Lvmh assinou acordo em 2002 para comprar ações de herdeiro da Hermès, dizem documentos

Documentos obtidos pela Reuters contradizem defesa da LVMH e indicam negociação secreta com herdeiro da Hermès em 2002.

17/09/2026 13:20

4 min

LVMH realiza assembleia anual de acionistas em Paris
LVMH realiza assembleia anual de acionistas em Paris

A LVMH negou de forma categórica, em documento apresentado à Justiça em junho, ter tentado comprar as ações do herdeiro da Hermès, Nicolas Puech. Mas dados de um processo judicial obtidos pela Reuters indicam o contrário: o grupo de luxo assinou um acordo em 2002 para adquirir justamente a participação de 6% do acionista — fatia que hoje vale cerca de US 10 bilhões.

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Puech move uma ação na França desde o ano passado, em que pede 14 bilhões de euros de indenização de quem for considerado culpado pelo desaparecimento de sua fortuna. A LVMH, o presidente bilionário Bernard Arnault e empresas ligadas ao já falecido gestor de patrimônio Eric Freymond são réus.

Na defesa, a LVMH afirmou que “nunca cogitou adquirir a participação de Nicolas Puech, muito menos contra sua vontade”.

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Documentos contrariam a defesa da LVMH

Os papéis analisados pela Reuters mostram que a LVMH assinou em 2002, por intermédio de Freymond, um contrato para comprar as ações do herdeiro. O negócio foi estruturado por representantes da companhia junto com o consultor financeiro de Puech, que morreu em julho de 2025 ao ser atingido por um trem na Suíça — as autoridades suíças concluíram que foi suicídio.

Além do acordo, os documentos revelam que a LVMH e a holding da família de Arnault pagaram ao menos US 20 milhões em comissões e honorários à empresa de gestão patrimonial de Freymond entre 2001 e 2009. Foi justamente nesse período que o consultor ajudou a LVMH a construir secretamente uma grande participação na Hermès.

Em um processo na Suíça de 2017, a LVMH afirmou que o acordo de 2002 nunca chegou a ser executado. Disse ainda que não conseguiu verificar se Puech havia autorizado Freymond a vender os papéis. Segundo a companhia, o documento foi destruído no fim de 2010, ano em que o grupo revelou ter 17% da rival — participação que chegou a 23% antes de ser vendida em 2014.

A relação com o gestor de confiança do herdeiro

O advogado suíço Alexandre Montavon afirmou a promotores franceses em maio que assessorou a LVMH na elaboração do acordo de 2002. Em depoimento, disse que Freymond sugeriu usar as contas de Puech como canal de passagem para ações da Hermès pertencentes a outros investidores, com o objetivo de ocultar que a verdadeira compradora era a LVMH. “Freymond nos sugeriu realizar essas operações por meio de Nicolas Puech, financiadas pela LVMH, e foi isso o que aconteceu”, declarou Montavon.

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A LVMH não respondeu aos questionamentos da Reuters sobre o suposto uso das contas de Puech. Em documento judicial de 2017, a companhia reconheceu que, com a ajuda de Freymond, já havia acumulado 4,9% da Hermès até 2002. A empresa queria ampliar essa participação, e o acordo de novembro de 2002 previa a compra de milhões de ações adicionais de Puech e de outros herdeiros.

Montavon disse aos investigadores que “absolutamente nunca” perguntou diretamente a Puech sobre o acordo, argumentando que o herdeiro “tinha um representante” — Freymond — “a quem concedeu todos os poderes”. O advogado nega qualquer irregularidade.

Até o momento, não há acusações criminais contra ele, mas os promotores investigam se ele “participou da apropriação indevida das ações da Hermès pertencentes a Nicolas Puech em benefício da LVMH”.

O que se sabe até agora

Puech afirma que só descobriu que suas ações haviam desaparecido em 2022, depois de romper relações com seu gestor patrimonial. A investigação criminal na França tem como alvos o falecido Freymond e Montavon. A LVMH, por sua vez, se recusa a comentar o acordo ou os pagamentos.

A Hermès também não comenta o caso.

O mistério continua nos tribunais de Paris. O que ocorreu exatamente com as ações de Puech — e se os recursos da venda chegaram ao herdeiro — ainda é incerto. A LVMH nunca informou se comprou os papéis. No processo de junho, reconheceu ter trabalhado com Freymond para acumular ações da Hermès, mas alegou que qualquer compra das ações do herdeiro teria ocorrido sem intenção.

Autor(a):

Com formação em Jornalismo e especialização em Saúde Pública, Lara Campos é a voz por trás de matérias que descomplicam temas médicos e promovem o bem-estar. Ela colabora com especialistas para garantir informações confiáveis e práticas para os leitores.

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