Por que Santiago Peña renunciou: Ueno Bank, ligado a ex-sócios, foi declarado insolvente

O economista de direita Santiago Peña, de 47 anos, renunciou à Presidência do Paraguai na quinta-feira (5). Ele deixa o cargo em meio ao escândalo envolvendo o Ueno Bank, instituição ligada a antigos sócios do chefe de Estado.
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Peña tomou posse como o governante mais jovem da era democrática do Paraguai. Ao anunciar a decisão, afirmou que pensa na estabilidade do país, na paz social e na necessidade de preservar as instituições democráticas.
Crise no Ueno Bank pressionou o governo
Milhares de paraguaios foram às ruas de Assunção na terça-feira (3) para cobrar a liberação do dinheiro depositado no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país. A instituição foi colocada sob intervenção após ser considerada insolvente, ou seja, sem capacidade de honrar seus compromissos.
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O Banco Central do Paraguai bloqueou recursos públicos e economias de milhões de clientes. Na quarta-feira (4), o órgão suspendeu temporariamente os saques de determinados fundos de investimento vinculados ao banco, que atendia quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios.
Para compensar os poupadores, o Banco Central vai antecipar a garantia do Fundo de Garantia de Depósitos, de até 40 salários mínimos. Dívidas pendentes com a instituição serão descontadas desse valor. Já a Justiça determinou a prisão preventiva de oito suspeitos de envolvimento na crise, entre eles o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale, e o diretor-executivo, Federico Miguel Vázquez.
Trajetória de tecnocrata com pouca experiência política
Alto e de porte atlético, Peña é ex-jogador de rúgbi. Ele é visto como um tecnocrata de brilhante carreira acadêmica, mas com pouca experiência na política. Formou-se em Economia na Universidade Católica do Paraguai e fez mestrado na Universidade de Colúmbia, em Nova York.
Antes de entrar na vida pública, trabalhou no departamento para a África do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, e foi funcionário do Banco Central entre 2000 e 2009. Em 2012 integrou a direção do BC e, em 2014, foi nomeado ministro da Fazenda por Cartes.
A ascensão, porém, passou pela forte influência de Cartes, político veterano e rico empresário do ramo do tabaco, incluído pelos Estados Unidos em uma lista de sanções como “significativamente corrupto”. Foi Cartes quem levou Peña a se filiar ao Partido Colorado, de linha conservadora, que domina a vida política do Paraguai desde o século XIX.
Em 2017, Peña perdeu para Mario Abdo Benítez a chance de disputar a presidência nas eleições primárias, oportunidade que recuperou quatro anos depois.
Os adversários o chamam de “secretário de Cartes”, mas a crítica não parece incomodá-lo. “É alguém muito sereno, impressiona sua tranquilidade”, disse à AFP um dos seus colaboradores.
Posições conservadoras e polêmica sobre linguagem inclusiva
Filho do economista José María Peña e da argentina Ana María Palacios, Peña é casado com Leticia Ocampos. O casal tem dois filhos, Gonzalo, nascido antes de Peña completar 18 anos, e Costanza, de 16.
De moral conservadora, o presidente é contra o aborto, que chama de “um atalho, o [caminho] mais fácil”, e rejeita o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Defendo a família em sua composição tradicional: mãe, pai e filhos”, disse à AFP.
Recentemente, ele apoiou a decisão do Congresso que rejeitou uma doação de R$ 207 milhões (cerca de 38 milhões de euros) para um projeto educacional, por causa da linguagem inclusiva. “Valorizamos quando alguém vem doar dinheiro, mas o dinheiro não pode condicionar nosso estilo de vida e nossas crenças”, afirmou.
Processo de impeachment já avançava na Câmara
Antes do anúncio da renúncia, um processo de impeachment contra Peña já avançava no Legislativo. A principal bancada governista divulgou que apoiava a saída do presidente. Em comunicado, Cartes, presidente da Associação Nacional Republicana (ANR), o Partido Colorado, afirmou: “Não estaremos ao lado do saque dos fundos públicos, privados e dos aposentados”.
Segundo Cartes, a legenda apoiaria o julgamento político para “reconduzir a institucionalidade da República”. A Câmara havia iniciado a sessão para analisar a acusação naquela manhã. De acordo com o jornal paraguaio ABC Color, a adesão da bancada, com 35 deputados presentes, somou-se ao apoio de outros grupos e abriu caminho para uma votação unânime.
Para encaminhar o processo ao Senado, são necessários dois terços dos votos dos deputados presentes. A eventual destituição, porém, depende do julgamento pela Câmara Alta.
Ao deixar o cargo, Peña também pediu desculpas à população. “Também quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei. Nunca foi minha intenção defraudar a confiança que depositaram em mim”, afirmou. Ele disse que sua prioridade agora é a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao sistema financeiro.
Editoria:
Redação Internacional
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