Mbappé perde patrocinadores chineses após chamar Mao Tsé-Tung de “um cara qualquer” em podcast
Patrocinadores chineses e internacionais romperam parcerias com Kylian Mbappé em menos de 24 horas depois que um trecho de podcast em que o capitão da seleção francesa chamou Mao Tsé-Tung de “um cara qualquer” viralizou na China. Mengniu Dairy, Shanghai Milkground e a fabricante de bebidas energéticas Eastroc anunciaram o fim dos contratos com o atacante do Real Madrid.
O atacante pediu desculpas na terça-feira e classificou as declarações como “infelizes”.
Até onde vai a indignação real
Uma das perguntas mais difíceis em casos como esse é separar a revolta espontânea da população do que é amplificado pela mídia estatal, pelas plataformas digitais e por agentes oficiais. No caso Mbappé, essa fronteira é difícil de traçar. Com a controvérsia em alta, as declarações originais sobre Mao ficaram, em grande parte, inacessíveis na internet chinesa, submetida a forte censura.
Na prática, muitos consumidores acabaram expostos mais às notícias sobre o abandono de patrocinadores e à condenação de veículos oficiais do que às palavras do jogador. “O que tivemos nesta situação foi, até certo ponto, uma indignação fabricada”, afirmou Mark Dreyer, analista esportivo e autor de “Sporting Superpower”, livro sobre as ambições esportivas da China.
Ainda assim, Dreyer considera imprudente que ligas, clubes e atletas subestimem as reações que episódios como esse podem provocar. “Eles não podem parecer estar dando uma orientação explícita aos jogadores para que não digam nada que possa ofender a China”, afirmou. “Claro que, nos bastidores, tenho certeza de que as pessoas estão sendo orientadas: apenas tenham cuidado, sejam sensatas e estejam cientes de que esse tipo de reação pode acontecer.”
Zak Dychtwald, fundador da Bridge Works Global, consultoria que assessora organizações multinacionais, disse que controvérsias desse tipo continuam relativamente comuns, mas podem ser evitadas. “Se você participa desse mercado, existe a expectativa de que respeite a narrativa que a China constrói sobre si mesma e tenha uma compreensão básica sobre ela. A educação sobre as linhas vermelhas deve estar na base de tudo”, afirmou.
Linhas vermelhas raramente são definidas
Marcas, ligas e celebridades enfrentam outro obstáculo. As linhas vermelhas políticas e culturais da China são amplamente conhecidas, mas raramente são definidas com clareza. Essa incerteza leva empresas a se afastar de figuras envolvidas em controvérsias antes mesmo que a dimensão de uma eventual ofensa esteja estabelecida.
“Não existe uma regra escrita em preto e branco sobre o que ultrapassa o limite”, afirmou Wei Kan, fundador da consultoria Conduit Asia. Segundo ele, o limite muda conforme “como os consumidores se sentem, do clima mais amplo da sociedade e de como plataformas e veículos de comunicação amplificam uma história”.
Para empresas estrangeiras, as sensibilidades chinesas não deveriam ser novidade. Analistas afirmam, porém, que riscos políticos e culturais costumam ser tratados como questões secundárias, e não como perigos comerciais rotineiros. Mac Ritchie afirmou que sua empresa inclui cláusulas comportamentais e de reputação em contratos de publicidade.
Outros especialistas defendem treinamentos específicos para cada mercado, preparação para entrevistas e planejamento de resposta a crises. Para eles, esses mecanismos já são necessidades, e não precauções opcionais. “Quando dá certo, todo mundo comemora”, afirmou Dychtwald. “Mas, quando você erra com a China, a retaliação pode ser extraordinariamente dolorosa e rápida.”
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