PL das Escolas Cívico-Militares em MG: O que preocupa educadores e especialistas?

Projeto de Lei das Escolas Cívico-Militares em Minas Gerais Gera Controvérsia
O governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), encaminhou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) um projeto de lei (PL) que visa instituir o Programa das Escolas Cívico-Militares (PECM) na rede estadual. Contudo, críticos à iniciativa a classificam como uma medida tanto eleitoreira quanto potencialmente perigosa para o sistema educacional.
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O texto proposto estabelece a colaboração entre a Secretaria de Estado de Educação (SEE-MG) e instituições militares. O objetivo declarado é fomentar a disciplina, a cultura de paz e uma educação integral, sem, contudo, interferir na autonomia pedagógica das escolas.
A adesão ao programa seria voluntária, exigindo consulta pública à comunidade escolar.
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Critérios de Implementação e Questionamentos Técnicos
Para a implementação do PECM, o projeto estipula critérios como o nível de vulnerabilidade socioeconômica da área, a complexidade da gestão escolar, medida por registros disciplinares, e o desempenho educacional geral. É permitido que militares da reserva atuem nas unidades, mas o projeto proíbe o uso de recursos do Fundeb para o pagamento desses profissionais.
Debate Histórico e Críticas Pedagógicas
Apesar da justificativa governamental, a proposta reacende um debate já existente em Minas Gerais, iniciado na gestão anterior de Romeu Zema (Novo). Há questionamentos de órgãos de controle sobre a expansão desse modelo no estado.
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Especialistas em educação alertam que o modelo conflita com princípios democráticos de ensino. Aline Choucair Vaz, da UEMG e da ReBEDH-MG, aponta que a proposta resgata uma tradição de influência militar na educação brasileira, focada em obediência.
Autoritarismo versus Autoridade Docente
Segundo a professora Vaz, a lógica do modelo se baseia em condicionar o indivíduo, transformando a educação em um ato de obediência, e não de questionamento. Os educadores ressaltam que a autoridade do professor é inerente ao seu saber, mas isso não deve ser confundido com autoritarismo.
Nesses modelos cívico-militares, o estudante corre o risco de ser visto como um sujeito passivo, obrigado a obedecer sem espaço para participação ou questionamento ativo.
Impactos Sociais e Questionamentos de Eficácia
O governo sugere que a adoção do modelo observe a vulnerabilidade socioeconômica, a complexidade de gestão e as fragilidades organizacionais. No entanto, Vaz argumenta que regiões de maior precariedade social são historicamente mais visadas.
Ela alerta que essa abordagem pode ser uma tentativa de controle populacional, utilizando um discurso que, por vezes, criminaliza a população e sugere que apenas a polícia consegue “docilizar” esses grupos.
Contestações de Entidades e Órgãos de Controle
O Fórum Permanente de Educação de Minas Gerais (Fepemg) contesta a efetividade, alegando ausência de provas científicas de que o modelo reduza a violência ou melhore o aprendizado. Além disso, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) já havia apontado inconsistências em fevereiro deste ano.
Na ALMG, a deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) classifica o PL como uma manobra política, enviada em um momento eleitoral, visto que o governo teria tempo para apresentar políticas estruturantes.
Posicionamentos Sindicais e Falta de Debate
O Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) manifestou-se contra o projeto, criticando a falta de diálogo e classificando-o como uma militarização da escola pública. A entidade aponta que o modelo favorece uma educação baseada em hierarquia e obediência.
O sindicato lembra que o programa já foi rejeitado em experiências passadas e teve sua expansão barrada pelo Tribunal de Contas, retornando agora com uma nova roupagem, mas com os mesmos problemas estruturais.
A proposta também enfrenta questionamentos orçamentários, já que não há previsão de recursos para 2026 no orçamento aprovado, dificultando sua implementação no curto prazo.
Autor(a):
Gabriel Furtado
Gabriel é economista e jornalista, trazendo análises claras sobre mercados financeiros, empreendedorismo e políticas econômicas. Sua habilidade de prever tendências e explicar dados complexos o torna referência para quem busca entender o mundo dos negócios.



