Pedido de US$ 1,5 trilhão de Trump para Defesa, alta de 44%, perde força após vitória democrata
A derrota histórica do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato tirou das contas qualquer chance de o Congresso dos Estados Unidos aprovar o pedido inédito do presidente Donald Trump por um orçamento de Defesa de US$ 1,5 trilhão. A informação é de reportagem da agência Bloomberg.
O revés nas urnas veio em meio ao forte desgaste causado pela impopular guerra no Oriente Médio.
Os democratas garantiram sólidas maiorias nas duas Câmaras do Congresso na terça-feira (3) e já resistiam ao aumento de 44% em relação ao ano fiscal anterior. Agora, o partido sinaliza que vai barrar qualquer tentativa do governo de liberar a verba.
Do lado republicano, a situação também é difícil, porque os parlamentares que seguem no cargo durante a lame-duck session, até a posse dos novos eleitos em janeiro, têm pouca força para empurrar um pacote tão grande de gastos militares.
Derrota nas urnas enfraquece o pacote militar
Muitos governistas perderam o mandato por causa da guerra do Pentágono contra o Irã, e isso pesou sobre a votação. O deputado Adam Smith (Democrata-Washington), futuro presidente do Comitê de Serviços Armados da Câmara, reagiu em comunicado logo após o resultado. “Precisamos pressionar pelo desenvolvimento de uma abordagem mais realista e sustentável para nossa segurança nacional — uma que não exija um orçamento de Defesa superior a US$ 1 trilhão, nem seja financiada por cortes severos em programas domésticos essenciais”, afirmou.
A resistência democrata atinge os projetos mais caros de Trump, como o escudo antimísseis Golden Dome e o plano de construção dos novos navios de guerra da classe Trump. A troca de comando no Legislativo também preocupa as grandes empresas do setor.
Há temores de que as empreiteiras de defesa passem a ser alvo de um amplo escrutínio do Congresso por supostos conflitos de interesse envolvendo a administração Trump.
As ações de gigantes como a Lockheed Martin Corp. e a Northrop Grumman Corp. caíram na semana, já que a perspectiva de lucros com a alta dos gastos americanos encolheu.
Duas pautas travadas no retorno a Washington
Quando voltarem a Washington na segunda-feira (9), os parlamentares precisarão lidar com o projeto de lei anual de política de defesa e com o plano orçamentário do ano fiscal de 2027. Esse orçamento começou em 1º de outubro com um financiamento provisório, válido apenas até 11 de dezembro.
Hoje, as duas pautas estão paradas.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, defendeu o salto nos valores dizendo que o dinheiro é indispensável para iniciar esforços urgentes de modernização, num cenário em que sistemas autônomos começam a mudar a dinâmica das guerras. Mas o tamanho do aumento, somado aos cortes nos orçamentos internos, aos custos do conflito no Irã e aos projetos bilionários, incomodou até republicanos.
Revigorados pelas urnas, os democratas tendem a se mobilizar bem mais para derrubar os planos trilionários do que os governistas para defendê-los.
Hegseth fica isolado e acordo parece distante
Uma fonte ouvida pela Bloomberg, que acompanha o planejamento, afirmou que os dois lados estão muito longe de um acordo. Os democratas, receosos de parecer que chancelam a guerra com dinheiro contínuo, tendem a aceitar um valor limitado a cerca de US$ 1 trilhão, liberando recursos apenas para a modernização que o Pentágono de fato precisa.
A articulação governista também patina. Hegseth, responsável por conduzir a aprovação da lei, está isolado no Capitólio. Os pedidos pela sua demissão crescem rapidamente, e uma votação para abrir um processo de impeachment deve acontecer nos próximos dias.
Nenhum dos especialistas ouvidos acredita que o Pentágono vá conseguir o valor integral. Todd Harrison, do American Enterprise Institute (AEI), resumiu o momento como um “cara ou coroa” para a aprovação da política de defesa. Ele também disse que o ímpeto democrata de mirar Hegseth e de restringir os poderes de guerra presidenciais “poderia descarrilar o processo inteiro”.
Aprovação provisória ganha força entre a oposição
Parte da oposição quer aproveitar o novo poder de barganha e aprovar apenas mais uma medida provisória antes do fim do ano. Assim, as votações definitivas ficariam para o novo Congresso, quando os democratas terão controle total para moldar os orçamentos. “Agora que temos essas grandes maiorias, não sei se precisamos de um projeto de longo prazo. Eu me inclinaria mais por uma solução de curto prazo”, declarou o deputado Glenn Ivey, de Maryland, à Bloomberg TV.
Para os democratas, frear os custos da guerra virou prioridade. O vice-presidente JD Vance apontou justamente a guerra como o motivo da derrota nas eleições legislativas. Adam Smith foi direto ao dizer que cortar o financiamento do conflito no Oriente Médio será “uma das primeiras coisas que faremos”.
Do lado governista, as movimentações estão praticamente travadas. O Pentágono previa que US$ 350 bilhões do pacote de US$ 1,5 trilhão fossem aprovados por uma tramitação alternativa, apoiada apenas na base republicana. Com o Senado democrata contra o projeto e a perda de dezenas de cadeiras de deputados republicanos que eram tidos como favoritos, o quórum quase perfeito exigido para forçar a aprovação antes da transição ficou improvável.
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