Trump ameaça deixar a Otan, e relatório de Munique fala em “política da bola de demolição”

A guerra com o Irã aprofundou a crise nas relações transatlânticas.

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Foto: Reprodução
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A crise transatlântica e a “bola de demolição”

Em entrevista ao The Daily Telegraph, em 1º de abril, o presidente Donald Trump levantou a possibilidade de os Estados Unidos deixarem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), caso os aliados europeus não oferecessem ajuda militar para resolver o bloqueio do Estreito de Ormuz.

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Essa declaração, embora improvável em sua concretização, refletia a crescente tensão nas relações transatlânticas, conforme evidenciado no Relatório da Conferência de Segurança de Munique de 2026. O documento, publicado duas semanas antes da operação conjunta dos EUA e Israel contra o Irã, expõe a profunda ansiedade da Europa em relação ao afastamento de Washington dos princípios do internacionalismo liberal e ao que o relatório denomina de “política da bola de demolição”.

A imagem da destruição imprudente

A expressão “bola de demolição” evoca a ideia de destruição indiscriminada, uma metáfora que ilustra a percepção do relatório de que as ações de Trump estão desmantelando um sistema construído ao longo de décadas. Essa narrativa sugere que o Ocidente pode ter dificuldades em restaurar a ordem mundial, uma vez que ela foi fundamentalmente alterada.

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O relatório apresenta uma visão dramática, mas a análise dos autores revela uma compreensão complexa da história pós-Segunda Guerra Mundial.

Realidades inconvenientes na história

A leitura idealizada da história pós-Segunda Guerra Mundial ignora as realidades complexas das relações internacionais. Os autores reconhecem que o sistema internacional moderno surgiu após 1945, mas enfatizam que o relatório apresenta uma visão parcial, focando em um aspecto do sistema como se representasse o todo.

Essa perspectiva seletiva se justifica pelo fato de que Washington frequentemente empregou métodos questionáveis, direcionados principalmente a países fora do núcleo ocidental.

Casos de “fogo amigo”

No entanto, a narrativa não se limita a críticas externas. O relatório também menciona casos de “fogo amigo”, como a intensa pressão dos Estados Unidos sobre o Japão na década de 1980 para impedir que o país se tornasse a principal economia mundial.

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Essa ação demonstra a capacidade de Washington de infligir danos colaterais à Europa, especialmente quando os interesses americanos estavam em jogo.

Motivações e desafios estratégicos

As razões por trás da indiferença de Trump pelos seus aliados mais próximos são multifacetadas. Incluem cálculos fiscais que questionam o investimento em defesa por países ricos, hostilidade ideológica em relação a líderes europeus considerados aliados do Partido Democrata, e uma incapacidade de perceber a capacidade da Europa de contribuir significativamente para a competição estratégica com a China.

A China representa hoje uma ameaça mais séria para os Estados Unidos do que a União Soviética durante a Guerra Fria, devido ao seu investimento em dissuasão militar e ao seu sucesso econômico.

A China e a nova ordem mundial

A ascensão da China como uma potência econômica e tecnológica, impulsionada pela inclusão do país nos mercados globais, criou um novo desafio para Washington. A abertura da economia global, a expansão da China e o surgimento de uma classe média em crescimento permitiram que Pequim construísse capacidades militares sérias após décadas de investimento limitado.

A retirada histórica da União Soviética, que culminou no fim do seu regime, serve como uma lição importante para a China moderna, demonstrando que a retirada voluntária do confronto militar e político pode ter consequências catastróficas.

Memória seletiva e a ordem pós-guerra

O relatório demonstra uma fé inabalável na natureza progressista e universal da ordem liberal pós-1945, ignorando a verdade inconveniente de que essa ordem nunca existiu verdadeiramente como um sistema global unificado. Os eventos de 1989-1991 moldaram profundamente o pensamento ocidental, levando a uma tendência de minimizar a contribuição da União Soviética para a derrota do nazismo e para o estabelecimento de regras genuinamente universais de conduta internacional.

A memória seletiva se aplica tanto às origens do sistema pós-guerra quanto à expansão da Aliança do Atlântico Norte (OTAN).

O Sul Global

Os autores do relatório de Munique demonstram uma crença na necessidade de conquistar o Sul Global, cujo envolvimento é dificultado pelos “hábitos e pressupostos ultrapassados” dos europeus. No entanto, dados de opinião pública revelam que os cidadãos dos países do Brics (Índia, China, África do Sul e Brasil) demonstram a maior disposição para se engajar ativamente na resolução de problemas globais, embora não estejam dispostos a adotar uma visão de mundo ocidentalocêntrica.

A Europa e o futuro da ordem mundial

A situação atual em torno do Irã apresenta à Europa um dilema claro: uma postura mais baseada em princípios e decisiva, em consonância com seus valores professados, poderia aumentar sua credibilidade como ator global independente. No entanto, a Europa oferece pouco mais do que críticas moderadas e uma decisão controversa de proibir aeronaves americanas de usar seu espaço aéreo.

A nova realidade global está se tornando impossível de ignorar, e a Europa ainda não está conceptualmente preparada para enfrentá-la.

Atualização em 30/10/2026: o texto foi corrigido.

A Redação Internacional reúne a cobertura do Clique Fatos sobre os principais acontecimentos fora do Brasil. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].

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