Startups dos EUA enfrentam desafio de fabricar robôs sem peças chinesas

Startups americanas enfrentam dificuldades para substituir componentes chineses na fabricação de robôs devido a tarifas e pressão de investidores.

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Sete anos depois de fundar a Chef Robotics em San Francisco, Rajat Bhageria enfrenta um desafio inédito: construir robôs sem qualquer componente vindo da China. A startup, que vende braços robóticos para automatizar a montagem de refeições prontas, sempre dependeu de peças chinesas— uma realidade que agora virou alvo de pressão de investidores e clientes.

Com a escalada da rivalidade entre EUA e China, o governo Trump endureceu as regras. A pergunta que Bhageria mais ouve mudou. Em vez de buscar o menor preço, ele precisa justificar por que ainda usa peças fabricadas no exterior.

O aperto na cadeia de suprimentos

Por muito tempo, a lógica era simples, segundo Bhageria: “Ei, vamos encontrar os melhores componentes e encontrá – los pelo menor preço”. A China oferecia exatamente isso — volume e custo baixos. Mas o cenário mudou radicalmente.

À medida que o país asiático passou a dominar setores como veículos elétricos e fábricas automatizadas, os EUA reagiram com medidas protecionistas. Em julho, inversores de energia e robôs avançados — incluindo modelos humanoides capazes de correr, pular e lutar — foram adicionados à lista de tecnologias estrangeiras restritas.

Carros com software chinês foram proibidos, e uma tarifa de 100% passou a valer para veículos elétricos chineses.

A própria Ford foi alvo de críticas do governo Trump neste mês por supostos vínculos com a chinesa CATL, fabricante de baterias. A montadora negou que estivesse cedendo a fabricação americana a entidades chinesas.

O preço de se desvencilhar da China

Bhageria tentou se antecipar. No ano passado, com o aumento das tarifas, ele quis transferir a produção dos utensílios plásticos dos braços robóticos — todos fabricados na China — para os EUA. O plano esbarrou em uma dura realidade.

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“Na verdade, tem sido um processo muito mais difícil do que esperávamos inicialmente”, disse ele. As oficinas mecânicas americanas consultadas foram diretas: “Não conseguimos fazer isso”. O custo para fabricar as garras plásticas nos EUA se mostrou proibitivo, e fornecedores fora da China não tinham capacidade para atender ao pedido.

Michael Murray, diretor executivo da Kopin Corporation, que fabrica componentes ópticos para drones do exército americano, passou por situação parecida. Ele levou mais de dois anos para realocar a fabricação de microdisplays da China para os EUA.

O custo subiu até 25%, embora os gastos tenham sido compensados por financiamento do Departamento de Defesa. “A China consegue produzir mais microdisplays em uma semana do que os EUA produzem em um ano”, afirmou.

Ben Armstrong, diretor executivo do Industrial Performance Center do MIT, resume o problema: “Grande parte de nossas vidas digitais é construída sobre a infraestrutura de componentes fabricados no exterior. Simplesmente não sabemos como fabricá – los nos EUA.

Portanto, haverá uma curva de aprendizado e, durante esse processo, o preço será alto.”

Impacto em robôs, universidades e no dia a dia

Gavin Kenneally, da Ghost Robotics, que fabrica cães – robô industriais e militares, enfrenta outro gargalo: os metais de terras raras. A China detém quase um monopólio global. A empresa já transferiu a produção de motores para a Coreia do Sul e busca ímãs de neodímio na Europa, mas a matéria – prima ainda vem da China — e estará sujeita a uma proibição do governo americano a partir de janeiro. “É um problema de cadeia de suprimentos extremamente difícil de resolver no curto prazo”, disse Kenneally.

O efeito também atinge as universidades. Sayan Mitra, professor de engenharia na Universidade de Illinois Urbana – Champaign, afirmou que vários cursos usam braços robóticos, drones e humanoides vindos da China. Versões fabricadas por americanos poderiam custar 10 vezes mais, e algumas opções de drones podem nem existir. “É como se estivéssemos tentando fazer uma cirurgia em um paciente que já está de pé”, comparou.

Até produtos domésticos estão na mira. A proibição da FCC sobre robôs móveis inclui aspiradores robóticos, limpadores de piscina e cortadores de grama — quase todos fabricados na China. Jitesh Ubrani, diretor de pesquisa da IDC, alerta: “É extremamente difícil transferir a fabricação para os EUA.

Os consumidores americanos acabam pagando muito mais.”

O receio do próximo passo

Saman Farid, fundador da coalizão Robots for America e da Formic, teme que o escopo das restrições continue crescendo. “No tempo que uma empresa americana leva para construir seu primeiro protótipo, uma empresa chinesa pode já estar na versão três.”

Bhageria, da Chef Robotics, sabe que seus componentes ainda não foram diretamente afetados pelas proibições. Mas ele já pensa no futuro. “Dá para imaginar qual será o próximo golpe, certo? Tipo, a próxima coisa podem ser os braços robóticos fixos.”

Enquanto os EUA tentam reerguer sua cadeia de suprimentos, o temor entre especialistas e empresários é que as restrições, em vez de protegerem a indústria americana, acabem atrasando ainda mais sua capacidade de competir com os rivais chineses.