Carney imita gestos de Trump em discurso e abandona tom conciliador com os EUA

O primeiro – ministro do Canadá, Mark Carney, parece ter trocado a paciência de banqueiro central por um tom mais afiado contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em um discurso na sexta – feira para membros do Partido Liberal em Ottawa, Carney imitou os gestos característicos de Trump com as mãos, em um movimento que viralizou rapidamente.
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A cena ocorreu quando Carney falava sobre um novo acordo de energia limpa, que ele definiu como o “equivalente funcional de 18 represas Hoover”. Ao repetir a frase, estendeu as mãos em um gesto que remete ao “estilo acordeão” de Trump, provocando gargalhadas na plateia.
A atitude marca uma virada na postura do líder canadense, que durante meses optou por uma abordagem conciliatória com o presidente americano.
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Da diplomacia à provocação
Carney assumiu o cargo em 2025 com a missão de suavizar a relação com Washington, que havia se deteriorado sob seu antecessor, Justin Trudeau. Durante um encontro em outubro, ele chamou Trump de “presidente transformador” e elogiou seus esforços como mediador de paz global.
Em busca de alívio tarifário, Carney cedeu em várias frentes: intensificou o combate ao tráfico de fentanil para os EUA — mesmo com o Canadá representando apenas 0,2% das apreensões da droga nas fronteiras americanas — e abandonou um imposto sobre serviços digitais que atingiria empresas de tecnologia americanas.
Ele também se desculpou com Trump por um anúncio antitarifas que irritou o presidente a ponto de interromper as negociações comerciais. Em outro gesto de boa vontade, Carney trocou de assento com Trump no G 7 na França, depois que o americano reclamou de ter a “cadeira mais baixa”.
Trump, por sua vez, intensificou os ataques pessoais. Chamou Carney de “governador”, “desagradável” e “ingrato”, e publicou um meme de hóquei gerado por inteligência artificial mostrando o canadense ferido no gelo, com a legenda “levantar”. Carney, até então, mantinha – se calado diante das ofensas.
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Mudança de estratégia
Nos últimos meses, porém, o primeiro – ministro mostrou que está disposto a revidar. Em agosto, quando o teleprompter falhou durante uma coletiva de imprensa, Carney ironizou: “Ao contrário de certo líder mundial, não vejo isso como uma conspiração”.
A referência era a Trump, que no ano anterior atribuiu uma falha semelhante na Assembleia Geral da ONU a uma “sabotagem”.
A mudança de tom ocorre em meio ao colapso das negociações comerciais em agosto e à introdução de tarifas retaliatórias do Canadá contra os EUA. Para Fen Hampson, professor da Universidade Carleton e co – presidente do Grupo de Especialistas em Relações Canadá – EUA, Carney está “trocando a cautela de banqueiro central por alfinetadas cada vez mais sutis, mas certeiras”. “Eu não diria que as luvas foram totalmente tiradas, mas ele está afrouxando – as”, afirmou.
Eric Van Rythoven, professor de ciência política na mesma universidade, avalia que a abordagem conciliatória não funcionou. “Ele fez todo aquele trabalho diplomático e não chegou a lugar nenhum. Então isso exige uma nova estratégia.” O especialista ressalta que Trump é “notoriamente suscetível e extremamente sensível a qualquer tipo de desrespeito”, o que torna a tática de Carney potencialmente eficaz.
Repercussão doméstica e riscos
Além de irritar Trump, a nova postura de Carney rende dividendos políticos no Canadá. Uma pesquisa recente da empresa Leger mostrou que 41% dos canadenses consideram os EUA um país inimigo, um aumento de 15 pontos percentuais desde junho de 2025. Para a maioria (64%), a opinião mudaria se Trump deixasse o cargo.
Imran Bayoumi, diretor – adjunto do Scowcroft Center for Strategy and Security do Atlantic Council, afirma que a população canadense apoia a postura de Carney de defender os interesses do país, mesmo que isso signifique romper com o vizinho. “A população canadense apoia sua postura de defender os interesses canadenses, mesmo que isso signifique romper com os Estados Unidos”, disse.
Por outro lado, a escalada pode aprofundar o gelo nas relações bilaterais. Van Rythoven alerta que “o fato de um primeiro – ministro em exercício zombar abertamente do presidente dos EUA marca um ponto baixo dramático no relacionamento”. Asa McKercher, da St.
Francis Xavier University, pondera que Trump, como “figura de reality show”, está acostumado a conflitos pessoais e pode deixar o passado para trás. “Um acordo pode ser fechado e as coisas podem ser resolvidas”, conclui.
Autor(a):
Ana Carolina Braga
Ana Carolina é engenheira de software e jornalista especializada em tecnologia. Ela traduz conceitos complexos em conteúdos acessíveis e instigantes. Ana também cobre tendências em startups, inteligência artificial e segurança cibernética, unindo seu amor pela escrita e pelo mundo digital.



