Documentos judiciais apontam que a Six Flags adiou reparos em parques por anos
A Six Flags enfrenta acusações de negligenciar a manutenção de parques e brinquedos após anos de registros de falhas e ferimentos, segundo uma análise da CNN baseada em documentos públicos e judiciais. O escrutínio aumentou depois que Hassan Jihad Ibn Kariem, de 42 anos, morreu ao cair da montanha-russa Goliath, no Six Flags Over Georgia, próximo a Atlanta.
Após o acidente, a empresa suspendeu temporariamente o funcionamento de 10 atrações em sete estados. O incidente também deixou outras pessoas feridas. Nos últimos cinco anos, documentos de mais de uma dúzia de parques em três estados apontaram problemas como descarrilamento de trens, falhas em barras de contenção e lesões em visitantes.
Processos apontam adiamento de reparos e cortes de pessoal
Dois processos apresentados por investidores no ano passado alegam que, antes da fusão com a Cedar Fair, concluída em 2024, a administração da Six Flags adiou a manutenção básica, reparos na infraestrutura e atualizações de brinquedos, além de reduzir drasticamente o quadro de funcionários.
Em teleconferências com investidores citadas nas ações, um executivo falou da necessidade de investir em “itens pendentes” nos parques. Outro disse a um analista financeiro que a “lista de melhorias necessárias é sempre longa”. A empresa ainda não apresentou resposta judicial às acusações.
Uma das ações afirma que a Six Flags “deixou de realizar investimentos de capital adequados para a manutenção rotineira das instalações ou para a melhoria de brinquedos e atrações, além de ter efetuado cortes drásticos de pessoal”. A outra diz que, “durante anos, a Six Flags adiou ou simplesmente deixou de realizar” reparos necessários.
A Six Flags, maior operadora de parques temáticos do país, administra 30 parques aquáticos e de diversões em 13 estados. Em comunicado à CNN, afirmou estar “comprometida com procedimentos rigorosos de inspeção, manutenção e segurança, que atendem ou superam os padrões do setor”.
Seus relatórios financeiros recentes apontam dificuldades, com baixa frequência de visitantes e endividamento elevado, especialmente após a fusão com a Cedar Fair.
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Registros mostram falhas em parques de vários estados
Na Califórnia, desde 2021, órgãos reguladores receberam quase 300 relatos de acidentes em parques da rede. A legislação estadual exige que operadores informem ocorrências em que a manutenção, a operação ou o uso de um brinquedo permanente provoque morte ou ferimento grave, exceto quando o atendimento se limita a primeiros socorros básicos.
Os registros californianos incluem queimaduras químicas, luxações, concussões e fraturas. Em um caso, fluido hidráulico de um brinquedo atingiu o olho de uma pessoa. Os documentos oferecem detalhes limitados e alguns acidentes podem ter envolvido fatores como calor ou condições de saúde preexistentes.
No Six Flags Great Adventure, em Nova Jersey, registros estaduais apontaram lesões e problemas técnicos. Em 2024, um carrinho descarrilou por falha no equipamento e causou ferimentos leves. Também houve relatos repetidos de barras de segurança que se abriram durante o percurso, às vezes após a quebra de parafusos.
Em sete ocasiões, visitantes precisaram ser retirados de uma atração aquática do tipo “flume ride” por colisões entre embarcações, travamentos ou fumaça de componentes com defeito. Uma criança também recebeu atendimento médico depois de bater repetidamente a cabeça na barra de contenção de uma montanha-russa.
A montanha-russa de madeira El Toro, que chega a 113 kmh e tem uma queda de cerca de 54 metros (176 pés), também aparece em relatórios de segurança e processos. Em agosto de 2022, mais de uma dúzia de pessoas ficaram feridas após um solavanco durante o percurso.
No mês seguinte, o órgão estadual classificou a atração como “estruturalmente comprometida”; ela ficou fechada até junho de 2023, segundo a ação judicial.
