Inflamação na gravidez altera a placenta e gera traços de autismo só em camundongos machos

Estudo do Cold Spring Harbor Laboratory aponta sinais de alteração no desenvolvimento já 24 horas após a inflamação, em torno de 12,5 dias de gestação.

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Feto na barriga | Foto: Reprodução/Catraca Livre

Um estudo do Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL) relacionou a inflamação durante a gravidez, alterações na placenta e o surgimento de características semelhantes ao autismo em camundongos machos. Segundo os pesquisadores, sinais dessas perturbações podem aparecer bem antes do que se imaginava, o que abre novas pistas sobre as origens do transtorno.

O experimento mostrou que os fetos ficaram especialmente vulneráveis quando a inflamação ocorreu 12,5 dias após o início da gestação. Nesse período, cerca de um terço dos fetos apresentou anormalidades de desenvolvimento em apenas 24 horas, de acordo com Irene Sanchez Martin, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de Cheadle.

Janela inicial de vulnerabilidade

Para investigar como a inflamação afeta o desenvolvimento fetal, Lucas Cheadle, professor associado do CSHL, e sua equipe provocaram uma resposta imune em camundongas grávidas em diferentes estágios da gestação. Eles usaram uma substância que imita a reação do sistema imunológico a uma infecção viral, sem introduzir um vírus de fato.

Cientistas estudam os efeitos da ativação imunológica materna há décadas. Porém, segundo os pesquisadores, as novas descobertas mostram sinais de interrupção do desenvolvimento mais cedo do que o observado antes.

O resultado que mais chamou a atenção foi a diferença entre os sexos. Em todos os experimentos, características semelhantes ao autismo apareceram apenas nos fetos masculinos, enquanto as fêmeas seguiram se desenvolvendo normalmente. Cheadle afirma que a distinção pode ajudar a explicar por que o autismo é diagnosticado com muito mais frequência em meninos do que em meninas.

Para Cheadle, o que impressiona é a idade em que essa diferença surgiu. “É realmente fascinante, porque estamos analisando uma idade que precede os picos hormonais. Precede a diferenciação sexual no cérebro e em muitas outras regiões. Portanto, é surpreendente que haja uma diferença baseada no sexo tão cedo.”

Placenta aparece como elo com o autismo

Para entender por que alguns fetos foram afetados e outros pareciam protegidos, Cheadle e Sanchez Martin examinaram a placenta, órgão que liga o feto à mãe e sustenta seu crescimento durante toda a gravidez. O foco ficou em células especializadas chamadas espongiotrofoblastos, localizadas na região da placenta do camundongo onde as células maternas e fetais interagem.

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Nos fetos com desenvolvimento normal, essa parte da placenta permaneceu saudável. Já os fetos masculinos com anomalias apresentavam danos visíveis nessas células.

Os espongiotrofoblastos ajudam o sistema imunológico da mãe a tolerar o feto, que carrega material genético de ambos os pais e não é geneticamente idêntico à mãe. Os pesquisadores verificaram que a ativação imunológica materna pode interferir nessa função protetora.

Quando essas células são danificadas, a resposta imunológica da mãe pode passar a afetar o feto de forma prejudicial.

Por que os fetos femininos parecem resistir

Os resultados levantam outra questão: por que os fetos masculinos eram vulneráveis, enquanto os femininos não foram afetados? Uma hipótese é que os embriões masculinos produzam proteínas específicas capazes de desencadear uma resposta imune materna desfavorável após uma infecção viral.

Outra é que os embriões femininos tenham algum tipo de proteção que os ajude a resistir à inflamação nesse período sensível.

“Pode existir um mecanismo de proteção na fêmea que poderia ser utilizado para ajudar o macho. Estamos tentando entender como o autismo surge em ambos os sexos”, explica Cheadle. “As evidências indicam que existem mecanismos potencialmente diferentes.”

A equipe planeja investigar mais detalhadamente camundongos machos e fêmeas para descobrir os mecanismos por trás dessas respostas contrastantes. Segundo o estudo, o trabalho pode, eventualmente, identificar novos alvos para tratamentos e levar a estratégias de intervenção precoce no desenvolvimento associado ao autismo.

Os dados vêm de experimentos com ratos e não comprovam que os mesmos mecanismos causem autismo em humanos. Ainda assim, os pesquisadores apontam que pistas importantes para o início do autismo podem estar também na placenta e em sua interação com o sistema imunológico materno.

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