Alta nos preços dos fertilizantes levanta preocupações sobre inflação de alimentos no Brasil em 2027

A alta nos preços dos fertilizantes e a diminuição das importações brasileiras começam a gerar preocupações para a produção agrícola de 2027. Os produtores podem se ver obrigados a reduzir a aplicação de nutrientes ou adiar compras, o que pode comprometer o potencial produtivo da próxima safra.
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Esse alerta faz parte de um relatório do JP. Morgan que avalia os efeitos da guerra no Oriente Médio e possíveis eventos climáticos sobre a oferta global de alimentos.
Segundo o banco, uma interrupção prolongada no fornecimento de fertilizantes pode prejudicar as janelas de plantio, diminuir a produtividade das lavouras e, mais tarde, impactar a inflação dos alimentos. No Brasil, dados recentes apontam que essa situação já chegou ao mercado de insumos.
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Entre janeiro e julho, as importações caíram 7,4% em comparação ao mesmo período de 2025, mas as despesas aumentaram 7,3%, totalizando US 8,8 bilhões.
Desafios para os produtores brasileiros
No mês de junho, o preço médio da tonelada importada foi 26% superior ao do ano anterior. Além disso, a produção nacional enfrentou uma queda de 17% nos cinco primeiros meses do ano. Essa combinação desfavorável apresenta um cenário complicado para os agricultores: menos fertilizantes disponíveis no mercado e preços mais altos por tonelada.
O impacto sobre a produção não é imediato. O fertilizante adquirido hoje será utilizado meses depois. É essa defasagem que gera preocupação entre os analistas do JP. Morgan. Eles estimam que uma recuperação completa da produção afetada pelos conflitos pode levar entre um e quatro anos, dependendo da velocidade com que as unidades industriais forem retomadas.
Uma alta prolongada nos preços também pode levar os agricultores a usar menos nutrientes ou mudar suas culturas. No Brasil, essa mudança é especialmente relevante para soja e milho, culturas que demandam um volume significativo de fertilizantes. Embora a soja tenha menor dependência de nitrogênio devido à sua capacidade biológica de fixar parte desse nutriente, ainda assim depende fortemente de fósforo e potássio.
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Impactos diretos no custo dos insumos
O milho é diretamente afetado pelo custo da ureia e outros fertilizantes nitrogenados. Em março deste ano, durante uma escalada do conflito no Oriente Médio, o preço da ureia no Brasil subiu cerca de 10% em poucos dias. A região em conflito respondia por 35% da oferta mundial desse produto.
A situação se agravou porque o Oriente Médio é um importante polo produtor de fertilizantes nitrogenados. O Estreito de Ormuz serve como uma rota estratégica não apenas para o transporte de petróleo e gás, mas também para fertilizantes. Em 2025, o Brasil importou aproximadamente 7,7 milhões de toneladas de ureia.
Quando as rotas marítimas na região foram ameaçadas, os preços reagiram rapidamente: nos portos brasileiros, a ureia aumentou mais de 15% em apenas uma semana em março. O nitrato de amônio teve alta semelhante. Essa pressão não se limitou apenas ao nitrogênio; o enxofre utilizado na produção dos fosfatados também foi impactado devido à sua associação com o refino do petróleo e gás.
Consequências para o mercado brasileiro
A vulnerabilidade brasileira é acentuada pela dependência do mercado externo para abastecer sua agricultura. Em 2025, o país importou cerca de 45 milhões de toneladas de fertilizantes. As importações da Rússia caíram 28%, enquanto as da China diminuíram 20%.
Embora Canadá e Marrocos tenham aumentado seus embarques ao Brasil, isso não foi suficiente para compensar as reduções dos dois principais fornecedores.
As importações provenientes do Oriente Médio também recuaram 16%. Essa mudança é crucial porque reduz a margem de segurança da cadeia produtiva: se um fornecedor diminui as exportações, o Brasil precisa buscar alternativas que podem trazer custos mais altos ou maiores prazos para entrega.
Outro indicador relevante é a relação entre soja e ureia: em março deste ano, eram necessárias entre 35 e 40 sacas de soja para adquirir uma tonelada de ureia — aumento em relação às 28 a 32 sacas requeridas em 2025. Para o milho, eram necessárias entre 60 e 70 sacas contra as anteriores 50 a 60 sacas.
A importância do Plano Nacional de Fertilizantes
A redução no poder aquisitivo do produtor aumenta as chances dele ajustar seu pacote nutricional nas lavouras. Quando os preços dos insumos sobem muito, os agricultores podem optar por plantar com menor quantidade ou até mesmo mudar suas culturas — um fator crucial em uma agricultura como a brasileira que depende fortemente da reposição frequente dos nutrientes no solo.
A logística também desempenha um papel fundamental nesse processo: os fertilizantes precisam ser entregues nas regiões produtoras antes das aplicações nas lavouras. Se houver atrasos na entrega durante as janelas ideais de plantio, isso pode resultar em perdas significativas para os produtores.
No entanto, após o início do conflito no Oriente Médio, houve um aumento gradual nas remessas de ureia e enxofre ao Brasil; ainda assim, esse fluxo deve normalizar lentamente — criando dificuldades adicionais para quem precisa organizar suas safras futuras.
Previsões sobre inflação alimentar
A preocupação central levantada pelo JP. Morgan diz respeito à inflação alimentar futura no Brasil. O banco não acredita que haja risco imediato de falta de alimentos no país; contudo, uma redução na aplicação dos fertilizantes poderá impactar negativamente a produtividade agrícola e aumentar os custos associados à produção.
O efeito sobre os preços dos alimentos não será instantâneo: inicialmente afeta as margens dos produtores; posteriormente altera áreas plantadas ou quantidades aplicadas; só então isso refletirá nos preços das commodities alimentares.
A expectativa é que uma alta nos custos dos fertilizantes possa elevar temporariamente a inflação global dos alimentos entre 4% e 5%, apesar desse impacto demorar algum tempo para ser sentido efetivamente — uma questão crítica considerando que o Brasil está colhendo grãos com previsão total estimada pela Conab em aproximadamente 360 milhões de toneladas na safra atual (2025/26.
Papel estratégico da Petrobras na produção nacional
Nesse contexto desafiador surge também a discussão sobre ampliar a produção doméstica brasileira desses insumos essenciais. O país representa cerca de 8% do consumo mundial total — sendo atualmente o quarto maior consumidor global — mas mais de 80% dos fertilizantes utilizados ainda são importados conforme informações do Ministério da Agricultura.
Diante disso, o governo brasileiro criou o PNF (Plano Nacional de Fertilizantes), estabelecendo metas ambiciosas para aumentar essa produção interna através da modernização das fábricas existentes e atração novos investidores com foco na ampliação das capacidades produtivas.
A Petrobras tem papel essencial nessa estratégia: neste janeiro foram reiniciadas operações das fábricas nitrogenadas nas localidades da Bahia e Sergipe após anos paralisadas; essas unidades têm potencial conjunto para atender cerca de 20% da demanda nacional por ureia — representando um investimento inicial significativo nesse setor.
Autor(a):
Lara Campos
Com formação em Jornalismo e especialização em Saúde Pública, Lara Campos é a voz por trás de matérias que descomplicam temas médicos e promovem o bem-estar. Ela colabora com especialistas para garantir informações confiáveis e práticas para os leitores.



