Midterms nos EUA: por que só controlar uma casa pode soar como derrota para os democratas

Os democratas chegam às eleições de meio de mandato de novembro nos Estados Unidos embalados por pesquisas que apontam chances em redutos republicanos tradicionais, algo que parecia improvável poucos meses atrás. A expectativa é tão alta que um resultado aquém do controle das duas casas do Congresso pode soar como derrota para o partido e como vitória para os republicanos.
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“Acredito que os democratas estão em condições competitivas em um número suficiente de estados para ter um dia muito positivo”, disse David Axelrod, comentarista político sênior da CNN, na segunda-feira (19), no programa “The Arena”, apresentado por Kasie Hunt.
Ele ponderou: “Mas não me surpreenderia se eles não conseguissem assumir o controle do Senado.” Ao mesmo tempo, afirmou que também não se espantaria com uma bancada democrata de 53 cadeiras. “Depende, na verdade, da intensidade dessa onda.”
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Democratas precisam de quatro cadeiras em cada casa
As duas casas estão divididas por margem estreita. Para virar a maioria, os democratas precisam de um saldo de quatro cadeiras em cada casa. Na Câmara dos Representantes, a maioria republicana é a mais apertada da história: são 218 republicanos em uma Casa de 435 membros, contra 214 democratas e duas vagas abertas, uma deixada por cada partido.
O único independente, o deputado Kevin Kiley, da Califórnia, vota com os republicanos para fins administrativos. Não conquistar algumas cadeiras seria uma grande decepção para os democratas.
No Senado, há 53 republicanos, 45 democratas e dois independentes alinhados aos democratas. O partido precisa chegar a 51 das 100 cadeiras, já que o vice-presidente JD Vance, como presidente do Senado, dá o voto de minerva em caso de empate.
Pesquisas animam e mapa do Senado desafia a oposição
Uma pesquisa recente da ABC News Washington Post mostrou os democratas com vantagem de quase 10 pontos quando os eleitores foram perguntados sobre qual partido pretendem apoiar em novembro. Na corrida pelo Senado, candidatos do partido aparecem competitivos em estados de maioria republicana como Alasca, Iowa, Kansas e Texas, além de disputas apertadas em Michigan e Geórgia, onde tentam manter cadeiras que já ocupam.
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O mapa, porém, favorece os republicanos. Os senadores têm mandatos de seis anos, e só cerca de um terço vai a votação em cada eleição. Das 35 cadeiras em jogo em 2026, apenas 10 estão na lista da CNN de disputas decisivas, e os democratas precisam vencer sete dessas 10 para alcançar 51.
Três dessas disputas, em Geórgia, Michigan e New Hampshire, envolvem cadeiras hoje democratas. As outras sete, em Alasca, Iowa, Kansas, Maine, Carolina do Norte, Ohio e Texas, estão com republicanos.
Candidatos que mudam o jogo nos estados. O baixo índice de aprovação do presidente Donald Trump tem prejudicado candidatos republicanos, e cada disputa tem particularidades. Na Carolina do Norte, o democrata Roy Cooper é um ex-governador popular. Na Geórgia, concorre o atual senador Jon Ossoff.
No Texas, o republicano é o procurador-geral do estado, Ken Paxton, figura relativamente impopular e envolvida em escândalos. Já no Kansas, que não tem senador democrata há quase 100 anos, um pastor moderado renova as esperanças do partido.
Na Câmara, mais republicanos correm risco
Anos de manipulação de distritos eleitorais em muitos estados reduziram o número de cadeiras realmente disputadas. Segundo o Cook Political Report, organização apartidária, só 21 estão “indefinidas”, sendo 16 nas mãos de republicanos e cinco nas de democratas.
Ainda de acordo com o Cook, dez cadeiras republicanas pendem para os democratas, enquanto oito democratas pendem para os republicanos. Outra é ocupada por um parlamentar que deixou o Partido Republicano e virou independente. Na prática, os democratas podem precisar de apenas uma ou poucas vitórias apertadas para a maioria; se os republicanos levarem boa parte delas, poderão dizer que contiveram a onda.
A leitura das pesquisas depois da votação vai depender de os institutos terem medido corretamente o entusiasmo democrata ou de o terem superestimado.
O que a história das eleições de meio de mandato indica
O partido do presidente quase sempre perde cadeiras na Câmara. Nos últimos 100 anos, isso só não ocorreu duas vezes: em 2002, com George W. Bush, antes da invasão do Iraque após o 11 de setembro, e em 1998, quando o “boom” da internet aquecia a economia e houve reação da opinião pública contra o “impeachment” de Bill Clinton.
As perdas podem ser enormes. Em 1994, na “revolução republicana”, os democratas perderam 54 cadeiras no primeiro meio de mandato de Clinton. Em 2010, na “revolução do Tea Party”, foram 63, resultado que Barack Obama chamou de “surra”. Em 2018, no primeiro governo Trump, os republicanos perderam 41 cadeiras e o controle da Câmara.
Câmara e Senado também podem seguir caminhos opostos. Em 2018, o partido de Trump teve saldo positivo de duas cadeiras no Senado, mesmo com aprovação baixa. Em 2022, os democratas ganharam uma cadeira no Senado apesar do cenário nacional desfavorável a Biden.
Nos últimos 50 anos, as duas casas só mudaram de comando juntas em 1994 e em 2006, na “onda democrata” motivada pela oposição à guerra no Iraque.
Derrotas que já foram vendidas como vitória
Em 2022, depois que a Suprema Corte anulou Roe v. Wade, os democratas e o presidente Joe Biden praticamente comemoraram a perda de apenas nove cadeiras, ainda que isso tenha custado o controle da Câmara. “Embora a imprensa e os analistas previssem uma grande ‘onda vermelha’, ela não se concretizou”, disse Biden no dia seguinte, ao classificar o resultado como “um bom dia para a democracia”.
Em 2018, após os republicanos perderem 41 cadeiras e a Câmara, Trump destacou a manutenção da maioria no Senado e disse que o partido teve “desempenho muito superior aos precedentes históricos”. Seja qual for o resultado deste ano, a tendência é que ele alegue fraude eleitoral, sem qualquer evidência, e tente reivindicar algum tipo de vitória.
O que muda para Trump se perder o Congresso
Trump tem governado com audácia, fazendo o máximo possível como quem antecipa um Congresso mais hostil na segunda metade do mandato. Com a Câmara ou o Senado, os democratas poderiam ampliar a fiscalização do governo por meio de investigações e audiências.
Eles também ganhariam mais peso sobre o orçamento. Trump tem evitado gastar verbas aprovadas pelo Congresso, e uma maioria democrata nas duas casas poderia impor novas restrições por meio de projetos orçamentários; com apenas uma casa, esse poder seria menor.
Os limites, porém, continuam. Nenhum partido deve alcançar a supermaioria capaz de superar a obstrução legislativa, o que obriga os projetos orçamentários a ter apoio bipartidário e aval da Casa Branca. Trump já aceitou a paralisação do financiamento do governo mesmo com os republicanos no comando do Congresso.
Prevendo uma possível onda desfavorável, os republicanos usaram neste ano o mecanismo de reconciliação orçamentária, contornando a obstrução, para garantir o financiamento do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) por vários anos, ou seja, pelo restante do mandato de Trump.
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Redação Internacional
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