Visitante removeu proteção de colmeia e soltou 26 enxames de abelhas africanas nas Américas

O incidente de 1957 com 26 enxames fugitivos deu origem às abelhas africanizadas que se espalharam por todo o continente.

Abelhas se movimentam entre realeiras em um favo de mel dentro de uma colmeia, nesta foto divulgada no Jardim Botânico Nacional de Pequim, China, em 18 de junho de 2021, publicada em 3 de junho de 2026

Em 1956, o geneticista brasileiro Warwick Estevam Kerr viajou para a África em busca de rainhas de abelhas mais adaptadas ao clima tropical. Financiado pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, ele coletou 133 rainhas, mas apenas 47 sobreviveram ao transporte.

O experimento, realizado no interior de São Paulo, fugiu ao controle em 1957, quando 26 colônias escaparam do apiário após a remoção das telas de segurança. Esse incidente deu origem às abelhas africanizadas, que se espalharam por todo o continente americano.

O objetivo de Kerr era realizar cruzamentos controlados para obter linhagens mais produtivas e resistentes, já que as abelhas europeias não se adaptavam bem a todas as regiões tropicais do Brasil. No entanto, o escape das colônias rompeu o plano experimental e desencadeou uma transformação biológica de grandes proporções.

A expedição em busca de rainhas africanas

Kerr percorreu regiões da África entre agosto e dezembro de 1956, concentrando – se principalmente na área de Pretória, além de obter uma rainha no então Tanganica. A viagem foi financiada pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfys, conforme registros da Embrapa.

Ele buscava linhagens com boa produtividade, resistência a doenças e adaptação ao calor.

Das 133 rainhas coletadas, apenas 47 sobreviveram às etapas iniciais de transporte e adaptação. Após uma nova seleção, 12 rainhas foram eliminadas, restando 35 exemplares que seguiram para a quarentena no interior paulista. O número reduzido já indicava os desafios do experimento.

O escape que deu origem às abelhas africanizadas

As colmeias do experimento possuíam telas excluidoras para impedir a passagem das rainhas, mas essas barreiras foram retiradas sem o conhecimento dos pesquisadores. Segundo o relato histórico da Embrapa, quando os responsáveis retornaram ao local, descobriram que 26 famílias haviam enxameado ou migrado, rompendo o controle sobre as populações africanas.

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As colônias que escaparam não ficaram isoladas. No Brasil já existiam populações de Apis mellifera de origem europeia, trazidas por imigrantes alemães, italianos e portugueses. Os descendentes das abelhas africanas começaram a cruzar naturalmente com essas linhagens, dando origem às abelhas africanizadas, uma nova variedade com alta adaptação ao clima tropical.

A expansão continental e a adaptação da apicultura

Os descendentes das 26 colônias se reproduziram rapidamente pelo Brasil. Em entrevista preservada pela SciELO, Warwick Kerr relembrou que a dispersão começou em 1957 e que, entre aquele ano e 1964, os cruzamentos com abelhas alemãs, italianas e portuguesas já formavam uma população diferente.

A expansão não se limitou ao Brasil: os enxames africanizados alcançaram grande parte do continente americano ao longo das décadas.

A chegada das abelhas africanizadas exigiu mudanças significativas no manejo apícola. Pesquisadores e apicultores desenvolveram técnicas específicas de proteção, alimentação e coleta. Com o tempo, a alta adaptação ao ambiente tropical e a produtividade das africanizadas se tornaram vantagens competitivas, transformando a apicultura brasileira em algo muito diferente do que Kerr encontrou nos anos 50.