Ueno Bank sofre intervenção do BC do Paraguai meses após captar US$ 350 milhões no exterior
O Banco Central do Paraguai (BCP) interveio nesta semana no Ueno Bank, instituição financeira paraguaia que, em março, havia captado US$ 350 milhões no mercado internacional em uma operação considerada histórica para o setor bancário local.
Em 2 de novembro, o regulador constatou que o índice de solvência do banco estava abaixo da metade do mínimo legal. Essa situação motivou a intervenção e a suspensão das obrigações financeiras da instituição, num quadro que destoa da sequência de captações e aportes anunciada pelo próprio banco meses antes.
Captação recorde e entrada de capital estrangeiro
A emissão internacional, fechada em 3 de março, foi a maior dívida externa já colocada por um banco paraguaio. Os títulos vencem em 2031, pagam juros anuais de 6,70% e atraíram uma demanda equivalente a uma vez e meia o volume ofertado. JPMorgan e Bank of America atuaram como coordenadores da operação, enquanto a auditoria PwC e assessores jurídicos internacionais também foram contratados pelo banco.
A instituição afirmou que o dinheiro iria sobretudo para ampliar o crédito a empresas paraguaias. Com a emissão, o Ueno passou a contar com fontes de financiamento mais diversificadas e com maior acesso a investidores do exterior.
O OTP Bank, maior instituição financeira da Hungria, também entrou no negócio. Em dezembro de 2025, o grupo húngaro aplicou US$ 30 milhões na U Holdings, empresa com sede em Luxemburgo que controla o banco paraguaio. Até julho deste ano, os aportes somavam US$ 47 milhões, de acordo com dados divulgados pela própria instituição.
O dinheiro, porém, entrou na controladora, e não diretamente no Ueno Bank. Essa diferença pesa, já que os direitos de acionistas não se confundem com os de credores que compraram os títulos de dívida. O banco também recebeu recursos de organismos internacionais de desenvolvimento, voltados a pequenas empresas e a projetos sustentáveis.
Em relatório sobre março, a agência Fix SCR apontou a emissão internacional como fator de reforço da liquidez e de diversificação das fontes de recursos. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, o saldo de títulos de dívida em circulação saltou de cerca de 669 bilhões para 2,93 trilhões de guaranis, uma alta de 338%.
No mesmo intervalo, os depósitos de clientes chegaram a 17,05 trilhões de guaranis, avanço de 7,7%.
Reforço de US$ 100 milhões foi anunciado em 29 de outubro
A última tentativa pública de reforçar o capital foi feita em 29 de outubro. Na ocasião, o Ueno informou que receberia US$ 50 milhões do acionista controlador em novembro e que buscaria mais US$ 50 milhões junto a investidores privados paraguaios.
O plano previa elevar o índice de capital principal de 11,7% para 14,9%, e o capital regulatório total de 13,8% para 15,9%. A instituição tratou a operação como parte de uma estratégia de fortalecimento patrimonial, mas os recursos ainda dependiam de aportes futuros e de procedimentos regulatórios.
O banco chegou a anunciar esse reforço de capital de US$ 100 milhões apenas quatro dias antes de entrar em processo de resolução, segundo o relato da instituição. Já o Banco Central informou ter identificado uma deterioração patrimonial grave na revisão dos demonstrativos financeiros.
A supervisão tinha começado meses antes, após suspeitas sobre operações de crédito com empresas ligadas ao grupo controlador.
O choque entre os números divulgados ao mercado e o diagnóstico do regulador levantou dúvidas sobre a qualidade das informações financeiras apresentadas aos investidores.
O que acontece com os US$ 350 milhões captados
A intervenção deixou investidores que compraram os títulos internacionais em situação incerta. Os papéis foram emitidos como dívida sênior sem garantia específica. Na prática, seus detentores são credores do banco, mas não têm ativos determinados reservados para cobrir o pagamento.
Em 3 de novembro, a Superintendência de Valores do Paraguai suspendeu a negociação dos títulos do banco no mercado local, incluindo bônus financeiros e subordinados. A resolução também interrompeu o pagamento de juros e amortizações e colocou a recuperação dos créditos depois do processo de reorganização de ativos e passivos.
A Fix SCR avaliou que a intervenção pode acionar cláusulas de vencimento antecipado da emissão internacional. Nessa hipótese, os investidores poderiam cobrar o pagamento imediato, conforme as condições dos contratos. Ainda assim, isso não quer dizer que os US$ 350 milhões tenham se perdido por completo, nem que todos os credores tenham pedido o resgate antecipado.
O valor recuperado dependerá dos ativos disponíveis e das regras do processo de resolução.
Além disso, o regulador definiu critérios extraordinários para avaliar os investimentos de fundos paraguaios ligados ao banco. Os títulos financeiros e subordinados do Ueno passaram a ser contabilizados por valor zero nesses fundos. A medida é prudencial e não equivale, necessariamente, à perda definitiva de todo o capital aplicado.
Instituições públicas têm recursos no banco
O caso também atingiu órgãos públicos. O Instituto de Previdência Social (IPS) informou ter cerca de US$ 355 milhões depositados no banco. Já a estatal de eletricidade ANDE relatou recursos próprios e financiamentos internacionais vinculados a contas no Ueno.
A exposição dessas entidades reacendeu o debate sobre os critérios para aplicação de recursos públicos e sobre a eficácia da supervisão financeira.
Para o mercado paraguaio, o principal desafio agora é preservar a confiança dos investidores. Um banco que, em março, havia feito a maior emissão de dívida internacional do país passou, oito meses depois, a enfrentar a intervenção do regulador.
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Redação Economia
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