Papa Leão XIV pede que Igreja admita falhas antes de encontro com vítimas de abuso

Papa Leão XIV pede humildade à Igreja antes de reunião com sete vítimas francesas de abuso.

Papa Leão XIV celebra missa em Lourdes, na França

O papa Leão XIV fez um apelo direto neste domingo (27) para que a Igreja Católica reconheça seus próprios erros e se empenhe em curar as “feridas profundas” causadas dentro de sua própria instituição. A declaração aconteceu horas antes de um encontro marcado com vítimas de abuso sexual infantil cometido por padres na França, país que ainda lida com as consequências de um dos maiores escândalos de sua história recente.

Diante de uma multidão estimada em 150 mil pessoas reunidas em um campo próximo ao santuário de Lourdes, o primeiro papa norte – americano não citou diretamente os casos de abuso que abalaram a França, mas pregou humildade. “Para curar as feridas profundas, as infidelidades e os erros dolorosos ocorridos em seu interior, devemos nos colocar humildemente sob o olhar purificador do Senhor”, disse Leão XIV, sob um dia de sol, durante uma visita de quatro dias e três cidades ao país.

O encontro com vítimas e o ceticismo dos sobreviventes

Mais cedo, em uma reunião a portas fechadas com bispos franceses, o papa foi mais explícito. Segundo texto divulgado pelo Vaticano, ele mencionou “o flagelo doloroso dos abusos cometidos contra menores por membros do clero”. Leão XIV agradeceu aos líderes religiosos pelas “medidas corajosas” já adotadas e pediu que reforcem a proteção de crianças e adolescentes, “mantendo a máxima vigilância”.

Ainda neste domingo, o papa tem prevista uma reunião reservada com sete vítimas francesas de abusos do clero. O encontro, no entanto, é visto com desconfiança por parte dos sobreviventes. “Sou bastante cética quanto à ideia de que o papa resolverá a questão, pelo menos não imediatamente”, disse Michèle Le Reun – Gaigné, copresidente de uma associação de vítimas no oeste da França, à agência Reuters. “As coisas estão avançando muito lentamente.

Isso não vai acontecer da noite para o dia”, completou.

O bispo Pierre – Antoine Bozo, porta – voz dos bispos franceses, defendeu a iniciativa. Para ele, o gesto do papa “mostra que não podemos ignorar essa questão e que ela deve permanecer sempre entre as nossas preocupações”. A expectativa é que a visita ajude a restaurar a imagem da Igreja na França, abalada desde 2021, quando um relatório revelou que cerca de 330 mil crianças foram vítimas de abuso por membros do clero e líderes leigos católicos em sete décadas.

Lourdes e a sombra de um escândalo do Vaticano

A passagem de Leão XIV por Lourdes também reacendeu outro caso que persegue a Santa Sé. A fachada do santuário, que atrai cerca de 3 milhões de peregrinos por ano, exibe mosaicos do padre Marko Rupnik, um artista religioso acusado de abuso sexual por mais de 20 mulheres.

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As obras, que ocupam vários andares, foram cobertas com lonas amarelas para a visita papal. Não há registro de que Rupnik tenha comentado publicamente as acusações.

Na quinta – feira (24), cinco supostas vítimas do religioso enviaram uma carta aberta ao papa, criticando o andamento do processo canônico contra ele. Ao chegar para a missa deste domingo a bordo do papamóvel aberto, Leão XIV passou próximo à fachada coberta, sem fazer menção direta ao caso.

Durante a estadia em Lourdes, o papa também voltou a defender a posição da Igreja contrária à morte assistida. Dois meses após a França legalizar o direito à morte para pessoas com doenças incuráveis, Leão XIV afirmou que o acolhimento de peregrinos enfermos no santuário contrasta com “as tendências atuais que buscam redefinir o valor da vida humana diante da doença”.

O pontífice também repetiu o pedido para que o mundo repense o desenvolvimento da inteligência artificial.