Visitante removeu proteção de colmeia e soltou 26 enxames de abelhas africanas nas Américas
O incidente de 1957 com 26 enxames fugitivos deu origem às abelhas africanizadas que se espalharam por todo o continente.
Em 1956, o geneticista brasileiro Warwick Estevam Kerr viajou para a África em busca de rainhas de abelhas mais adaptadas ao clima tropical. Financiado pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, ele coletou 133 rainhas, mas apenas 47 sobreviveram ao transporte.
O experimento, realizado no interior de São Paulo, fugiu ao controle em 1957, quando 26 colônias escaparam do apiário após a remoção das telas de segurança. Esse incidente deu origem às abelhas africanizadas, que se espalharam por todo o continente americano.
O objetivo de Kerr era realizar cruzamentos controlados para obter linhagens mais produtivas e resistentes, já que as abelhas europeias não se adaptavam bem a todas as regiões tropicais do Brasil. No entanto, o escape das colônias rompeu o plano experimental e desencadeou uma transformação biológica de grandes proporções.
A expedição em busca de rainhas africanas
Kerr percorreu regiões da África entre agosto e dezembro de 1956, concentrando – se principalmente na área de Pretória, além de obter uma rainha no então Tanganica. A viagem foi financiada pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, conforme registros da Embrapa.
Ele buscava linhagens com boa produtividade, resistência a doenças e adaptação ao calor.
Das 133 rainhas coletadas, apenas 47 sobreviveram às etapas iniciais de transporte e adaptação. Após uma nova seleção, 12 rainhas foram eliminadas, restando 35 exemplares que seguiram para a quarentena no interior paulista. O número reduzido já indicava os desafios do experimento.
O escape que deu origem às abelhas africanizadas
As colmeias do experimento possuíam telas excluidoras para impedir a passagem das rainhas, mas essas barreiras foram retiradas sem o conhecimento dos pesquisadores. Segundo o relato histórico da Embrapa, quando os responsáveis retornaram ao local, descobriram que 26 famílias haviam enxameado ou migrado, rompendo o controle sobre as populações africanas.
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As colônias que escaparam não ficaram isoladas. No Brasil já existiam populações de Apis mellifera de origem europeia, trazidas por imigrantes alemães, italianos e portugueses. Os descendentes das abelhas africanas começaram a cruzar naturalmente com essas linhagens, dando origem às abelhas africanizadas, uma nova variedade com alta adaptação ao clima tropical.
A expansão continental e a adaptação da apicultura
Os descendentes das 26 colônias se reproduziram rapidamente pelo Brasil. Em entrevista preservada pela SciELO, Warwick Kerr relembrou que a dispersão começou em 1957 e que, entre aquele ano e 1964, os cruzamentos com abelhas alemãs, italianas e portuguesas já formavam uma população diferente.
A expansão não se limitou ao Brasil: os enxames africanizados alcançaram grande parte do continente americano ao longo das décadas.
A chegada das abelhas africanizadas exigiu mudanças significativas no manejo apícola. Pesquisadores e apicultores desenvolveram técnicas específicas de proteção, alimentação e coleta. Com o tempo, a alta adaptação ao ambiente tropical e a produtividade das africanizadas se tornaram vantagens competitivas, transformando a apicultura brasileira em algo muito diferente do que Kerr encontrou nos anos 50.