Superpetroleiro Kiku desaparece em Ormuz e retoma sinal após estratégia noturna com escolta dos EUA

A nova estratégia de travessias noturnas com escolta dos EUA altera a dinâmica do transporte de petróleo no Oriente Médio, aumentando a segurança das operações.

22/08/2026 09:40

4 min

Com o auxílio da Marinha americana, empresas da Arábia Saudita, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos fretaram petroleiros para desligar seus transponders e transportar petróleo para fora do Golfo Pérsico, pelo Estreito de Ormuz, até o Golfo de Omã.
Com o auxílio da Marinha americana, empresas da Arábia Saudita, ...

Na tarde de 25 de julho, o superpetroleiro Kiku, que pertence a armadores gregos, atracou no terminal de exportação de petróleo de Mesaieed, no Catar. Este porto é um dos maiores do país, com 30 atracadouros e localizado a 25 milhas ao sul de Doha.

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Quatro dias depois, já carregado com petróleo bruto, o Kiku navegou pelo Estreito de Ormuz. A embarcação da classe Very Large Crude Carrier, que possui mais de 1.000 pés de comprimento, manteve uma velocidade constante de 13 nós pelo Golfo Pérsico.

Porém, em 31 de julho, pouco após as 14h, o Kiku desapareceu nas proximidades da costa de Dubai. O navio desligou seu transponder AIS — um dispositivo essencial para a identificação e rastreamento marítimo — como parte de uma nova estratégia adotada pela indústria do petróleo.

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Esse ato fez com que a embarcação parecesse ter sumido completamente. No dia seguinte, às 10h do dia 1º de agosto, o sinal do Kiku foi retomado do outro lado do Estreito de Ormuz.

Estratégias noturnas e riscos

A tática utilizada envolve travessias noturnas “no escuro”, acompanhadas por escolta militar dos EUA, com o objetivo de evitar ataques como o que atingiu o Kiku um mês antes. Empresas petrolíferas da Arábia Saudita, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos têm fretado petroleiros para desligar seus transponders e transportar petróleo pelo Estreito até o Golfo de Omã.

Lá, eles transferem a carga para outros navios pertencentes aos clientes.

Essa abordagem transfere os riscos físicos e os altos custos dos seguros dos armadores comerciais para o governo dos EUA e os próprios produtores de petróleo. O Departamento de Energia americano afirmou que essa estratégia tem se mostrado eficaz: o tráfego pelo Estreito tem registrado uma média significativa diária, quase dobrando as estimativas feitas por analistas e sistemas de rastreamento.

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As operações clandestinas mudaram a dinâmica da indústria petrolífera no Oriente Médio. A CNN observou diversas transferências entre navios no Golfo de Omã em um curto período, com destinos como China, Taiwan e Filipinas. Embora essa alternativa ofereça alívio temporário ao mercado petrolífero, soluções permanentes ainda parecem distantes.

Desafios do mercado energético

Aumentos nos trânsitos obscuros ocorrem em um momento crítico para o mercado energético global. A guerra na região já afetou um quinto do fornecimento mundial por seis meses e provocou uma queda drástica nas reservas comerciais. As reservas estratégicas dos EUA estão em níveis baixos desde os anos 1980.

A dependência da China em seus estoques também não pode durar indefinidamente. Em meio a esse cenário caótico, os produtores do Oriente Médio começaram a intensificar suas novas estratégias nas últimas semanas — embora essas manobras não sejam infalíveis devido à estreiteza do estreito que limita opções de ocultação.

Cerca de 80% do tráfego pelo estreito foi classificado como “obscuro”, transitando próximo à costa omani para evitar detecções iranianas. Apesar das dificuldades enfrentadas — como dois ataques recentes a navios dos Emirados Árabes Unidos — essa abordagem tem sido amplamente utilizada.

Retornos ao Golfo Pérsico

Após reativar seu transponder, o Kiku ancorou próximo ao superpetroleiro grego Nave Electron no Golfo de Omã. Os dois navios permaneceram juntos durante uma transferência que durou uma semana e quando se separaram em 8 de agosto, o Nave Electron partiu carregado rumo ao Mar da Arábia.

No dia seguinte ao seu retorno aos radares, pouco antes das 16h, o Kiku reapareceu no Golfo Pérsico enquanto se dirigia novamente ao Catar. Essa movimentação reflete a adaptação contínua dos produtores às condições adversas impostas pela guerra e suas repercussões no mercado global.

Implicações futuras para o setor

A complexidade do atual cenário energético é acentuada por fatores externos como conflitos regionais e restrições na capacidade das refinarias globais. Com estoques reduzidos em até 1,9 bilhão de barris durante a guerra e as refinarias enfrentando dificuldades operacionais devido à alta demanda por combustíveis essenciais como gasolina e diesel — os preços dispararam além das expectativas.

Diante dessa situação desafiadora, as ações dos EUA incluem liberar milhões de barris da reserva estratégica enquanto tentam estabilizar sua produção interna. Contudo, essa estratégia não pode ser mantida indefinidamente sem consequências significativas no preço final do petróleo.

Cabe ressaltar que a habilidade do mercado em contornar as adversidades pode limitar aumentos drásticos nos preços; ainda assim, as incertezas permanecem elevadas enquanto os conflitos continuam sem solução à vista.

Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.

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