Estudo da Fiocruz mostra que PrEP injetável reduziu incidência de HIV em 96%

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) liderou um estudo que aponta uma nova ferramenta promissora contra o HIV, com potencial para ser incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A pesquisa, publicada nesta quinta – feira (24) na revista científica Lancet, avaliou o uso do cabotegravir injetável de longa duração (CAB – LA), um princípio ativo que inibe o vírus da Aids.
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De acordo com os resultados, a aplicação do CAB – LA reduziu de forma significativa a incidência de novas infecções e ampliou a cobertura da PrEP (Profilaxia Pré – Exposição) entre os participantes. Atualmente, o SUS oferece duas modalidades de PrEP: a diária, indicada para qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade, e a sob demanda, recomendada para quem teve contato eventual com o vírus.
O medicamento cabotegravir, vendido como Vocabria, foi aprovado pela Anvisa em novembro de 2023.
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Como foi feita a pesquisa
O estudo foi conduzido em 14 unidades do SUS espalhadas por cinco cidades: Rio de Janeiro (RJ), Manaus (AM), São Paulo (SP), Campinas (SP) e Florianópolis (SC). Organizações da sociedade civil, como a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e o Grupo Arco – Íris de Cidadania LGBT, também participaram.
O público – alvo incluiu homens cisgênero, pessoas não – binárias designadas como sexo masculino ao nascer, além de homens e mulheres transgênero que fazem sexo com homens. Os voluntários tinham entre 18 e 30 anos e não podiam ter sido infectados pelo HIV nem ter usado PrEP antes.
Quase 3.100 pessoas participaram do que os cientistas chamam de “coorte aberto” — modelo em que os integrantes podem entrar ou sair da pesquisa a qualquer momento.
Os participantes foram divididos em três grupos. O primeiro optou pelo CAB – LA injetável. O segundo escolheu a PrEP oral diária (combinação de tenofovir e emtricitabina). O terceiro, chamado de coorte comparadora, usou a PrEP oral oferecida na rede do SUS.
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Resultados e obstáculos sociais
Após um ano de acompanhamento, os números mostraram diferenças claras. No grupo que usou o CAB – LA, a incidência de HIV foi de 0,2 por 100 pessoas. No grupo da PrEP oral, subiu para 0,87 por 100. Já no grupo comparador do SUS, chegou a 1,48 por 100.
Ou seja, a contaminação foi bem menor entre quem usou o injetável.
A cobertura da PrEP também variou. O grupo do CAB – LA ficou protegido em 90,8% dos dias, contra 47,3% do grupo da PrEP oral e 35,5% do grupo do SUS. Apesar da boa aceitação entre populações vulneráveis, o estudo identificou barreiras sociais e estruturais que dificultam a adoção plena do método.
Pessoas não – brancas (pretas, pardas, indígenas ou asiáticas) têm 60% mais chance de abandonar o tratamento, muitas vezes por discriminação no atendimento. O mesmo ocorre com quem tem ensino médio incompleto — mais de oito em cada dez dessas pessoas correm risco de desistir do acompanhamento, em comparação com quem concluiu os estudos ou tem nível superior.
Outro fardo apontado foi a perda do seguimento clínico entre pacientes com sintomas depressivos graves. Para os pesquisadores, não basta oferecer o medicamento: o sistema precisa criar estratégias de acolhimento para os grupos com maior risco de abandono.
Autor(a):
Ana Carolina Braga
Ana Carolina é engenheira de software e jornalista especializada em tecnologia. Ela traduz conceitos complexos em conteúdos acessíveis e instigantes. Ana também cobre tendências em startups, inteligência artificial e segurança cibernética, unindo seu amor pela escrita e pelo mundo digital.



