Raam projeta até 5 cadeiras no Knesset e pode decidir se a oposição de Netanyahu governa

Com a oposição projetada em até 54 cadeiras, longe das 61 necessárias, o partido de Mansour Abbas pode ser a peça-chave.

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Mansour Abbas, líder da Lista Árabe Unida (Raam), profere um discurso em 1º de abril de 2021, em Nazaré, em Israel

Um partido árabe pode ter papel decisivo na disputa pelo poder em Israel. O Raam, também chamado de Lista Árabe Unida, pode ajudar a oposição do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a chegar ao governo nas eleições que acontecem no dia 27 de outubro.

Pesquisa do Channel 13 News projeta até cinco cadeiras para o Raam no Knesset. Com isso, o partido ganha espaço para entrar em uma negociação caso o resultado das urnas se confirme e a oposição forme um governo.

Quem é o Raam e qual o peso dos árabes em Israel

O Raam é um partido árabe muçulmano liderado por Mansour Abbas. A legenda atua principalmente para garantir direitos à população árabe que vive em Israel.

Segundo dados do Conselho de Relações Exteriores, um think tank dos Estados Unidos, os árabes representam 21% da população israelense, cerca de dois milhões de pessoas. A maioria tem cidadania israelense, mas quem vive em Jerusalém Oriental tem o status de “residente permanente”, o que impede o acesso a direitos plenos de parte dos habitantes.

Em 2022, o Raam conquistou cinco assentos no Knesset, o Parlamento israelense. Ele também se tornou o primeiro partido árabe a participar diretamente de um governo em Israel, apoiando a coalizão de Naftali Bennett e Yair Lapid entre junho de 2021 e dezembro de 2022.

Oposição pode chegar perto, mas sem maioria

Nas eleições atuais, o Yashar, partido de Gadi Eisenkot, principal opositor de Netanyahu, tem projeção de até 54 cadeiras, segundo a pesquisa do Channel 13 News. O Likud, legenda de Netanyahu, deve cair de 64 para 50 assentos.

Mesmo assim, a oposição não alcança as 61 cadeiras necessárias para a maioria no Parlamento.

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Para o professor de Relações Internacionais Danny Zahreddine, da PUC Minas, o Raam pode ser peça essencial para viabilizar qualquer futuro governo. Ele aponta, porém, um dilema para os partidos judaicos: após os ataques do Hamas em outubro de 2023, há grande receio na opinião pública de formar coalizões com partidos árabes, vistas por setores conservadores e de extrema-direita como um ato de traição.

Como o Raam tenta se encaixar na política israelense

Segundo a ex-diplomata israelense Revita Poleg, o Raam se afasta da vertente religiosa para se integrar à política do país. “Embora mantenha raízes islâmicas conservadoras, o partido prioriza a participação política para obter recursos públicos, melhorar os serviços à população e combater a crescente criminalidade na comunidade árabe”, afirma.

Uma das medidas foi indicar o policial israelense aposentado Yoav Segalovitz como número dois do partido nestas eleições. Segalovitz é judeu sionista, foi deputado do Knesset e ex-alto oficial da segurança israelense. Poleg explica que a aliança é estritamente político-técnica. “Segalovitz não integra o Movimento Islâmico; o acordo foi concebido para preservar a autonomia das duas partes.”

Mesmo assim, a sigla ainda enfrenta resistência dos partidos israelenses. Por isso, tem mostrado contenção ao falar sobre a criação de um Estado palestino, tema que especialistas consideram tabu na sociedade israelense. Ainda assim, o Raam defende o Estado palestino, a desocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia e reconhece a Autoridade Palestina como órgão oficial para negociar com Israel.

Exigências de Eisenkot e posição do partido árabe

A professora de Relações Internacionais Karina Calandrin explica que o Raam vê a participação em coalizões como instrumento efetivo para conquistar direitos e recursos. Para isso, a sigla tem se mostrado favorável às exigências dos blocos israelenses, incluindo o reconhecimento do Estado judaico.

Em dezembro de 2021, durante a conferência Empresarial Globes, Mansour Abbas declarou: “O Estado de Israel nasceu como um Estado judeu. Essa foi a decisão do povo, e a questão não é qual a identidade do Estado. Ele nasceu assim e assim permanecerá.”

Esse reconhecimento faz parte de quatro condições impostas por Eisenkot para uma possível coalizão. São elas o reconhecimento de Israel como Estado judeu e democrático, o compromisso com os valores da Declaração de Independência, a obrigação de prestar serviço militar ou civil e o reconhecimento do Hamas como organização terrorista que deve ser eliminada.

Segundo Karina Calandrin, Eisenkot já declarou publicamente que não pretende incluir o Raam em seu governo nas condições atuais. Ainda assim, uma aliança que resulte em coalizão não está totalmente descartada. O ex-embaixador israelense Ilan Sztulman Starosta vê outra saída: o Raam apoiar o governo sem entrar formalmente na administração, obtendo concessões no combate à criminalidade.

Como ficam os demais partidos árabes

Além do Raam, outras siglas árabes disputam as eleições. Hadash, Taal e Balad integram a Lista Conjunta. O Raam fez parte da aliança desde a criação, em 2015, mas deixou o grupo em 2021 para adotar postura pragmática.

Nas eleições de março de 2021, a Lista Conjunta conquistou seis cadeiras: Hadash (3), Taal (2) e Balad (1). A aliança se desfez em 2022, quando Hadash e Taal decidiram concorrer juntos, sem o Balad. Agora, os três partidos voltaram a se reunir para as eleições de 2026.

O analista internacional da CNN Brasil Lourival Santanna avalia que tanto o Raam quanto a Lista Conjunta não devem participar diretamente de um novo governo. “O cenário mais provável é o Raam e a Lista Conjunta apoiarem a formação da coalizão de governo, mas não participarem diretamente dela. Isso no caso da formação de um governo vindo da oposição, liderado por Eisenkot”, diz Santanna.

Se Netanyahu continuar no poder, os partidos árabes devem seguir sem participação.

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