Seminário na UFRGS debate a cobertura das enchentes de 2024 no RS

Um seminário intitulado “Perspectivas comunicacionais sobre os desastres climáticos” reuniu jornalistas, pesquisadoras e uma liderança indígena para debater o alcance das mudanças que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024.
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O evento foi realizado nesta sexta-feira (24), no Auditório 1 da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Fabico/UFRGS). Gratuito e aberto ao público, contou com interpretação em Libras e audiodescrição.
O encontro ocorreu mesmo diante dos novos episódios de chuvas fortes na região gaúcha, um cenário climático intenso que permeou boa parte das discussões realizadas pelos participantes.
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Debate sobre a comunicação após as enchentes
O seminário foi dividido entre duas mesas temáticas principais. A primeira abordou a comunicação pública e reuniu o jornalista Luciano Velleda e o cacique kaingang Odirlei Fidelis, liderança da aldeia Van Ká, no extremo sul de Porto Alegre.
Já a segunda mesa focou especificamente em como ocorre a cobertura midiática dos desastres sob uma perspectiva acadêmica mais profunda. Participaram Camila Santos; a professora Eloísa Beling Loose, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS; o jornalista Luís Eduardo Gomes, do Sul21; e Katia Marko, editora-chefe, e Clara Aguiar, repórter, ambas do Brasil de Fato RS.
A responsabilidade por trás do “desastre provocado”
“Um evento climático é natural. A chuva também é”, defendeu a jornalista Katia Marko, do Brasil de Fato. Segundo ela, o cenário não foi causado apenas por fenômenos naturais: “O desastre é provocado”, afirmou.
Marko relatou que o veículo, que se define como popular, teve dois profissionais atingidos pelas enchentes: o editor Marcelo Ferreira e a repórter Clara Aguiar.
Visibilidade para movimentos sociais
A cobertura da redação do Brasil de Fato apoiou-se fortemente nas fontes ligadas aos grandes movimentos sociais. Entre eles estavam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento de Trabalhadores por Direitos (MTD).
Para Marko, esses grupos são frequentemente alvo de criminalização pela grande imprensa tradicional; portanto, a reportagem buscou dar visibilidade às atuações desses coletivos na organização das cozinhas solidárias durante toda aquela crise.
“O lado que tem é o capital”, criticou ela, ao falar sobre a grande mídia. Ela também destacou uma reportagem publicada pelo portal em 3 de maio de 2024, nos primeiros dias das enchentes, com o professor Valério Pillar, sobre a relação entre a destruição do Pampa e a capacidade do solo de absorver água.
Da pesquisa acadêmica à vivência pessoal
A repórter Clara Aguiar, formada em Jornalismo pela Fabico/UFRGS, contou que já pesquisava o tema das inundações antes de se tornar, nas palavras dela, uma “atingida”. Na época dos fatos, morava em Canoas e precisou deixar seu lar por um período que totalizou 23 dias.
A experiência a levou a dedicar o trabalho de conclusão de curso (TCC) à cobertura do Brasil de Fato nos primeiros meses da enchente, período em que o veículo publicou 178 notícias sobre o tema. A pesquisa mostrou que as fontes usadas pela redação vieram principalmente dos movimentos sociais, sobretudo do MAB, superando as fontes institucionais. Aguiar interpretou isso como prova concreta do compromisso editorial em dar espaço às vozes historicamente marginalizadas.
Apontamento das falhas políticas
Outro achado foi que a cobertura não tratou os desastres apenas sob uma ótica naturalista, mas apontou responsabilidades políticas. Segundo o estudo, o governador Eduardo Leite foi criticado pela flexibilização da legislação ambiental, e o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, enfrentou questionamentos sobre suposta omissão diante dos alertas emitidos no período.
Nos dois anos seguintes ao evento trágico em 2024, Aguiar produziu diversas reportagens focadas nos centros humanitários temporariamente montados para acolher as famílias atingidas.
O trabalho culminou no documentário “Onde está a reparação?”, do Brasil de Fato com o MAB, que revisitou Eldorado do Sul, Canoas e Estrela, no Vale do Taquari, onde ainda há famílias vivendo em contêineres sem previsão de moradia definitiva.
Educação em comunicação para riscos climáticos
Após as apresentações das mesas temáticas, os participantes tiveram espaço aberto na plateia para perguntas e comentários que enriqueceram a discussão.
As perguntas do público destacaram o papel da educomunicação, não só durante as crises, mas também na preparação da população para eventos climáticos extremos. O debate reforçou a necessidade urgente de construir uma cultura de comunicação preventiva sobre riscos, ainda pouco consolidada no Brasil.
Atualização em 29/10/2026: o texto foi corrigido.
Editoria:
Redação Política
A Redação Política reúne a cobertura do Clique Fatos sobre governo, Congresso, eleições e Justiça. As matérias são produzidas com apoio de inteligência artificial a partir de agências e veículos citados no texto. Encontrou um erro? Escreva para [email protected].



