Carnaval de Luz supera 20 anos de discos fracos do U2, mas ainda fica longe de 2000 e 2004

Os instrumentistas, com destaque para The Edge, entregam boas composições, mas as letras de Bono ainda comprometem o conjunto e limitam o álbum.

6 min

Foto: Reprodução/Rolling Stone Brasil
Foto: Reprodução/Rolling Stone Brasil

A banda irlandesa U2 aposta em Carnaval de Luz para se reerguer. Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. veem no novo álbum a chance de recuperar a magia que o grupo não consegue reencontrar desde o início dos anos 2000.

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O século 21 começou bem para o U2, com All That You Can’t Leave Behind (2000) e How To Dismantle An Atomic Bomb (2004), dois dos álbuns mais bem-sucedidos da banda. Depois disso, o grupo perdeu o rumo e fracassou em todas as tentativas de reviver aquele momento.

Melhor disco em 20 anos é elogio com ressalva

Carnaval de Luz é, sem dúvida, o melhor álbum do U2 dos últimos 20 anos. O problema é que, nesse mesmo período, a banda produziu o pior material de sua carreira. Por isso, o elogio pode soar como um insulto velado.

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Para o público, a conta é simples: o disco supera uma sequência fraca, mas isso não garante que ele esteja à altura da fase de ouro do grupo.

Bono pode salvar ou afundar as canções

O grande desafio do U2 desde 2000 é o vocalista. Bono ao mesmo tempo encanta milhões de fãs e afasta outros tantos, e essa característica aparece com força nas músicas.

Uma faixa pode ter arranjos impecáveis, mas, se a letra carregar os piores traços do frontman, o resultado desmorona. Em Carnaval de Luz, isso acontece com frequência.

Os instrumentistas entregam composições que lembram momentos de All That You Can’t Leave Behind, How To Dismantle An Atomic Bomb, Zooropa (1993) e até Achtung Baby (1991). O guitarrista The Edge se destaca, equilibrando a inquietação experimental com a fórmula clássica da banda. O melhor exemplo é “Go (Carnaval de Luz)”, um turbilhão sonoro feito para prender o ouvinte logo de início.

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Mesmo assim, Bono compromete o conjunto com algumas das piores letras da carreira do U2.

Letras esvaziam temas políticos pesados

O problema não é inédito. O EP Days of Ash, lançado em fevereiro, tratou de temas políticos pesados, como o genocídio em Gaza e o assassinato de Renée Good e Alex Pretti por agentes de imigração americanos em Minneapolis. A tentativa fracassou.

No passado, o U2 sabia transmitir uma empatia singular e falar ao senso coletivo da humanidade. Hoje, Bono parece ter perdido a noção do contexto ou simplesmente não se interessa mais em entender a situação por completo.

Em Carnaval de Luz, ele deixa de lado esses temas e prefere a celebração. Enquanto o mundo começa a reagir aos abusos da extrema direita e a tirar esses governos do poder, a letra de “Go (Carnaval de Luz)” oferece uma versão rasa dessa virada:

“Welcome to tonight, a carnival of light

Illumination is the way to fight this

I’ve had it with the fear, can’t believe I made it here

Came to find other people who feel like this”

[“Bem-vindos a hoje à noite, um carnaval de luz

Iluminação é o caminho para lutar

Já estou cheio desse medo, não acredito que cheguei até aqui

Vim encontrar outras pessoas que se sentem assim”]

The Mirror Maker tropeça em clichês místicos

O ponto mais baixo do disco é “The Mirror Maker (Rosalía)”, composta para a cantora pop espanhola Rosalía. A letra reúne clichês místicos e religiosos para descrever o apelo da artista.

O contraste é grande. O álbum mais recente dela, LUX (2024), foi elogiado justamente por fugir da linguagem comum sobre fé e sobre a relação das pessoas com Deus, além de reinventar a música tradicional europeia para o pop atual.

Nesse caso, parece que o U2 tem medo de se aprofundar no assunto, ou perdeu a capacidade de fazê-lo.

“A mirror maker sets out to trap light

Illuminator, silver inside

Break the glass, what could possibly go wrong?

Stubbornly in the service of her song

Silver girl let me sing along”

[“Uma fabricante de espelhos se põe a capturar luz

Iluminadora, prata por dentro

Quebre o vidro, o que pode dar errado?

Teimosamente a serviço de sua canção

Garota de prata, deixe-me cantar junto”]

The Greatest Show On Earth e Silencio salvam parte do álbum

Nem tudo é fraco. “The Greatest Show On Earth” tenta reproduzir a grande balada do U2, presente em quase todos os discos do grupo. Bono fala de não poder cantar o que sente por causa de um término amoroso.

Quando ele canta “We were once the greatest show on Earth” [“Nós já fomos o maior espetáculo da Terra”], o verso pode se referir ao casal da canção, mas também à própria banda, diante dos intervalos cada vez mais longos entre os lançamentos dos últimos 20 anos.

A vulnerabilidade aparece, ainda que talvez não tenha sido planejada.

“Silencio” é um rock divertido, ainda que um pouco bobo. Lembra uma versão superior de “Get On Your Boots”, do álbum No Line on the Horizon (2009), com The Edge tocando uma guitarra cheia de fuzz em um arranjo de glam rock. O refrão é grandioso e não faz muito sentido, mas é nesse momento que a persona exagerada de Bono joga a favor da banda.

Street of Dreams mistura inglês e espanhol

“Street of Dreams”, primeiro single do disco, soa como a versão clássica do U2. Larry Mullen Jr. toca uma bateria propulsiva, com influência de ritmos marciais, enquanto The Edge mira a guitarra para o alto. Adam Clayton segura a base com o baixo e mantém tudo unido.

Na letra, Bono mistura inglês e espanhol para tratar do conceito católico de que os esquecidos pela sociedade são acolhidos por Deus.

Também há “Torn”, com a participação de Dolly Parton, morta em agosto. A faixa é uma canção country, ao menos na leitura do U2 para o gênero, e ganha força com a convidada, que faz qualquer coisa soar singular.

Banda parece presa à própria nostalgia

No conjunto, a sensação é de um grupo obcecado em recuperar algo perdido há muito tempo, e não em abrir um caminho novo. Musicalmente, o U2 deixou de seguir as tendências do pop para focar no que funciona na sua própria abordagem, o que tem seu valor, mas também limita o disco.

Talvez a banda ainda esteja perdida, ou simplesmente sem força para deixar a zona de conforto depois de 50 anos de carreira.

Carnaval de Luz chega às plataformas digitais em 13 de outubro.

A Redação Entretenimento reúne a cobertura do Clique Fatos sobre famosos, TV, novelas, cinema e cultura pop. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].

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