Uruguai adota plano de segurança de 10 anos com foco em evidências, não em repressão
Plano uruguaio busca dissociar segurança pública de disputas eleitorais e basear decisões em dados concretos.
Uma manhã fria e úmida de inverno em Montevidéu foi interrompida por tiros. Em um bairro popular da zona nordeste da capital uruguaia, duas motos pararam em frente a uma casa. Quatro pessoas, todas de capacete, pularam o muro e gritaram “Polícia!” para que a porta fosse aberta.
Em seguida, abriram fogo e mataram cinco pessoas. O crime ocorreu numa sexta – feira, enquanto crianças se preparavam para a escola e adultos para o trabalho.
As cinco vítimas fazem parte de uma estatística que preocupa o Uruguai. No primeiro semestre de 2026, o país registrou quase 200 homicídios. Segundo as primeiras investigações, o ataque foi mais um capítulo de uma guerra entre dois clãs familiares que já dura pelo menos cinco anos.
Na capital e arredores, a taxa de homicídios oscila entre 16 e 18 por 100 mil habitantes nos últimos cinco anos. Em todo o país, a média gira em torno de 10 por 100 mil habitantes.
O plano uruguaio para enfrentar a crise de segurança
Diante do aumento da violência, o governo uruguaio elaborou um projeto de dez anos chamado Plano Nacional de Segurança. A ideia, segundo o criminólogo Emiliano Rojido, mestre e doutor em Políticas Públicas e assessor do Ministério do Interior, é tentar fugir das soluções tradicionais. “Mais policiais, mais prisões e penas mais severas.
Historicamente, essa foi a fórmula do fracasso”, afirma.
O plano se baseia em três pilares. O primeiro é fazer da segurança pública uma política de Estado que ultrapasse os mandatos governamentais. “Muitas das soluções não ocorrerão a curto prazo”, explica Rojido. Na prática, a ideia é dissociar o tema da disputa eleitoral.
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O segundo pilar trata a segurança como uma questão complexa, não apenas policial. “Não é justo depositar sobre a Polícia toda a responsabilidade”, diz ele, citando a necessidade de coordenação entre os três poderes, ministérios, governos municipais, sociedade civil e empresas privadas.
O terceiro ponto é o mais inovador: basear as decisões em evidências. “As medidas vêm sendo tomadas de forma impulsiva e superficial, sobretudo pelo seu efeito retórico, basicamente por demagogia”, critica Rojido. Para ele, é preciso gastar bem os recursos públicos e produzir resultados que possam ser avaliados com rigor pela oposição e pela sociedade.
O contraste com o modelo Bukele
O ministro do Interior, Carlos Negro, deixou clara a direção do governo. Ele afirmou que o objetivo é construir um modelo de segurança “democrático, republicano e participativo”. A declaração foi uma resposta indireta ao que chamou de “modelo Bukele”, adotado em El Salvador. “O conceito geral é criar uma forma de combater o crime que não se baseie em receitas autoritárias”, disse Negro.
Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele reduziu a taxa de homicídios para 1,3 por 100 mil habitantes. A queda, porém, veio acompanhada de um estado de exceção, detenções em massa sem ordem judicial e denúncias de tortura. Para Rojido, há uma contradição no caminho autoritário. “A ideia de produzir segurança sacrificando direitos é uma contradição.
Segurança pública é o exercício de direitos: direito à vida, à propriedade, à liberdade”, afirma.
Diego Sanjurjo, representante do Glacsed (Grupo Latino – Americano e do Caribe de Segurança e Democracia), alerta para o que chama de “políticas viciantes”. “Você coloca mais mil policiais na rua, a criminalidade não cai, mas ninguém pensa em reverter a medida.
O cidadão quer mais policiais. Nunca se cogita a ideia de reverter algo que não funcionou”, diz ele.
Apoio internacional e resultados a longo prazo
O Uruguai conta com o apoio de organismos como o BID, o CAF, o UNODC, o PNUD e a OEA. Foi criado ainda o Conselho Internacional de Observação e Cooperação, que documentou todo o processo de elaboração do plano. “A esperança é que a experiência do Uruguai possa servir a outros países da região”, diz Rojido.
Os resultados, porém, não devem aparecer rapidamente. As autoridades reconhecem que ainda não conseguiram reduzir os homicídios, a maioria ligada ao crime organizado. Outros delitos, como furtos, roubos e violência de gênero, vêm caindo de forma consistente.
O plano tem horizonte de dez anos e abrange ao menos dois mandatos, que podem ser de partidos diferentes. “Os partidos têm se alternado no poder e nenhum deles, isoladamente, conseguiu encontrar as soluções”, lembra Rojido. Para ele, a alternativa ao fracasso é conhecida: a descrença na democracia e o surgimento de soluções mágicas e autoritárias.