No Texas, muitos relatos enviados a órgãos reguladores envolveram parques aquáticos. Há registros de visitantes arremessados de boias e feridos na cabeça, além de uma criança de 8 anos que quebrou o braço após prender as pernas no assento de um brinquedo infantil.
Um jovem de 21 anos ficou imobilizado após uma lesão nas costas em uma montanha-russa, e um homem de 37 anos relatou um “estalo” no pescoço, seguido de dormência nas mãos e quase desmaio, depois de usar outra atração.
Fechamento da X2 ocorreu após relatos de lesões cerebrais
A segurança dos brinquedos já havia sido questionada depois de uma investigação da CNN sobre a X2, no Six Flags Magic Mountain. A atração foi associada a mais de uma dúzia de casos de lesões cerebrais graves, hospitalizações e mortes, segundo a apuração.
A montanha-russa continuou em funcionamento por quase duas décadas, apesar do histórico de problemas. No mês passado, a empresa a fechou permanentemente, depois que a CNN noticiou que duas mulheres passaram por cirurgias cerebrais de emergência com seis dias de intervalo, em julho, e que mais de 100 visitantes haviam relatado lesões cerebrais.
O acidente fatal na Geórgia ocorreu menos de duas semanas após o fechamento da X2, que a administração atribuiu à perda de confiança dos visitantes. O presidente do Six Flags over Georgia afirmou que o parque mantém “um programa de segurança abrangente, baseado em inspeções rigorosas” e que coopera com as autoridades estaduais enquanto conduz sua própria investigação.
A Six Flags não comentou os ferimentos relatados a órgãos reguladores estaduais, mas declarou que todos os casos envolvendo visitantes são “levados a sério” e analisados. Representantes da empresa disseram que os incidentes examinados pela CNN abrangem diferentes parques, atrações, anos, jurisdições e circunstâncias, e que as exigências estaduais de notificação variam.
Por isso, acrescentaram, conclusões gerais sobre uma compilação de relatos podem não refletir o contexto de cada caso nem a abordagem geral da empresa em relação à segurança.
Acidentes são raros, mas falhas podem indicar problemas
Um relatório do setor registrou cerca de 1.500 casos de lesões em 2024. A maioria foi atribuída ao comportamento dos visitantes ou a condições médicas preexistentes; cerca de 25% dos casos envolveram problemas técnicos ou operacionais, como falhas mecânicas e erros de operadores.
Edward Pribonic, engenheiro de atrações e especialista em segurança de parques de diversões que já atuou como perito em processos contra a Six Flags, afirmou por e-mail que falhas mecânicas podem ocorrer mesmo quando normas e procedimentos são cumpridos. “No entanto, incidentes de segurança recorrentes e falhas mecânicas geralmente apontam para uma falta de atenção às normas e aos requisitos do fabricante, por um motivo ou outro”, disse.
Segundo ele, as causas costumam ser restrições orçamentárias ou “incompetência”.
Há mais de uma década, Rosa Esparza, de 52 anos, morreu após ser arremessada da montanha-russa Texas Giant, no Six Flags Over Texas. Testemunhas disseram ter ouvido um estalo, e funcionários contaram aos investigadores que a equipe de manutenção havia consertado sensores defeituosos na atração dias antes.
Registros também mencionam um homem que afirmou ter se ferido no mesmo brinquedo oito anos antes, “quando a barra de segurança não me manteve preso corretamente”. Uma mulher relatou que a filha gravou uma falha uma semana antes da morte de Esparza: o vídeo mostrava a barra de contenção se abrindo antes de o carrinho deixar a estação.
Na época, o Six Flags disse que a investigação não encontrou falha mecânica; a atração reabriu dois meses depois, com um novo sistema de contenção em formato de “T” e cintos de segurança.
A CNN solicitou dados a outros estados onde a Six Flags opera, incluindo a Geórgia, mas as autoridades ainda não haviam respondido.
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