Desafios da Saúde Bucal em Crianças com TEA: Como Superar a Resistência na Escovação?

Cuidar da saúde bucal de crianças com TEA é um desafio que exige paciência e estratégias personalizadas. Descubra como tornar esse momento mais tranquilo!

17/05/2026 12:46

5 min

Desafios da Saúde Bucal em Crianças com TEA: Como Superar a Resistência na Escovação?
(Imagem de reprodução da internet).

Cuidados com a Saúde Bucal de Crianças com TEA

Cuidar da saúde bucal de crianças com transtorno do espectro autista (TEA) representa, para muitas famílias, um desafio diário que exige paciência, adaptação e persistência. A escovação dos dentes, um hábito que parece simples, pode se tornar um momento de tensão, frequentemente marcado por resistência e choro.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Embora dificuldades na higiene oral também possam ser observadas em crianças neurotípicas, no caso do autismo, esses desafios são intensificados por fatores sensoriais e comportamentais.

Entre os principais obstáculos estão a hipersensibilidade ao toque, ao sabor e à textura, além de dificuldades de comunicação e compreensão da rotina. “Muitas crianças não toleram a escova na boca ou não entendem a necessidade da higiene, o que torna o processo estressante para toda a família”, explica a cirurgiã-dentista Danielle Lima Correa de Carvalho, professora da graduação em Odontologia do Einstein Hospital Israelita.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Isso pode resultar em desgaste emocional para os cuidadores e, em alguns casos, na negligência da escovação.

Desafios Sensoriais e Abordagens Individualizadas

As disfunções sensoriais estão no cerne desse desafio. Para algumas crianças, o simples contato das cerdas da escova ou a espuma do creme dental pode ser percebido como invasivo e até doloroso. “Esses estímulos podem desencadear crises e comportamentos de esquiva”, afirma o cirurgião-dentista Márcio Ajudarte Lopes, professor titular de estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Leia também

Por isso, é necessário adotar abordagens individualizadas e, muitas vezes, um processo de dessensibilização gradual.

Na prática, isso significa introduzir o contato de forma progressiva, em etapas pequenas e previsíveis, respeitando o tempo da criança em vez de impor a escovação completa de uma só vez. O objetivo é reduzir gradualmente a sensibilidade e a resistência, até que o cuidado com a boca se torne mais tolerável e, idealmente, parte da rotina.

Impacto da Saúde Bucal no Desenvolvimento Infantil

Esse processo vai além da saúde oral e pode afetar diretamente o desenvolvimento infantil. “A saúde bucal influencia a nutrição, o sono, a comunicação e o bem-estar emocional. Dor ou desconforto não tratados podem aumentar a irritabilidade, prejudicar a alimentação e comprometer habilidades de fala e linguagem”, destaca o neurologista infantil Paulo Emidio Lobão Cunha, membro do departamento científico de Neurologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Segundo ele, tratar problemas bucais nessa população também está associado à redução de comportamentos disruptivos e à melhoria da qualidade de vida.

Insistir em um atendimento odontológico abrupto pode ter um efeito contrário. O ideal é iniciar lentamente, sempre respeitando os limites da criança. “O atendimento deve priorizar a ambientação e a dessensibilização do paciente, em um ambiente com estímulos sensoriais controlados e apoio de recursos visuais que antecipem o que será feito”, orienta a cirurgiã-dentista Tamiris Christensen Bueno, doutora em estomatopatologia e pesquisadora na Unicamp.

Seletividade Alimentar e Problemas Bucais

Outro fator que contribui para o aumento do risco de problemas bucais é a seletividade alimentar, comum em crianças autistas. Dietas restritas, frequentemente ricas em preparações pastosas e açucaradas, que aderem mais facilmente aos dentes, favorecem o desenvolvimento de cáries. “A maior ocorrência de cáries e doenças gengivais nesse público está ligada a um conjunto de fatores: a dieta seletiva, a dificuldade na higiene bucal devido à resistência sensorial e o uso de medicamentos que reduzem a salivação”, ressalta Márcio Lopes, da Unicamp.

A identificação precoce de problemas bucais pode ser desafiadora, já que muitas dessas crianças têm limitações na comunicação verbal. Os sinais costumam ser indiretos, como irritabilidade, recusa alimentar ou o hábito de levar a mão à boca. “Os pais devem observar manchas nos dentes, sangramento gengival e mau hálito persistente”, orienta Danielle Correa, do Einstein.

Importância do Acompanhamento Odontológico Precoce

Um ponto consensual entre os especialistas é que quanto mais cedo se iniciar o acompanhamento odontológico, melhor. O ideal é que a primeira consulta ocorra ainda no primeiro ano de vida, com foco na adaptação ao ambiente e na criação de vínculo, mesmo na ausência de problemas.

Esse processo, conhecido como condicionamento, permite que a criança se familiarize gradualmente com o consultório, os instrumentos e os profissionais.

Iniciativas de Atendimento Especializado

A boa notícia é que iniciativas voltadas ao atendimento especializado têm ampliado o acesso e melhorado a experiência não apenas de crianças com TEA, mas também de qualquer neurodivergência. Um exemplo é o programa desenvolvido no Hospital Infantil Darcy Vargas, unidade pública estadual em São Paulo gerida pelo Einstein, que adota uma abordagem multidisciplinar e humanizada.

O atendimento especializado inclui desde o acompanhamento ambulatorial até procedimentos em centro cirúrgico, sempre com planejamento individualizado e foco no cuidado integral. Segundo Bezinelli, o diferencial está na integração entre áreas da saúde, no ambiente adaptado e no preparo das equipes para lidar com pacientes com necessidades especiais.

Embora o acesso a serviços como esse ainda seja desigual no país, a medicina e a ciência avançam na compreensão de como garantir mais saúde e qualidade de vida a crianças e pessoas de todas as idades e condições.

Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ative nossas Notificações

Ative nossas Notificações

Fique por dentro das últimas notícias em tempo real!