Anestesia geral: cirurgião japonês já usava técnica 40 anos antes do marco de 1846
Cirurgião japonês Seishu Hanoaka usava anestésico oral à base de ervas quatro décadas antes do uso do éter em Boston.
O uso da anestesia geral mudou radicalmente a história da medicina, transformando cirurgias que antes eram verdadeiros suplícios em procedimentos seguros e controlados. Mas o caminho até a anestesia moderna começou bem antes do que muitos imaginam.
Embora os registros mais conhecidos apontem para a década de 1840, quando óxido nitroso e éter passaram a ser administrados em pacientes, há evidências de que um cirurgião japonês chamado Seishu Hanoaka já usava um anestésico oral à base de ervas cerca de 40 anos antes.
De acordo com a WFSA (Federação Mundial das Sociedades de Anestesiologistas), a técnica era segura, promovia um efeito anestésico profundo e permitia a recuperação do paciente após algum tempo. A prática acabou abandonada com a popularização das técnicas ocidentais.
Manuscritos medievais também indicam que bebidas à base de ervas eram usadas em países da Europa.
O marco de 1846 em Boston
O grande divisor de águas veio em 16 de outubro de 1846. No Massachusetts General Hospital, em Boston, o anestesista William Morton e o cirurgião John Warren realizaram a remoção de um nódulo sob o maxilar de Gilbert Abbott. Na ocasião, usaram uma solução à base de éter para anestesiar o paciente.
O cirurgião Jacob Bigelow descreveu o procedimento em uma carta a um amigo em Londres, na Inglaterra.
Nos meses seguintes, o éter passou a ser usado em outras cirurgias na região. Em Dumfries, também na Inglaterra, um paciente teve a perna amputada após ser atropelado por uma carroça — e foi anestesiado com a substância. Em Londres, o dentista James Robinson extraiu o dente de uma mulher de sobrenome Lonsdale usando éter.
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Dois dias depois, no University College Hospital, o cirurgião Robert Liston amputou a perna do motorista Frederick Churchill enquanto o estudante de medicina William Squires administrava a anestesia.
O horror das cirurgias sem anestesia
Antes do advento da anestesia, qualquer procedimento cirúrgico era motivo de pavor. O sofrimento era intenso, e muitos pacientes morriam na mesa de operações devido à dor. Os cirurgiões só podiam atuar em áreas superficiais, e os procedimentos se limitavam a amputações, remoção de cálculos na bexiga e outras intervenções consideradas menos invasivas.
O éter abriu caminho para novas descobertas. Em 1847, James Simpson, professor de Obstetrícia de Edimburgo, capital da Escócia, passou a usar clorofórmio. A substância era eficaz, mas trazia efeitos secundários graves e podia levar o paciente à morte.
Novas substâncias e a anestesia moderna
Nos 40 anos seguintes, outras opções começaram a ser testadas. Em 1877, a cocaína passou a ser usada como anestesia local, permitindo cirurgias que exigiam bloqueios nervosos. Outro avanço importante foi o controle das vias respiratórias por meio de tubos inseridos na traqueia sob efeito de anestesia, técnica introduzida na década de 1910 e aperfeiçoada nos 20 anos seguintes.
Foi também nesse período que surgiram os agentes intravenosos como anestésicos.
Na década de 1950, o halotano foi introduzido nos hospitais como agente anestésico. A substância era altamente eficaz e representou uma nova revolução na medicina. Hoje, os anestesistas são médicos que atuam em áreas como analgesia, anestesia obstétrica, serviços de urgência, reanimação, cuidados em acidentes graves, tratamento de dor aguda e crônica, além de serem indispensáveis nas transferências de doentes entre hospitais.