Conceição Evaristo: IA ameaça “escrever vivências” na literatura

Conceição Evaristo alerta: IA desafia a essência humana na produção textual e ameaça conceito de “escrever vivências”.

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WhatsApp Image 2026-08-28 at 12.27.37 corte | Foto: Reprodução

A literatura corre o risco de perder um contato humano essencial — aquele do olho a olho —, segundo Conceição Evaristo, escritora e professora mineira autora de obras como “Ponciá Vicêncio” e “Olhos d’Água”. A intelectual alerta que as tecnologias avançadas podem gerar mentes mais preguiçosas na juventude.

“Não sei o que a máquina pode fazer conosco ou o que nós podemos fazer com a máquina”, explica ela sobre os riscos da inteligência artificial no processo criativo. Para a escritora, essa facilidade tecnológica altera até o exercício da memória humana.

A resistência artística à Inteligência Artificial

Estar ciente dos desafios impostos pela tecnologia digital é fundamental para Evaristo entender como sua arte se mantém única e insubstituível por máquinas. A escritora afirma categoricamente: “a inteligência artificial não escreve o texto que eu escrevo”.

Em conversa com a Exame, em São Paulo, ela disse que as IAs jamais conseguirão replicar as horas dedicadas a procurar uma palavra ou uma rima.

Segundo Conceição, a força motriz das suas obras reside justamente no afeto presente nas linhas narrativas e nos versos escritos com profundidade humana. É essa essência emocional, que mistura experiências comuns à população negra, que levou seus livros a mais de 500 mil leitores brasileiros.

O conceito literário da “escrevivência”

A trajetória artística começou formalmente quando Evaristo estreou na literatura em 1990, após se formar em Letras pela UFRJ e atuar como professora do ensino público carioca. Seu primeiro romance foi “Ponciá Vicêncio”, que aborda o cotidiano das pessoas negras no Brasil sob a ótica do realismo poético.

“Escrevivência” é um termo criado por ela, a partir da junção de escrever, viver e se ver, para descrever sua forma de escrita. Na prática, o conceito põe no centro as narrativas afro-brasileiras e as questões históricas de desigualdade racial.

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Novas vozes na literatura negra brasileira

Apesar de seu foco em desmistificar os riscos tecnológicos à cultura humana, Evaristo também celebra o crescimento das novas gerações artísticas negras no país. Desde suas primeiras publicações há mais de 30 anos (1990), a autora viu surgir diversos novos autores e autoras contando histórias poderosíssimas.

Entre esses nomes estão Itamar Vieira Junior, vencedor do Prêmio Jabuti de 2020 com “Torto Arado”, e Jefferson Tenório, vencedor do Jabuti de 2021 com “O Avesso da Pele”. Outras vozes importantes são Eliana Alves Cruz, autora da coletânea “A Vestida” e do romance “Meridiana”, e Ana Maria Gonçalves, primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras.

Todas essas obras têm como tema central a desigualdade racial.

As produções literárias atuais trazem duas narrativas distintas para discussão no Brasil contemporâneo: uma marcada pelas violências sofridas — o mundo periférico —, mas também outra que celebra as conquistas do direito ao amor ou simplesmente à vida plena.

“Há ainda essa escrita sobre injustiça… Mas existe já aquela literatura nova”, explica Evaristo, apontando na diversidade desse discurso brasileiro porque ele reflete tanto negros de classe média quanto pessoas negras em situação extrema de pobreza.

O sucesso aparece nas vendas: “Torto Arado” passou de um milhão de exemplares, e “O Avesso da Pele” vendeu mais de 200 mil cópias.

Filantropia como ferramenta para justiça social

Em seu papel cívico, Conceição participou do evento no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) sobre filantropos brasileiros. Ela refletiu profundamente sobre essa prática que mudou desde sua juventude na região mineira.

“Lembro-me de quando recebíamos alimentos sem nenhuma discussão crítica com os movimentos sociais”, conta Evaristo. Hoje ela entende a função moderna e estratégica dessa área: “A carência da sociedade brasileira é construída pelo excesso de outra parcela; por isso, a filantropia precisa atacar justamente esse repartir injusto dos bens.”

Protegendo um legado cultural

Para proteger o próprio acervo de disputas, como ocorreu com o de Lélia Gonzalez, Conceição fundou a Casa Escrevivência.

Ela busca manter seus escritos preservados e acessíveis.

“É parte da nossa capacidade de organização enquanto mulheres negras também”, afirma ela, que questiona a conotação masculina da palavra ‘patrimônio’ e sugere pensar também em ‘matrêmio’.

Perto de completar 80 anos, Evaristo planeja finalizar vários projetos literários. Entre eles estão o romance “As Flores de Mulumbu” e novos livros de contos.

“Quero ainda escrever algo em relação à criança, mais provavelmente ao adolescente”, diz a autora. Outra obra vai reunir textos dela e da mãe, Joana Evaristo, em um livro chamado “De mãe, de mesmo”, escrito numa linguagem bem mineira, e uma coletânea de poemas sobre o gozo deve abordar a sensualidade sem idade.

Atualização em 29/10/2026: o texto foi corrigido.

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