Pedro Sánchez convoca eleição antecipada na Espanha para 29 de novembro

Sánchez aposta em eleição antecipada para reverter crise política e evitar avanço da extrema direita na Europa.

Premiê espanhol Pedro Sánchez

O primeiro – ministro da Espanha, Pedro Sánchez, marcou para 29 de novembro uma eleição antecipada. O anúncio foi feito nesta segunda – feira (5) e representa uma tentativa de fortalecer seu mandato depois que um Parlamento fragmentado rejeitou, na semana passada, os principais decretos do governo sobre habitação.

A decisão ocorre em meio a protestos que tomaram conta do país.

A aposta é arriscada. Sánchez lidera o Partido Socialista, que aparece atrás em praticamente todas as pesquisas de opinião. Uma derrota nas urnas poderia significar o fim de um dos últimos governos de esquerda da Europa, justamente quando a extrema direita ganha espaço sem precedentes na região, com eleitores se afastando do centro político.

Ainda assim, Sánchez, conhecido como um articulador político habilidoso, já provou ser capaz de surpreender quem dava sua carreira como encerrada.

O discurso de Sánchez e a reação da oposição

Em pronunciamento televisionado, Sánchez justificou a decisão. “Precisamos renovar o apoio da população”, disse. “Precisamos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no Parlamento, que nos permita superar interesses estabelecidos, promover novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha.” O premiê reconheceu erros e admitiu não ter cumprido algumas promessas de campanha. “Também sei que parte dessa maioria social está insatisfeita hoje”, afirmou.

Ele prometeu lutar para que a Espanha siga como “um bastião da abertura, da justiça social e da responsabilidade ambiental”.

O principal partido de oposição, o PP (Partido Popular), reagiu rapidamente. Em uma postagem no X, publicou a palavra “FINALMENTE”. O líder da legenda, Alberto Núñez Feijóo, deve conceder uma entrevista coletiva ainda nesta segunda. Os conservadores vinham pressionando Sánchez a dissolver o Parlamento e convocar novas eleições durante boa parte da atual legislatura.

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Já o líder do Vox, Santiago Abascal, disse que o resultado da eleição é imprevisível, apesar do favoritismo da direita nas pesquisas. “As pesquisas diziam a mesma coisa em 2023, e Sánchez conseguiu formar uma maioria com todos os seus cúmplices”, afirmou ao canal Antena 3.

Os desafios de um governo fragmentado

Sánchez assumiu o cargo após liderar uma iniciativa para derrubar o governo do conservador Mariano Rajoy, na esteira de grandes escândalos envolvendo o PP. No entanto, nos últimos anos, integrantes de alto escalão do próprio Partido Socialista enfrentaram acusações de corrupção, o que prejudicou ainda mais a aprovação da legenda, que oscilou entre 26% e 31% durante o mandato.

Apesar das derrotas em eleições regionais e municipais, Sánchez conseguiu um segundo mandato de quatro anos em 2023. Ele negociou o apoio de uma aliança informal de partidos no Parlamento, após prometer uma controversa anistia para líderes independentistas catalães — medida que muitos eleitores ainda veem como uma traição à unidade da Espanha.

A crescente fragmentação entre seus aliados, porém, fez com que o governo aprovasse poucas leis no terceiro mandato e não conseguisse aprovar um orçamento desde 2023, mesmo com a economia espanhola entre as que melhor performam no mundo desenvolvido.

No plano internacional, Sánchez se destacou por posições firmes em temas progressistas, como a defesa do Estado palestino e o combate aos “oligarcas da tecnologia”. Ele também recebeu elogios por medidas como a exumação do ditador Francisco Franco do mausoléu nos arredores de Madri e pela reforma trabalhista, que ajudou a levar o desemprego ao menor nível em quase duas décadas.

Sua recusa em aceitar as exigências dos Estados Unidos para elevar gastos com defesa a 5% do PIB, enquanto se aproxima da China, irritou o presidente americano Donald Trump e alguns líderes europeus.

As medidas de Sánchez para a habitação ofereceram uma rara oportunidade de desviar a atenção de questões politicamente prejudiciais, como os escândalos de corrupção. “Esta é uma janela de oportunidade”, avaliou Lorenzo Bernaldo de Quiros, economista e presidente da consultoria Freemarket Corporate Intelligence. “Se ele não convocar eleições rapidamente, esses temas voltarão ao centro do debate.”