PF abre inquérito sobre campanha de influenciadores contra o Banco Central no caso Master

O Banco Central (BC) decretou a liquidação do Banco Master em novembro de 2025. Poucas semanas depois, perfis com milhões de seguidores passaram a publicar críticas à atuação da autoridade monetária, em uma movimentação que, para a Polícia Federal, poderia fazer parte de uma estratégia para defender o banqueiro Daniel Vorcaro e contestar a decisão sobre a instituição.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Batizada internamente de “Projeto DV”, em alusão às iniciais de Vorcaro, a iniciativa teria incluído a contratação de influenciadores por meio de acordos de confidencialidade. A suspeita é investigada em um inquérito instaurado em 28 de janeiro.
Como surgiu a investigação sobre o “Projeto DV”
Na portaria de abertura do caso, a delegada responsável registrou a hipótese de que Vorcaro “teria contratado empresa de marketing para realizar propaganda negativa eou difamação do Banco Central perante a sociedade”. A PF também avaliou que a ação poderia “atravancar o andamento das investigações”.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O documento menciona ainda a possibilidade de o empresário tentar “influenciar as decisões em curso” no STF e no TCU (Tribunal de Contas da União). Os investigadores apontaram uma possível prática do crime de embaraçar investigação envolvendo organização criminosa.
O vereador Rony Gabriel foi ouvido como testemunha em 12 de fevereiro. Ele relatou que recebeu, em 20 de dezembro de 2025, uma proposta encaminhada por um assessor. O serviço foi apresentado como “gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande”.
Propostas feitas a Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite
A mensagem enviada ao vereador dizia: “É um caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e centrão envolvidos”. Mais detalhes seriam fornecidos após a assinatura de um acordo de confidencialidade.
O documento anexado ao inquérito trazia a identificação “PROJETO DV”, proibia manifestações públicas sobre o trabalho sem autorização e previa multa de R 800 mil em caso de quebra do sigilo. Depois de assinar o acordo, Rony participou de uma videochamada em 29 de dezembro.
Leia também
Segundo ele, foi nessa conversa que o nome de Vorcaro apareceu pela primeira vez.
Não houve definição de valores durante a reunião, mas o vereador afirmou à PF: “Ficou muito claro que se tratava de valores milionários”. A orientação seria sustentar que “o Banco Central errou” e que o TCU “deveria intervir”. Rony recebeu links de publicações feitas por outros perfis como referência para o conteúdo.
“Eles tinham um roteiro, mas ele poderia ser dito da forma que eu achasse melhor, cada um com seu estilo”, declarou. A oferta também incluía passagens para uma viagem a São Paulo, onde ele conversaria pessoalmente com o interessado. Rony recusou no mesmo dia e afirmou ter tornado o caso público depois de perceber semelhanças entre a abordagem e questionamentos que surgiam no TCU sobre a liquidação.
A jornalista Juliana Moreira Leite contou aos investigadores que foi procurada em 21 de dezembro, pelo Instagram, por um homem que se identificou como representante de uma agência. Nos áudios, preservados em cartório, ele falou de um cliente interessado em divulgar “várias matérias” de “âmbito político, financeiro”.
A proposta previa contrato de pelo menos três meses, com oito vídeos por mês, além da assinatura de um termo de confidencialidade. Juliana encerrou a conversa após receber, como referência, um texto que questionava a liquidação do Banco Master. “A minha opinião não está à venda”, disse a jornalista.
Ela afirmou, no entanto, que não poderia atribuir a proposta a Vorcaro, porque recusou o trabalho antes de descobrir quem seria o cliente.
Inquérito no STF e novas etapas da Operação Compliance Zero
O caso foi separado em um inquérito próprio no STF e passou à relatoria do ministro André Mendonça. No fim de março, o magistrado prorrogou as investigações.
A PF também citou a suposta atuação no ambiente digital no pedido que resultou na nova prisão de Vorcaro, em março. Na representação, os investigadores disseram que, mesmo preso, o banqueiro “seguiria utilizando o ambiente digital com a finalidade de influenciar e atacar instituições públicas”.
Paralelamente, a PF buscava ouvir o publicitário Thiago Miranda, dono da agência MiThi. A defesa solicitou acesso aos autos e adiou o depoimento, inicialmente marcado para março. Em abril, a polícia voltou a intimá – lo e convocou o jornalista Léo Dias, cujo grupo de comunicação tinha Miranda como sócio.
Os mandados não informavam em que condição os dois seriam ouvidos, e as defesas pediram a remarcação das oitivas. Em maio, Miranda confirmou à PF que havia contratado influenciadores e apresentado o plano a Vorcaro. Dois meses depois, foi alvo de busca e apreensão em uma nova fase da Operação Compliance Zero.
Posição da A UNLTD Brasil
Em nota divulgada em julho, a A UNLTD Brasil, empresa citada no acordo de confidencialidade, declarou não ter contrato com o Banco Master.
A CNN Brasil tenta contato com os citados. O espaço segue aberto para manifestação.
Autor(a):
Ricardo Tavares
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.



