Adão e Eva do algoritmo: rostos de funcionários públicos dos anos 90 viraram base do reconhecimento

Artista Trevor Paglen revela como fotos de servidores dos anos 90 alimentam sistemas de vigilância atuais.

01/10/2026 15:12

2 min

Funcionários públicos dos EUA posaram para fotos da DARPA sem prever que seus dados biométricos moldariam a tecnologia de reconhecimento facial moderna.
Funcionários públicos dos EUA posaram para fotos da DARPA sem pr...
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Na década de 1990, a DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa), ligada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, convocou milhares de funcionários públicos do governo para um experimento que, na época, parecia inofensivo. Eles foram fotografados contra um fundo azul neutro, sem imaginar que seus rostos se tornariam a base do reconhecimento facial moderno.

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Essas imagens formaram o banco de dados inicial usado para treinar algoritmos capazes de mapear feições físicas, como a largura do nariz e o espaçamento entre os olhos. O que começou como um teste militar acabou pavimentando o caminho para uma tecnologia que hoje desbloqueia celulares, monitora multidões e verifica identidades em aeroportos.

O resgate artístico de um banco de dados

Anos depois, o artista Trevor Paglen resgatou esse conjunto de dados, que estava em domínio público, para criar a série “It Began as a Military Experiment”. Paglen submeteu os retratos a softwares analíticos e exibiu marcadores gráficos sobre os cantos dos olhos, narinas e lábios de cada pessoa fotografada.

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O processo revela, de forma visual, a transformação de rostos humanos em informações quantificáveis. Cada traço vira um ponto de dados, um número. É o mesmo princípio que hoje permite que sistemas de vigilância algorítmica identifiquem pessoas em tempo real, sem que elas saibam que estão sendo analisadas.

A obra de Paglen não é apenas uma exposição artística. Ela funciona como um alerta visual sobre como a tecnologia de reconhecimento facial se alimenta de registros do passado — muitas vezes obtidos sem qualquer transparência sobre o uso futuro.

O dilema do consentimento e o uso retroativo de imagens

A iniciativa levanta um impasse ético profundo: a ausência de consentimento informado. Na década de 1990, os funcionários públicos que posaram para as fotos da DARPA não tinham como prever que suas imagens abasteceriam sistemas de vigilância algorítmica ou conjuntos de dados de reconhecimento facial décadas depois.

O caso expõe como registros fotográficos do passado foram incorporados retroativamente a modelos de extração de dados e monitoramento digital. A tecnologia avançou, mas o direito das pessoas de decidir sobre o uso de sua própria imagem ficou para trás.

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Especialistas apontam que a falta de regras claras sobre o consentimento para usos futuros é um dos maiores desafios da era digital. O experimento da DARPA, hoje visto como um marco inicial, serve de alerta para os limites éticos da coleta de dados biométricos.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

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