Arábia Saudita avalia ação militar após ataques dos Houthis: grupo exige mudanças no Iêmen
Os Houthis intensificaram os ataques à Arábia Saudita para pressionar o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman a atender a exigências do grupo no Iêmen e tentar convencer Donald Trump a flexibilizar o bloqueio dos Estados Unidos ao Irã, segundo fontes sauditas, iranianas e regionais.
A ofensiva atingiu infraestruturas sauditas e eventos ligados aos planos de investimento do país. Na última semana, houve ataques ao Aeroporto Internacional Rei Khalid, em Riade, e à Saudi Aramco, que provocou um incêndio em vários andares.
Ataques miram economia e eventos de investimento
A principal conferência de petróleo de Riade foi interrompida após os ataques. Altos executivos do setor cancelaram a participação, e os organizadores da FII (Future Investment Initiative), fórum global anual de investimentos, ofereceram a opção de acompanhar o evento remotamente.
Michael Knights, da consultoria estratégica Horizon Engage, disse que o Irã tenta elevar o custo da estratégia de Washington ao atacar parceiros regionais. O país está sob pressão econômica e militar após a guerra iniciada pelos EUA e por Israel em 28 de fevereiro.
“Os iranianos estão em uma situação de estrangulamento”, afirmou Knights. Sem conseguir levar Washington a mudar diretamente de rumo, Teerã e os Houthis “estão atacando a Arábia Saudita, estão atacando o ponto fraco”, disse ele, referindo-se à vulnerabilidade econômica do reino e à busca por estabilidade.
Houthis apresentam exigências próprias sobre o Iêmen
Uma redução do bloqueio dos EUA ao Irã poderia ampliar a capacidade de Teerã de manter apoio político, financeiro e militar aos Houthis, além do fluxo de armas e dinheiro que, segundo os EUA, sustenta o movimento. O grupo também reivindica o fim das operações militares sauditas e das restrições aos portos e aeroportos iemenitas.
Duas fontes sauditas e três fontes regionais familiarizadas com a posição do reino afirmaram que as exigências incluem voos regulares para o Irã, o restabelecimento do pagamento de salários, indenização de guerra e o fim do apoio de Riade ao governo reconhecido do Iêmen.
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As condições ampliariam o domínio Houthi sobre grande parte do país.
O porta-voz dos Houthis, Mohammed Abdulsalam, negou que o grupo aja a mando do Irã. Ele disse que as reivindicações são humanitárias e incluem a flexibilização das restrições econômicas e o pagamento dos salários dos funcionários públicos com recursos próprios do Iêmen. “Nossas demandas humanitárias não têm nada a ver com o Irã nem com ninguém mais”, afirmou.
Escalada coloca Mohammed bin Salman diante de dilema
Uma autoridade sênior iraniana afirmou que os ataques fazem parte de uma estratégia mais ampla do Irã e de seus aliados para alterar o equilíbrio de poder regional, com ofensivas contra infraestruturas energéticas e rotas marítimas. Segundo ele, Riade não pode contar com a proteção dos EUA e deveria buscar negociações; os ataques continuariam enquanto as restrições sauditas não fossem suspensas.
Fontes familiarizadas com a posição saudita disseram que a escalada pode desencadear uma guerra mais ampla e comprometer a agenda de transformação de Mohammed bin Salman. Conceder as exigências, por outro lado, poderia fortalecer um movimento que desafia o poder saudita há anos.
A Arábia Saudita já havia enfrentado ataques dos Houthis em 2019, quando ofensivas contra instalações da Aramco interromperam temporariamente cerca de 5% do abastecimento global de petróleo. O reino interveio no Iêmen em 2015, depois que os Houthis tomaram a capital, Sanaa; a guerra se prolongou até o cessar-fogo de 2022.
Riade avalia resposta militar, enquanto Washington hesita
Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center, com sede na Arábia Saudita, disse que os líderes sauditas agora consideram a pressão militar a única opção viável. “Eles chegaram a um ponto em que NÃO há mais negociações”, afirmou. “Não têm outra escolha a não ser a ação militar.”
Fawaz Gerges, analista do Oriente Médio da London School of Economics, disse que os Houthis negociam cada vez mais a partir de uma posição de força e buscam o reconhecimento de sua autoridade em Sanaa. “O que os Houthis estão exigindo agora é uma paz de vencedores”, afirmou.
Os Estados Unidos demonstraram pouca disposição para iniciar outra campanha prolongada contra os Houthis desde que os bombardearam no ano passado, após ataques à navegação no Mar Vermelho, e depois concordaram com um cessar-fogo, segundo fontes familiarizadas com a posição saudita.
A assessoria de imprensa do governo saudita e o Ministério das Relações Exteriores do Irã não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
A relutância de Washington deixa Riade diante de um conflito em que a pressão militar, por si só, pode não produzir um resultado decisivo.
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