Produção global de biocombustíveis pode crescer 70% até 2030 e ameaçar segurança alimentar
Estudo aponta que aumento da demanda por etanol e outros biocombustíveis pode elevar inflação dos alimentos e desmatamento.
A produção global de biocombustíveis pode disparar nas próximas décadas. Um estudo divulgado nesta terça – feira (22) projeta um aumento de quase 70% até 2030, na comparação com os níveis de 2025. O salto, segundo a pesquisa, é impulsionado pela crise energética desencadeada pela guerra com o Irã, que levou os principais países produtores a elevarem suas metas de mistura desses combustíveis.
O levantamento foi feito em parceria entre o think tank britânico Chatham House, com sede em Londres, e o FSC (Forest Stewardship Council), organização sem fins lucrativos que atua com certificação. Biocombustíveis como o etanol, que geralmente vêm de culturas usadas na alimentação humana ou animal, ganham competitividade conforme o preço dos combustíveis fósseis sobe.
Riscos para a segurança alimentar e o desmatamento
O debate sobre os biocombustíveis não é novo. Há tempos eles estão no centro da discussão sobre se realmente ajudam a combater as mudanças climáticas ou se, na prática, agravam a inflação dos alimentos e o desmatamento. Os autores do estudo fazem um alerta direto: o atual ritmo de crescimento da demanda pode piorar esses dois problemas.
“Ao priorizar a segurança energética no curto prazo, algumas respostas de políticas públicas podem estar trocando isso por um aumento da insegurança alimentar no médio prazo”, afirmam os pesquisadores. Eles completam que qualquer choque adicional, como eventos climáticos extremos, pode afetar severamente os preços dos alimentos.
Países como Brasil, China, Índia, Indonésia e Estados Unidos, além da União Europeia, já propuseram ou adotaram metas mais altas de mistura de biocombustíveis. A estimativa dos autores é que, se todas essas metas forem implementadas integralmente, a área de terra necessária para a produção pode mais que dobrar até 2030, em relação a 2023.
Seriam 36 milhões de hectares adicionais — uma área equivalente ao tamanho da Alemanha.
O desafio da produção e o avanço dos preços
Os especialistas apontam um risco concreto: a velocidade com que as metas estão sendo elevadas pode fazer com que a demanda por matérias – primas cresça mais rápido do que a capacidade de criar salvaguardas ambientais e sistemas de certificação. “Isso cria riscos significativos para o planejamento do uso da terra e os mecanismos de fiscalização”, dizem.
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Há uma diferença importante entre os tipos de biocombustíveis. Os de primeira geração, feitos a partir de culturas como milho e cana – de – açúcar, tendem a gerar impactos negativos na degradação do solo, na segurança alimentar e no consumo de água, segundo o estudo.
Já os de segunda geração, ou avançados, são produzidos a partir de resíduos orgânicos, como óleo de cozinha usado. Matérias – primas cultivadas em terras degradadas ou entre temporadas de cultivo podem ajudar a recuperar áreas, mas esse não é o caso dos combustíveis convencionais.
O contexto de guerra também mexe com os mercados. Desde o fim de fevereiro, início do conflito com o Irã, os preços do petróleo bruto subiram quase 40%. No mesmo período, o açúcar e o milho avançaram cerca de 20%, o que reforça a pressão sobre os custos dos alimentos e a lógica por trás do aumento da demanda por biocombustíveis.