Senado do Paraguai destitui Peña por 44 votos a 0 em menos de 36 horas e Pedro Alliana assume

Peña deve se apresentar à Justiça no sábado (7) sob prisão domiciliar.

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Manifestantes protestam na porta da casa do presidente impedido Santiago Peña, na noite da sexta-feira (6) | Foto: Daniel Duarte/ AFP

O presidente Santiago Peña terá de se apresentar à Justiça na manhã de sábado (7). Em menos de 36 horas, o Senado paraguaio concluiu o impeachment, por mau desempenho de suas funções, e a Justiça decretou sua prisão domiciliar.

Assim que a votação terminou, apoiadores comemoraram em frente ao Palácio Legislativo e no centro de Assunção. Durante o dia, manifestantes também foram até o Banco Central e a sede do banco Ueno para cobrar a devolução de depósitos congelados. Peña era acusado de conflito de interesses, manipulação da supervisão regulatória, desvio de fundos de pensões e participação em encobrimento institucional. Os 44 senadores presentes o declararam culpado, em votação unânime.

Congresso rejeitou renúncia e votou pelo impeachment

Todo o processo se deu entre quinta e sexta-feira, e só avançou com os votos de legisladores do próprio Partido Colorado, sigla de Peña. Na quinta-feira, o presidente havia apresentado a renúncia, mas o Congresso a recusou e seguiu com a destituição.

Peña não foi à sessão plenária. Ele pediu adiamento, que foi negado. Seus advogados contestaram a validade do procedimento e afirmaram que vão recorrer a tribunais internacionais.

Vice assume e promete ressarcir correntistas

Com a saída de Peña, o vice Pedro Alliana tomou posse como presidente, com a missão de concluir o período que termina em agosto de 2028. Antonio Barrios, senador do Partido Colorado até então e médico do ex-presidente Horacio Cartes, foi empossado como novo vice-presidente.

Na cerimônia, Hércules Pedro Lorenzo Alliana Rodríguez, de 52 anos, assumiu o compromisso de indenizar por completo os correntistas afetados pelo colapso do Banco Ueno, com prioridade para os mais vulneráveis. “Os compatriotas que hoje atravessam um momento difícil, por consequência do desastre financeiro, serão compensados plenamente. Não os deixaremos sozinhos”, prometeu Alliana no seu discurso de posse.

Cartes foi peça-chave na queda de Peña

A destituição e a posse de Alliana só aconteceram por causa da atuação do ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018), atual presidente da Associação Nacional Republicana (ANR), nome oficial do Partido Colorado. Foi Cartes quem articulou a vitória da chapa em abril de 2023 e atuou como mentor político de Peña.

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Com o tempo, porém, Peña passou a depender menos do antigo padrinho. Ele consolidou influência própria, aliou-se a empresários locais e a líderes regionais, como o argentino Javier Milei, e também a líderes mundiais, como o norte-americano Donald Trump.

Cartes, por sua vez, pediu um relatório ao Banco Central sobre o Banco Ueno e, na quinta-feira (5), retirou o apoio ao presidente, o que fez os legisladores rejeitarem a renúncia.

Em nota assinada por Cartes, o partido afirmou: “A Associação Nacional Republicana (ANR) não apoiará o roubo de fundos públicos, privados e de pensões. Apoiamos a destituição contra o presidente Santiago Peña com o objetivo de restaurar a institucionalidade da República”.

A declaração foi decisiva para inverter o rumo que vinha se desenhando no Congresso.

Prisão domiciliar e noite de tensão em frente à casa do ex-presidente

Pela Constituição paraguaia, o artigo 189 determina que ex-presidentes eleitos democraticamente se tornam senadores vitalícios, salvo se forem destituídos. Como senador vitalício, a pessoa tem imunidade parlamentar e não pode ser processada criminalmente sem aval do Congresso.

Aprovado o impeachment, a Justiça ordenou a prisão domiciliar de Peña por “lesão de confiança”. Diante da residência, porém, uma multidão enfurecida pedia prisão comum. Já de madrugada, a polícia usou balas de borracha para dispersar os manifestantes e levou o ex-presidente a uma unidade militar, onde ele passou a noite no Regimento Escolta Presidencial (REP).

Intervenção no Ueno deixou quase três milhões sem acesso ao dinheiro

Peña ficou no cargo por apenas três dias após a intervenção do Banco Central no Banco Ueno, na terça-feira (3), por insolvência financeira. A medida deixou quase três milhões de paraguaios sem acesso aos seus depósitos. Dois em cada três paraguaios tinham conta na instituição, que cresceu rapidamente com apoio político.

O banco administrava fundos do Estado, incluindo a maior parte dos recursos da Previdência, que foram levados para lá graças a Peña, acionista do Ueno Holding até o ano passado. Jovens, trabalhadores informais e pequenas empresas também concentravam ali suas contas.

Sem acesso ao dinheiro, sobretudo no começo do mês, esses grupos chegaram a paralisar boa parte da economia.

Vendas caem 70% e Banco Central imprime novas cédulas

A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (ASIMCOPAR) informou que, desde terça-feira, as vendas caíram 70%. Para atender à repentina procura por dinheiro vivo, o Banco Central precisou imprimir novas cédulas.

A lista de detidos inclui oito executivos do banco, além do ex-presidente do Banco Central, Carlos Carvallo. Ele também tinha trabalhado no Ueno antes de ser indicado por Peña para o cargo.

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