Caso Lito Sousa: neurociência explica comoção coletiva e o que acontece no cérebro

Neurociência explica como neurônios-espelho e instinto ancestral geram empatia intensa por figuras públicas como Lito Sousa.

Lito Sousa e a esposa em vídeo compartilhado nas redes sociais

O influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, de 59 anos, tornou – se a primeira pessoa a receber o medicamento experimental ALN-6457. Diagnosticado com a doença de Creutzfeldt – Jakob (DCJ), uma condição neurodegenerativa rara causada por príons, ele iniciou o tratamento em uso compassivo autorizado pela Anvisa no Hospital Israelita Albert Einstein.

Sua esposa, Mila Seidl, de 41 anos, tem atualizado o público sobre o caso. Ela destacou o desafio entre a rapidez com que a doença avança e o tempo necessário para a medicação atingir o efeito máximo. O caso levantou uma questão que vai além de Lito: o que faz o cérebro humano reagir com tanta força à dor de alguém que só conhecemos pelas telas?

O papel dos neurônios – espelho na comoção coletiva

A resposta está na própria estrutura do sistema nervoso. Nos anos 1990, a equipe do neurocientista Giacomo Rizzolatti descobriu os neurônios – espelho. Essas células disparam tanto quando fazemos algo quanto quando vemos outra pessoa vivendo aquela experiência.

No caso da dor e da vulnerabilidade, o público que acompanha relatos de sofrimento ativa essas mesmas áreas cerebrais ligadas à dor. Os neurônios – espelho simulam a vivência como se fosse própria. Paralelamente, pesquisas lideradas por Paul Zak mostram que histórias emocionantes e a percepção de fragilidade liberam oxitocina, o hormônio do vínculo social.

Esse hormônio reduz o medo e aumenta a capacidade de confiar e sincronizar emoções com os outros.

Instinto ancestral de cuidado coletivo

A reação em cadeia diante do caso de Lito também tem raízes na evolução. A Hipótese do Cuidado Cooperativo, formulada pela antropóloga Sarah Blaffer Hrdy, sugere que a espécie humana evoluiu com o cuidado coletivo de doentes e vulneráveis como estratégia de sobrevivência.

Sinais claros de enfermidade grave ativam um sistema ancestral que desarma respostas agressivas e prioriza a proteção mútua.

Leia também

Teorias como a Seleção de Parentesco e o Altruísmo Recíproco, de William Hamilton e Robert Trivers, indicam que o cérebro interpreta o sofrimento de membros conhecidos do grupo como um sinal para manter a coesão social. Proteger os vulneráveis foi o que garantiu a preservação das tribos ao longo da história.

Preocupação empática e o vínculo com o público

Do ponto de vista da psicologia cognitiva, o engajamento público se apoia na Teoria da Mente. Essa habilidade permite compreender que outras pessoas têm estados mentais próprios. A pessoa faz uma simulação interna: “se eu estivesse nessa situação, como me sentiria?”.

Segundo a Hipótese da Empatia– Altruísmo, do psicólogo Daniel Batson, a identificação com o sofrimento alheio pode seguir dois caminhos. Um deles é o estresse pessoal, que leva ao afastamento. O outro é a preocupação empática. Quando existe forte valorização do bem – estar do outro, como no vínculo construído ao longo de anos entre um criador de conteúdo e seu público, a preocupação empática assume o controle.

Gera então uma motivação voltada para torcer pela recuperação.