Vance pede “outra chance” aos eleitores em fala que contrasta com discurso de Trump
Vance adota tom cauteloso que expõe fragilidade na comunicação republicana e contrasta com otimismo de Trump.
O vice – presidente dos Estados Unidos, JD Vance, pediu publicamente uma “outra chance” aos eleitores americanos durante participação no podcast “All In” nesta semana. A declaração, no entanto, vai na contramão do discurso otimista do presidente Donald Trump, que insiste na narrativa de uma “era de ouro” para o país. “Deem – nos outra chance — ou melhor, deem – nos mais alguns anos para continuar trabalhando nas coisas incríveis que temos feito nos últimos dois anos”, disse Vance.
A fala gerou desconforto por sugerir, ainda que indiretamente, que o governo republicano não entregou tudo o que prometeu até agora. O próprio Vance pareceu perceber o peso das palavras e tentou ajustar o tom durante a entrevista.
Mensagem diferente da de Trump
Enquanto Trump repete que os Estados Unidos vivem um momento excepcional, Vance tem adotado uma abordagem mais cautelosa. Na semana passada, durante a convenção republicana sobre as eleições de meio de mandato, ele já havia feito um discurso de tom conciliador.
Em reunião a portas fechadas com republicanos da Câmara, Vance aconselhou os colegas a reconhecerem as insatisfações da população.
“Neste momento, temos um país onde as pessoas estão frustradas. É preciso ser franco com elas”, afirmou aos legisladores, segundo gravação obtida pela CNN. Ele citou preocupações como a guerra no Irã e as dificuldades financeiras enfrentadas por parte dos eleitores.
A estratégia de Vance, no entanto, expõe uma fragilidade: pedir “outra chance” é muito diferente de apenas dizer “eu compreendo a sua dor”.
Para analistas, o episódio escancara que Vance, embora seja o favorito à indicação republicana para a presidência em 2028, não é um comunicador nato. Sua capacidade de manter unida a base trumpista ainda é uma incógnita.
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Promessas da campanha de 2024 e a realidade
O maior problema, porém, é que o discurso de Vance colide frontalmente com a campanha que Trump fez em 2024. Na época, o republicano vendeu a ideia de que resolveria os problemas do país de forma rápida e completa. Uma semana antes de assumir o cargo, Trump prometeu: “Vamos reduzir pela metade os preços da energia e da eletricidade em até 12 meses — no máximo, 18 meses.” Na prática, os preços da energia subiram.
“Quando eu vencer, reduzirei os preços imediatamente, logo no primeiro dia”, disse Trump durante a campanha. A inflação, no entanto, persistiu e está mais alta hoje do que quando ele assumiu. Sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia, a promessa foi de resolver a guerra “em 24 horas”.
Passados 20 meses, o conflito segue ativo.
Trump também afirmou que aumentaria a produção de automóveis nos EUA “nas primeiras duas semanas” de governo, mas o declínio do setor continuou. Na fronteira, houve avanços no fechamento, mas outras promessas, como o combate a cartéis de drogas e a solução para tensões entre China e Taiwan, seguem sem resolução.
O republicano ainda disse que não iniciaria guerras, mas deu início a um conflito com o Irã.
Hoje, três quartos dos americanos consideram que Trump negligenciou a promessa de reduzir preços. A guerra com o Irã também contraria a imagem que ele projetou de si mesmo, e o assunto não sai do noticiário.
Antes de pedir “outra chance”, Vance enumerou realizações do governo, como a isenção de impostos sobre gorjetas e o controle das fronteiras. Nenhuma delas, porém, tratava de reduzir preços de forma ampla ou de inaugurar a tal “era de ouro” prometida.
Para muitos, a postura do vice – presidente soa como uma forma indireta de não endossar o próprio chefe.