, criado para supervisionar a reconstrução de Gaza, “poderia” um dia substituir a própria ONU.

Encontros e desencontros diplomáticos

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky confirmou que fará uma reunião, repetindo o que fez no ano passado. Nos bastidores, o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e Jared Kushner já se encontraram separadamente com Zelensky em Kyiv e com Vladimir Putin em Moscou no início do mês.

Trump, por sua vez, conversou apenas com Putin desde aquela visita. Já o chanceler russo, Sergey Lavrov, disse à mídia estatal que se reunirá com o secretário de Estado americano, Marco Rubio.

A Assembleia também serve como palco para acordos formais. Meses após ameaçar anexar a Groenlândia pela força, Trump deve assinar um acordo negociado com a Dinamarca e a Groenlândia que concede aos EUA “controle permanente” sobre a segurança da ilha.

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Ainda não está claro como o novo pacto difere dos arranjos atuais, que já garantem uma grande presença militar americana no território.

Quem sobe ao púlpito e quem fica de fora

A lista de oradores é sempre um termômetro político. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o primeiro a discursar na terça – feira (22). Já o primeiro – ministro israelense Benjamin Netanyahu fala na quinta – feira (24). A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, fará sua estreia na ONU no mesmo dia, enquanto seu ex – chefe, Nicolás Maduro, está preso no Brooklyn, a poucos quilômetros dali.

Rodríguez deve se reunir com Trump antes do discurso.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, está na lista para falar na quinta, antes de Netanyahu, mas o governo Trump negou seu visto novamente. Ele deve discursar por vídeo. Já o Irã, mesmo em guerra com os EUA, conseguiu autorização para que sua “delegação principal” viaje a Nova York, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian.

Um porta – voz do Departamento de Estado confirmou que a delegação será menor que a do ano passado e estará sujeita a restrições de viagem e proibições de compra de artigos de luxo.

Pezeshkian discursar enquanto seu país está em combate ativo com os Estados Unidos é algo quase sem precedentes. O equivalente mais próximo, segundo analistas, seria a visita do presidente egípcio Anwar Sadat a Israel em 1977, quando os dois países ainda estavam tecnicamente em guerra — mas naquele caso, o gesto fazia parte de um processo de paz.

A despedida de Guterres e a corrida pela sucessão

Além de Macron, que faz sua última aparição na Assembleia, Guterres se despede do cargo. O português passou a maior parte de seu mandato focado em financiamento do desenvolvimento, mudanças climáticas e na preparação da ONU para a inteligência artificial.

Em sua última coletiva, ele dedicou mais da metade do tempo ao tema. “A inteligência artificial certamente será um tema central nas minhas discussões com líderes mundiais na próxima semana”, disse Guterres a jornalistas.

A IA ganhou ainda mais relevância após semanas de tensão no setor. Na segunda – feira, uma conferência sobre “Cooperação Digital” reúne figuras da tecnologia, diplomatas e o ator Joseph Gordon – Levitt. O Conselho de Segurança se reúne sobre o tema na quarta, e os EUA organizam outro evento no mesmo dia.

Para Daniel Forti, do International Crisis Group, o foco de Guterres na tecnologia pode ter ofuscado seu papel tradicional na promoção da paz. “Ele foi muito conservador quanto ao papel da ONU em paz e segurança”, afirmou. “Não aproveitou ao máximo o mandato da organização para tentar inseri – la em mais esforços de construção da paz.”

A sucessão de Guterres já começou. Uma sondagem informal do Conselho de Segurança na sexta – feira apontou a ex – vice – presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan, com vantagem estreita. Os EUA ainda não apoiaram formalmente ninguém, mas um porta – voz do Departamento de Estado afirmou que os candidatos devem “se comprometer publicamente com as mudanças que exigimos”.

A condição é clara: o novo secretário – geral precisa “devolver à ONU seu propósito primário de manter a paz e a segurança, em vez de promover a absurda ideologia politizada e woke”.

A situação financeira e o peso das críticas

Em 2026, a ONU chega à Assembleia em situação financeira melhor que no ano passado, quando enfrentou uma grave crise orçamentária com ameaças de corte total de financiamento dos EUA. Às vésperas do evento, o governo Trump enviou US827 milhões em contribuições — uma fração dos cerca de US 4 bilhões que os EUA devem, mas um valor significativo para uma organização que, em janeiro, enfrentava um “iminente colapso financeiro”.

Apesar das dúvidas crescentes sobre a relevância da ONU — no ano passado, Trump perguntou à assembleia “qual é o propósito das Nações Unidas?” —, analistas como Forti defendem que a organização ainda é essencial. “Neste momento, em que temos mais guerras do que nas décadas anteriores, todos ainda precisam de um lugar para se reunir, evitar conflitos e definir as regras do jogo”, disse. “A ONU é a única organização com a legitimidade e a capacidade de reunir todos os Estados do mundo para enfrentar essas questões.”